Marketeiros e lobista revelam propina na campanha de Dilma

Encurralada com as confissões deles, “mulher honesta” conta uma história diferente para se safar

A dificuldade de escrever sobre certos assuntos – o leitor que nos permita (e nos perdoe) tal digressão – é a extrema plasticidade (indefinição de forma, falta de caráter) de certos elementos. Todo mundo sabe que eles estão mentindo – mas eles continuam mentindo, como se pudessem zombar do povo para sempre. Às vezes, leitor, é preciso ter muita paciência...

Na segunda-feira, em uma entrevista à Rádio França Internacional, a senhora Dilma Rousseff contou outra história sobre os contêineres de propina que irrigaram a sua campanha eleitoral.

NOTÓRIO

Com aquele tom mavioso de sempre, disse ela para a entrevistadora, sobre o depoimento de seu marketeiro, João Santana, e a esposa deste, Mônica Moura: "Querida, nem o João Santana nem a mulher dele acusaram a minha campanha. Eles se referem a episódios que ocorreram depois de encerrada a campanha, e depois que o comitê financeiro da minha campanha foi dissolvido, dois anos depois. Então não há nenhuma afirmação que atinja a mim e a minha campanha. E é público e notório que eu jamais autorizei caixa dois na minha campanha".

O que Santana e sua mulher falaram é que, em 2013, começaram a receber, por via ilegal, o que a campanha de Dilma ainda devia, pelos serviços do marketeiro na eleição de 2010.

Portanto, segundo Dilma, pagar atrasado a um marketeiro pelos serviços que prestou na campanha eleitoral, faz com que a campanha deixe de ser campanha ou a propina deixe de ser propina.

Nesse caso, não é burrice. É cinismo - simples e nojento.

Por que seria "público e notório" que ela "jamais autorizou caixa dois"? Desde quando essas "autorizações" são feitas em público?

Porém, o mais revelador do caráter da "mulher honesta" é que ela modificou, em quatro dias, a história que contava há meses. Antes, não havia um único centavo de caixa dois em sua campanha. Na quinta-feira, mudou para "eu não autorizei caixa dois". Agora, o caixa dois "não atinge a mim e a minha campanha" porque aconteceu depois da campanha, embora para pagar serviços da própria campanha.

Trata-se de uma (aliás, mais de uma) metamorfose especialmente sem pudor, mesmo para quem se especializou no transformismo moral: desde quinta-feira, quando seu marketeiro, João Santana, a mulher deste, Mônica Moura - e o doleiro e lobista Zwi Skornicki, que abasteceu a conta de Santana com propinas auferidas pelo PT e por sua campanha presidencial – prestaram depoimento diante do juiz federal Sérgio Moro, não se sabe onde Dilma e os dilmistas acabarão. Talvez na cadeia, se isso realmente continuar.

Historiemos os fatos.

Até a quarta-feira, Dilma dizia que não houve qualquer "caixa dois", recheado de propinas ou não ("Paguei R$ 70 milhões para o João Santana, tudo declarado para o TSE. Onde é que está o caixa dois?").

Somente na conta Shellbill, aberta por Santana no Banque Heritage, na Suíça, ele recebeu, ilegalmente, US$ 7 milhões (sete milhões de dólares); há mais US$ 16,6 milhões (dezesseis milhões e 600 mil dólares) passados a ele pela Odebrecht, isto é, pelo departamento de propina ("setor de operações estruturadas") dessa empreiteira; além disso, a PF localizou R$ 23,5 milhões que o marketeiro e sua mulher receberam, também ilegalmente, dentro do Brasil; e não se sabe ainda o que vai mais surgir do depoimento de Vinícius Veiga Borin, que cuidava de parte das contas ilegais, fora do Brasil, da Odebrecht.

Mas, segundo Dilma – até a última quarta-feira - nada disso era com ela.

