Procurador: Lula e Dilma tentaram obstruir Justiça

Com base nas confissões de Delcídio do Amaral a PGR reuniu várias provas de que a presidente e o ex-presidente maquinaram para obter silêncio de ex-diretor da Petrobrás 

Até a manhã de quinta-feira, quando o ministro Teori Zavascki, do STF, suspendeu o mandato de Eduardo Cunha – e, por consequência, o afastou da presidência da Câmara – a chamada vida política (ou, mais precisamente, a vida de certos políticos) parecia se passar em algum planeta muito distante.

O senador Anastasia leu seu parecer a favor do impeachment. Dilma retrucou que Anastasia era um "ingrato", porque, quando era governador de Minas, "recebeu muita ajuda do governo federal".

O espírito republicano de Dilma consiste, pelo visto, no popular "uma mão lava a outra".

Já um amigo do ex-presidente Lula, disse que "ele está de saco cheio" de Dilma. Mais do que o povo brasileiro, dificilmente. Mas Lula merece: foi ele quem criou a atual situação; não somente elegeu e reelegeu Dilma, mas a apoiou em todas as suas mais reacionárias, antinacionais e antipopulares maluquices, inclusive no delírio neoliberal do segundo mandato. Com isso, vinculou-se à fraude eleitoral e à destruição do país.

No Planalto, discutia-se se Lula iria descer a rampa com Dilma, depois que o Senado a afastar, para que se recolha ao Alvorada, quando alguém lembrou a declaração de Lula, na época em que Collor, também afastado, pretendeu morar na Granja do Torto até o julgamento pelo Senado: "Se o governo quer dar casa para o Collor, então que conceda um espaço na Casa de Detenção. Ele cometeu o que cometeu e agora vem pedir mordomias?".

ABERTURA

As coisas mudam. Em sua "Manifestação sobre o Inquérito nº 3989", dirigida ao ministro Teori Zavascki, em que pediu a abertura de investigação sobre Lula e mais 30 próceres do PMDB e do PT, o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, depois de estabelecer que "a organização criminosa tem dois eixos centrais. O primeiro ligado a membros do PT e o segundo ao PMDB", relata o seguinte:

"... se constatou que Luiz Inácio Lula da Silva, José Carlos Bumlai e Maurício Bumlai atuaram na compra do silêncio de Nestor Cerveró (…). Os depoimentos de Nestor Cerveró deixam evidente que a intenção dos articuladores do silêncio de Nestor era esconder fatos ilícitos envolvendo Luiz Inácio Lula da Silva, José Carlos Bumlai, André Esteves, Delcídio do Amaral, além de outras pessoas que possivelmente também integram a organização criminosa objeto deste inquérito".

Em outro documento, Janot pede a abertura de investigação sobre Dilma, Lula e José Eduardo Cardozo, também por obstrução das investigações e da Justiça.

O procurador transcreve trechos dos depoimentos de Nestor Cerveró, ex-diretor internacional da Petrobrás - e do líder do governo Dilma, Delcídio do Amaral: "Foi chamado por Lula, em meados de maio de 2015, em São Paulo, para tratar da necessidade de se evitar que Nestor Cerveró fizesse acordo de colaboração premiada com o Ministério Público Federal. Lula teria incumbido Delcídio de viabilizar a compra do silêncio de Nestor de forma a proteger José Carlos Bumlai".

Diz o procurador:

"A respeito desse fato, há diversos outros elementos, tais como e-mail com comprovante de agendamento da reunião entre Lula e Delcídio no Instituto Lula no dia 08/05/2015; comprovantes de deslocamento efetivo do Senador para São Paulo compatível com esta data; outros documentos que atestam diversas outras reuniões entre Lula e Delcídio no período coincidente às negociatas envolvendo o silêncio de Nestor Cerveró, além de registros de diversas conversas telefônicas mantidas entre Lula e José Carlos Bumlai e entre este e Delcídio".

Janot transcreve vários depoimentos, inclusive o de Otávio Azevedo, presidente – até sua prisão – do Grupo Andrade Gutierrez: "... em 2008 teve reunião, a pedido do PT, com o então presidente do Partido, hoje ministro, Ricardo Berzoini, que de forma bastante clara e na presença do então tesoureiro do PT, João Vaccari, e do executivo da Andrade, Flávio Machado, cobrou, a título de propina, 1% de todas as obras negociadas entre a empresa e o governo federal, desde o início de 2003, quando o ex-presidente Lula assumiu o governo. O percentual, nas palavras do colaborador, deveria ser pago em relação às "obras presentes, passadas e futuras da AG, isto é, de 2003 pra frente". (…) a propina era paga por meio de doações oficiais ao partido e cobrada sistematicamente por João Vaccari.

