Dilma mentiu, traiu o povo e o programa que a elegeu

Por 55 a 22, acaba a gestão Dilma Rousseff e entra o continuísmo de Temer. Eleições Gerais Já 

Mentir não é problema para Dilma Rousseff.

De outro modo, como se explica que ela diga, sem uma ruga ou esgar de remorso, após o seu afastamento pelo Senado, que "ao destituir o meu governo querem na verdade impedir a execução do programa que foi escolhido pelos votos majoritários dos 54 milhões de brasileiros e brasileiras"?

Será que acha possível as pessoas – ou seja, o povo – esquecerem que ela traiu o programa que defendeu na campanha?

Será que acha possível o eleitorado esquecer tão rapidamente que, na campanha eleitoral, ela não somente defendeu o oposto do que fez após a reeleição, como, também, acusou outros candidatos de ter a intenção de fazer o que ela, Dilma, pretendia fazer?

Ou, será que tem tanto desprezo pela inteligência do povo, que acredita poder enganá-lo outra vez, fazendo-o esquecer que, após sua primeira eleição, ela aderiu e executou o programa do seu adversário, José Serra, ao invés daquele que defendeu – e no qual os eleitores majoritariamente votaram?

PROGRAMA

Ninguém – absolutamente ninguém – votou no programa que Dilma levou à prática a partir de janeiro de 2015 (e, aliás, também ninguém votou no programa que implementou em janeiro de 2011).

Ninguém votou nesses programas porque não foram eles que Dilma defendeu em sua campanha.

Esse estelionato eleitoral colocou-a na atual situação, enxotada do Planalto com uma claque amestrada ao redor, que obedece às ordens de "aplauso" sem pensar em nada, porque claques não foram feitas para pensar.

Exatamente por isso, Dilma não está em condições de exigir "respeito às urnas", pois foi ela quem desrespeitou "as urnas, a vontade soberana do povo brasileiro". Nem pode falar em nome das "conquistas dos últimos 13 anos", uma vez que foi ela quem destruiu as conquistas obtidas no governo Lula.

Também não é verdade que tenha defendido o pré-sal – pelo contrário, abriu o maior campo de petróleo do mundo, o de Libra, no pré-sal, para as multinacionais petroleiras, e acumpliciou-se com Serra no projeto de retirar da Petrobrás a condição de operadora única do pré-sal.

Por fim, também não é verdade que tenha sido uma "democrata" que "nunca reprimiu manifestação" alguma. Foi ela quem assinou o decreto que convocou as Forças Armadas – e bem armadas – para reprimir adolescentes e jovens que se manifestavam contra o leilão do campo de Libra.

Por algum desvio psicológico ou ideológico, Dilma não tem freios quanto à mentira – acredita, mesmo, que a mentira é a principal (ou única) arma em política. Foi assim que ela acabou repudiada pela Nação e pelo parlamento, mas insiste – talvez porque não tenha nada para colocar no lugar.

Quanto ao mais, o afastamento de Dilma deixou várias heranças malditas: a primeira é o próprio Temer e seu cortejo de aberrações reacionárias – as mesmas que antes eram o cortejo de Dilma e do PT, a começar pelo sôfrego Meirelles, funcionário do BankBoston que passou, em uma ou duas semanas, de ministro da Fazenda favorito de Lula a ministro da Fazenda favorito de Temer, sem que mudasse absolutamente nada em sua indigência mental, para a qual o Brasil deve ser um fornecedor de dinheiro, via juros, para a banca internacional – e só.

O problema do governo Temer é, portanto, seu continuísmo em relação ao de Dilma. Trata-se de um governo formado por dilmistas, isto é, serviçais do setor financeiro e das multinacionais. Os nomes, aliás, são quase os mesmos do Ministério anterior – e não é porque eles se tornaram piores (ou melhores).

O governo Dilma já acabara há muitas semanas, talvez meses, quando, às 6:30 h da manhã de quinta-feira, o Senado, ao aceitar a abertura do processo de impeachment, afastou a presidenta por uma votação esmagadora: 55 votos a 22.

Há somente um ano e cinco meses, os senadores que apoiavam Dilma eram 51 (63% do Senado) e agora ela foi afastada com o voto de 68% dos senadores – e, mesmo assim, apenas porque seis senadores que não eram de sua base votaram a seu favor; senão, a parcela contra Dilma seria ainda maior.

Esses números são a síntese política de um desastre, a maior catástrofe governamental já ocorrida nos últimos 100 anos em nosso país. Somente nos ocorre, como já dissemos em outra edição, uma hecatombe comparável: o governo Campos Salles, que terminou em 1902, há 114 anos.

Alguns senadores, em suas intervenções na longa sessão que começou na manhã de quarta-feira e foi até o início da manhã de quinta-feira, apontaram as alianças do PT como responsáveis pela situação política, com os ex-aliados – alguns dos quais receberam de Dilma espessas fatias do dinheiro e da propriedade públicas – votando em massa pelo afastamento.

Porém, por piores que sejam ou fossem os aliados, o núcleo do problema está no próprio PT e seu apodrecimento – a sua transformação, sem meias medidas, em um partido de direita, disputando com os tucanos a função de leão-de-chácara dessa pilhagem à Nação que ficou conhecida pelo nome de neoliberalismo. O apelidado "ajuste fiscal" é a expressão dessa depredação do país, em que a política oficial é passar uma maior parte do produto social – renda e propriedade – para o setor parasitário-financeiro (bancos, fundos, multinacionais e outros rentistas), à custa de rebaixar o salário real, de aumentar brutalmente o desemprego e falir com milhares de empresas produtivas.

As alianças – via de regra engraxadas por dinheiro público, sobretudo pelo roubo contra a Petrobrás – são uma consequência desse apodrecimento do PT. Alguns senadores pareciam não entender que essas eram as alianças – e a única maneira de fazer alianças – porque o apodrecimento do PT não permitia algo diferente.

A adesão ao neoliberalismo é, obviamente, também a adesão ao roubo como política partidária. Esse desfile de próceres partidários – Vaccari, Dirceu, Cunha, o próprio Lula, etc. - na Operação Lava Jato, revela apenas que a traição ao país – que é o conteúdo do neoliberalismo colonizado - e o roubo são inseparáveis. Ou será que existe alguém que traia o país por patriotismo?

No governo de Temer, além de Romero Jucá, Henrique Alves e Geddel Vieira Lima, o próprio Temer, segundo indícios relatados pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, está encrencado (ver matéria nesta página).

PRAGA

Alguém disse, na passagem do século XIX para o século XX, que o Brasil tinha uma "classe política" composta por "leguleios" - isto é, rábulas que reduziam as necessidades nacionais a problemas formais, em geral para não contemplar aquelas necessidades. Foi necessário a Revolução de 30 para livrar o país dessa praga.

Hoje, que a deterioração, a decomposição no estrato político do país é ainda mais evidente, redundando numa restrição da democracia que impede o país de ir adiante, resta-nos ampliar e aprofundar o conteúdo do esquecido – e desrespeitado - parágrafo único do primeiro artigo da Constituição: "Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente".

É isso o que representa a antecipação das eleições, ao menos as presidenciais. Tenhamos a certeza de que o continuísmo de Temer somente nos obrigará a resolver o assunto de modo mais traumático.

 

CARLOS LOPES

 

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