Multidão em Paris alerta governo: "apesar do teu Rolex, a hora da revolta chegou"

França para contra assalto de
Hollande ao Código do Trabalho

Tentativa de revogação da CLT dos franceses pelo governo Hollande levou às ruas trabalhadores, estudantes e aposentados em Paris e 260 cidades. Pararam trens, voos e parte dos serviços públicos

 

Para repudiar a tentativa do governo de François Hollande de literalmente revogar o Código do Trabalho, a CLT dos franceses, via a chamada ‘lei El-Khomri’ que coloca o “acordado” pelas empresas acima do legislado, surrupia direitos e agrava a precarização, centenas de milhares de trabalhadores, estudantes e aposentados tomaram as ruas na França nesta quinta-feira (31), em uma mobilização ainda maior que a do dia 9 e paralisações atingindo trens, vôos, setores do serviço público, escolas do ensino médio e universidades. O protesto exige a retirada do projeto de lei, que começa a ser debatido na próxima semana na Assembleia Nacional e deverá ir à votação até o dia 2 de maio.

“Casser le Code du Travail - non, merci!” (cassar o Código do Trabalho – não, obrigado!): as manifestações ocorreram em mais de 260 cidades, com as maiores sendo realizadas na capital, Paris, Nantes, Tolouse, Lyon, Bourdeaux, Rouen e Estrasburgo, por convocação da CGT francesa e outras três centrais, mais a União Nacional dos Estudantes Franceses (UNEF) e a entidade nacional secundarista (FIDL).

Em Marselha, os trabalhadores da Arcelor-Mittal (siderurgia) uniram-se à manifestação. Entre outras aberrações, a “El-Khomri” – o nome é em homenagem à ministra do Trabalho de Hollande - possibilita burlar a jornada de trabalho para até 60 horas semanais, reduz o pagamento das horas extras de 25% para 10%, libera demissões e reduz indenizações e generaliza a partir do próximo ano o sistema de precarização e arrocho salarial dos jovens, introduzido experimentalmente em 2013. Petição na internet pela retirada do projeto já colheu mais de 1,3 milhão de assinaturas e extravasou nas ruas.

81% CONTRA HOLLANDE

Hollande, cuja rejeição, de acordo com as pesquisas é de 81%, a um ano da próxima eleição presidencial, tentou manipular as centrais sindicais e os estudantes, com mudanças cosméticas no projeto de lei, após as manifestações do dia 9, mas, como este dia 31 revela, a manobra fracassou. Às 13h30, hora local, a manifestação partiu da Praça da Itália, local da concentração, rumo à Praça da Nação, encabeçada pelo presidente da CGT, Philippe Martinez, pelo secretário-geral da central Força Operária, Jean-Claude Mailly, pela líder da FSU, Bernardette Groison, e pelo presidente da UNEF, William Martinet.

De acordo com o ex-candidato a presidente da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, “esse tipo de lei neoliberal é, obviamente, requisito direto de Bruxelas”, e repete o que já vem sendo imposto a outros países europeus, como Itália, Espanha, Portugal e Grécia. Por seus efeitos, o projeto está sendo comparado à famigerada ‘Legislação Volkswagen’ do governo Schroeder, que, entre outras coisas, criou os ‘minijobs’, o subemprego oficializado a 400 euros por mês.

Sob o impacto da política pró-bancos, no mês passado, o desemprego voltou a subir na França e já atinge, na medida mais ampla (sem-emprego mais os em tempo parcial) 7,77 milhões de pessoas, quase 11%. Entre os jovens, está ainda pior, em torno de 25%, que chega a 40% nos subúrbios pobres, habitados por imigrantes árabes e africanos, e os que conseguem um trabalho, em geral só com salário muito abaixo do salário mínimo e com contrato por tempo determinado. É por isso que a indignação da juventude não cessa de crescer.

Cinicamente, Hollande, que cortou 50 bilhões de euros nos programas sociais e isentou corporações e bancos de pagar 40 bilhões de impostos, diz que o objetivo da sua “lei do trabalho” é garantir “estabilidade no emprego” aos trabalhadores e “flexibilidade” para as empresas. O que foi ironizado por uma faixa na manifestação em Paris: “Benef só para a Medef [a Fiesp francesa]”.

Como denunciou Martinez, as corporações francesas foram campeãs na Europa em matéria de distribuição de dividendos aos acionistas e bônus aos executivos. “Os jovens não são estúpidos, eles percebem que tudo proposto pelo governo em nome da modernidade é um passo para trás e o novo Código do Trabalho não cria postos de trabalho”. De acordo com pesquisa de opinião do instituto Odosa para o jornal Le Parisien e France.Info, 70% dos franceses rechaçam a ‘lei El-Khomri’.

Um jovem ouvido pelo Liberation, Ugo, lembrou medidas semelhantes supostamente para reduzir o desemprego entre jovens em outras partes da Europa, mas que criaram uma categoria de ‘pré-trabalhadores’, até 26 anos, que recebem no máximo 1/3 do salário mínimo vigente e com contratos por tempo determinado – acabou, é rua. Há os ‘minijobs’ na Alemanha; os Contrato Zero, na Inglaterra, em que o ‘detentor’ só ganha quando é chamado por algumas horas (zero hora garantida) e outras obscenidades.

O depoimento de uma zootecnista de 32 anos, Yvonnick Pongerard, cujo contrato de trabalho se encerra no dia 4 de maio, retrata bem a situação vivida hoje na França. “Este é o contrato mais longo que eu já tive, seis meses. Normalmente demora algumas semanas ou dias. Eu tive acesso ao seguro-desemprego apenas uma vez. É difícil viver com 500 euros. O elevador social não está trabalhando, não existe mais. Sim, a nossa geração está sendo sacrificada, temos um padrão de vida mais baixa do que a de nossos pais e avós. Já somos flexíveis, mas tudo o resto é rígido”.

“Como é alguém que é “[trabalhador em regime] precário” faz para alugar um apartamento, assinar um contrato, pedir um empréstimo ao banco, começar uma família? Nós não temos como fazer projetos. Em maio, no final do meu contrato a termo certo, eu não sei o que vou fazer. Eu vou tentar a sorte no centro de emprego, senão, estou lascada. E eu me sinto em uma atmosfera de culpa permanente: [nos dizem] se não encontrar trabalho, é que não procuramos o suficiente. Hollande foi eleito contra a agenda neoliberal de Sarkozy e agora pratica uma política que o próprio Sarko não teria coragem de fazer”.

Como assinalou o líder da central FO, Mailly, “estamos no impasse” e a queda de braço vai continuar. “Se o governo não ouvir, haverá outros dias”. Ele comemorou o recuo de Hollande na questão da cassação da cidadania dos acusados de “terrorismo”: “foi sábio”. Há dez anos atrás, a juventude francesa e os trabalhadores acabaram botando milhões na rua, parando a França, e derrubaram o famigerado projeto do ‘primeiro emprego’ do governo Chirac/Villepin e, dez anos antes, outro estrupício contra os trabalhadores, de Allain Juppé, também acabara na lata do lixo. Como assinalou uma faixa na manifestação desta quinta-feira “apesar do teu Rolex, a hora da revolta chegou”.

                                                                                                                          ANTONIO PIMENTA 

 

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História da Petrobrás - (8)