"... Otávio afirmou ainda que, durante o mandato do ex-presidente Lula, ele ajudou a empresa Andrade a conseguir um contrato na Venezuela. Outro executivo da Andrade, Flávio Machado, disse a Otávio que Vaccari também cobrou 1% de propina em relação aos valores financiados pelo BNDES naquela obra da Venezuela, que correspondia a cerca de 40% do valor total. Esses fatos também foram corroborados por Rogério Nora, então presidente da Construtora Andrade, inclusive em relação ao pagamento de 1% sobre os valores liberados pelo BNDES para financiamento da obra na Venezuela, para a qual o ex-presidente Lula concorreu diretamente. Rogério Nora acrescentou ainda que no âmbito dos negócios firmados com a Petrobras, 2% do valor dos contratos de engenharia era pago ao PT e 1% da área de abastecimento e refino para o PP e posteriormente ao PMDB.

"Além dos documentos já referidos (…) foram interceptados, com a devida autorização judicial, diversos terminais telefônicos que tinham como alvo o ex-presidente Lula. Nesses diálogos, há registros que apontam para a participação direta de Lula na tentativa de interferir no trabalho do Poder Judiciário e do Ministério Público Federal, seja no âmbito da Justiça de São Paulo, seja do Supremo Tribunal Federal ou mesmo da Procuradoria-Geral da República".

A desgraça é que se trata de um ex-presidente da República (duas vezes), que jogou sua respeitabilidade – e sua popularidade – pela janela, envolvido pelo niilismo moral do neoliberalismo, este sistema de bandidos monopolistas.

FAROL

Foi o republicano Júlio de Castilhos quem chamou, em janeiro de 1885, os últimos anos do Segundo Reinado de "quadra de corrupção e de embustes". Na época, ainda não era visível o fim daquela podridão que consumia o regime monárquico, dos alicerces até a cúpula. Mas esse fim chegou - e só pareceu abrupto para os áulicos - em novembro de 1889.

Dilma ou Temer não são melhores que Pedro II. Pelo contrário, perto daquelas duas nulidades, a mediocridade do imperador é um farol em noite sem lua. Agora, com uma velocidade avassaladora, todos os esgotos que invadiram a República são revelados e expostos à execração nacional.

É verdade que, em 1889, o país não parecia um manicômio ou uma casa de tolerância, em que o vice-presidente forma um governo de investigados pela Lava Jato e a ainda presidenta, patronesse dos magnatas da mesma Lava Jato, figura que nem pode aparecer em público sem uma plateia amestrada (nem na televisão), diz, como na quarta-feira, que está sofrendo um golpe daqueles que "não têm voto, nem popularidade". Disse isso para a BBC – ela deve achar que os ingleses vão acreditar, só porque a Inglaterra fica do outro lado do Atlântico.

Mas isso é apenas o sinal de que isso tem que acabar, portanto, vai acabar, porque a tolerância – a do povo – está próxima do fim.

CARLOS LOPES

 

Capa
Página 2
  Página 3

Procurador: Lula e Dilma tentaram obstruir Justiça

Rousseff diz agora que seu ex-líder no Senado é “mentiroso e leviano”

Zavascki tira Cunha da Câmara

Temer abre as portas para investigados da Lava Jato

Campanella: De volta, as pérolas do sr. Meirelles (1)

Relator vê “indícios suficientes” para o Senado abrir o processo
de impeachment da Sra. Dilma

Página 4 Página 5

Previdência e direitos continuam ameaçados com Temer, diz Anfip

Professores do Rio mantêm greve e exigem pagamento dos salários e benefícios atrasados

Liminar obriga Estado a repassar verba à UERJ para manutenção do Hospital Universitário Pedro Ernesto

Justiça do Trabalho multa JBS/Friboi/Serasa em R$ 7 milhões por demissão coletiva em Mato Grosso

Banco Itaú anuncia R$ 5,1 bilhões de lucro

Maceió: contra salário rebaixado, agentes de saúde continuam greve

Produção de eletroeletrônico: queda de 26,8% em 3 meses

Rio Grande registra quase mil demissões em um dia

ESPORTES

Página 6

Franceses exigem de deputados a rejeição do pacote anti-trabalhista

TTIP trata de privilegiar os monopólios norte-americanos e submeter a Europa

Terroristas do Al Nusra bombardeiam hospital em Alepo

Secretário-geral da ONU condena ataques a hospitais no Afeganistão, Iêmen e Síria

Bombas israelenses destroem infraestrutura na Faixa de Gaza

Cresce ideologia nazista em Israel, alerta em Tel Itzhaq o general Golan

Juiz acusado de servir ao tráfico multa advogado dos sem-terra de Curuguaty

Página 7

Bernie Sanders: “sou o mais forte candidato para derrotar Trump”

Bernie vence Hillary nas prévias de Indiana por 52,7% a 47,3%

Cúpula republicana sobre Donald Trump: “talvez ele seja treinável”

Professores das escolas públicas de Detroit em greve para garantir pagamento de salário


China rechaça pretensão dos EUA de ditar regras para o comércio mundial


Sul-coreanos exigem saída de base dos EUA e fim da ‘Foal Eagle 16’


Manobras bélicas dos EUA trazem o fantasma da guerra à Península, denuncia RPDC

Publicidade

Publicidade

Página 8

Venezuela na encruzilhada: a grave crise econômica, social e política