Na quinta-feira, João Santana confessou ao juiz Moro que US$ 4,5 milhões (ou R$ 14,77 milhões, ao câmbio de segunda-feira) lhe foram passados pela campanha de Dilma, através de Zwi Skornicki, que representava um estaleiro de Singapura, o Keppel Fels - um dos contratados pela Sete Brasil, a empresa de propinas de Barusco, Duque, Esteves (& Vaccari), estabelecida para extorquir a Petrobrás.

Os depoimentos da mulher de Santana, Mônica Moura, e do próprio Zwi Skornicki, foram ainda mais contundentes.

Declarou Skornicki que o tesoureiro do PT, João Vaccari, designou Mônica Moura para receber parte da propina que o Keppel Fels passaria ao partido. "Os US$ 4,5 milhões", que Santana e Mônica receberam, eram "propina da Petrobrás", afirmou Skornicki.

"Foi feita uma conta corrente do sr. Vaccari. A conta corrente abrangia contratos da Petrobrás e da Sete Brasil. O Barusco me apresentou a Vaccari. O Barusco disse que ele faria a coordenação desses recebimentos [de propina]. Essa conta corrente foi feita e sendo paga a pessoas que o sr. Vaccari ia indicando no exterior ou no Brasil. Os pagamentos eram todos autorizados pelo sr. João Vaccari. Numa das visitas do sr. Vaccari no meu escritório, ele disse que tinha que fazer uns pagamentos para o sr. João Santana e para Mônica Moura e que a Mônica iria me procurar. Ela esteve no meu escritório".

Vaccari falou a Skornicki para passar US$ 5 milhões (cinco milhões de dólares) para Santana. Na conversa com Mônica, Skornicki "disse a ela que não tinha como pagar de uma vez porque o que tinha de saldo dos contratos da Petrobrás não era suficiente. Ficou combinado o pagamento em 10 parcelas de 500 mil dólares. Paguei só 9 de 500 mil até novembro de 2014" (grifo nosso).

Santana e a mulher disseram que não sabiam que o "caixa 2" do PT, do qual receberam alguns milhões de dólares, era composto de propinas em negociatas às custas da Petrobrás. Não acharam estranho que o pagador, que Vaccari lhes indicara, tivesse seu escritório dentro de um estaleiro.

Resumindo o depoimento de Mônica Moura: "... tive uma conversa com o Vaccari, que acertava os pagamentos de campanha. Ele mandou procurar um empresário. Assim eu cheguei no sr. Zwi. O Vaccari me deu o contato dele, fui a um escritório dele no Rio. Fui acertar com ele a forma de pagamento".

ASSINATURA

No mesmo dia desses depoimentos, a mulher honesta mudou o disco. Disse ela: "se houve caixa 2, não foi com meu conhecimento" ou "se houve, eu não autorizei".

Na segunda, a conversa já era outra: se houve "caixa dois", ela nada tem a ver com isso porque o pagamento foi atrasado (!?).

Além disso, ela não assinou um papel autorizando o "caixa dois" (por isso é que é "público e notório" que ela "não autorizou" - existe outra explicação?).

A senhora Rousseff acha que pode dizer qualquer coisa sobre qualquer coisa, não importa que todos saibam que é mentira. Sua campanha eleitoral, ao estilo Goebbels, não foi um acidente.

Depois que um certo Lula foi obrigado a dizer, em viagem a Pernambuco, que "ninguém se conformou de Dilma ter dito durante a campanha que não ia mexer no bolso do trabalhador e depois ela ter colocado em prática um programa que era do adversário", ela resolveu rebatê-lo. Sabe como, leitor? Dizendo o seguinte:

"Não acredito que mexi no bolso do trabalhador".

Com quatro milhões de desempregados desde janeiro de 2015 e uma queda de 10% ou mais no salário real, não achamos necessário comentar a fé da senhora Rousseff.

 

CARLOS LOPES

 

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