Wilson Dias/ABr

Na Odebrecht, Serra era referido como o "Careca" - ou o "Vizinho"

 

 

"Auxílio financeiro" da Odebrecht foi legal, asseveram Serra e Temer

Executivos da empreiteira afirmam que passaram R$ 44 milhões para o ministro e o presidente interino

Desde que a Operação Lava Jato começou a mostrar ao país a fisionomia dos ratos da República que roubavam o dinheiro público e a propriedade pública, há uma quase infalível prova de culpa daqueles que se empanturravam de propinas: é quando o sujeito (ou o partido) responde que todas as contribuições que recebeu "foram legais e declaradas à Justiça eleitoral".

Pois é, leitor, diante da revelação, feita por executivos da Odebrecht, de que, em 2010, passaram R$ 23 milhões (R$ 34,5 milhões em valores atuais) para a campanha à Presidência de José Serra, este respondeu que sua campanha "foi conduzida em acordo com a legislação eleitoral em vigor". Além disso, declarou Serra, "a minha campanha, no que diz respeito às finanças, era de responsabilidade do partido".

Em suma, foi tudo legal, mas a culpa é do PSDB. Culpa de que, se foi tudo legal?

Serra, como se pode perceber, é a imagem especular de Dilma Rousseff - para quem o propinoduto de sua campanha é responsabilidade do PT e ela nada tem a ver com isso.

Porém, Serra e Dilma não estão sozinhos: no mesmo fim de semana, soube-se que Marcelo Odebrecht confessou aos procuradores, em Curitiba, que, em 2014, passou R$ 10 milhões, a pedido de Temer, para o PMDB.

A assessoria do presidente interino confirmou que Temer jantou com Odebrecht no Palácio Jaburu, em maio de 2014, para discutir "auxílio financeiro da construtora a campanhas eleitorais do PMDB", mas "em absoluto acordo com a legislação eleitoral em vigor e conforme foi depois declarado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE)".

Todos eles, portanto, só fizeram coisas de acordo com as leis, a Justiça e os mais edificantes princípios morais, éticos e humanitários.

Segundo publicou o jornal "Folha de S. Paulo", "durante a reunião, realizada na sede da Polícia Federal em Curitiba, os executivos disseram que parte do dinheiro [para Serra] foi entregue no Brasil e parte foi paga por meio de depósitos bancários realizados em contas no exterior. Para comprovar que houve o pagamento por meio de caixa dois, a Odebrecht vai apresentar extratos bancários de depósitos realizados fora do país que tinham como destinatária final a campanha presidencial do então candidato".

Serra recebeu, da Odebrecht, R$ 2,4 milhões (R$ 3,6 milhões em valores atuais) "por dentro" - ou seja, declarado oficialmente – e R$ 23 milhões (R$ 34,5 milhões) "por fora". Logo, em valores atuais, recebeu, ao que se sabe até agora, R$ 38 milhões e 100 mil.

Nos documentos da Odebrecht, Serra era referido como o "Careca" - ou o "Vizinho": "O nome do tucano foi um dos que apareceram na lista de políticos encontrada na casa do presidente da Odebrecht Infraestrutura, Benedicto Barbosa da Silva Júnior, durante a 23ª fase da Lava Jato, a Acarajé".

Além disso, os executivos da Odebrecht confessaram que passaram propinas no período em que Serra foi governador de São Paulo, referente às obras do Rodoanel.

Serra disse que essa revelação da Odebrecht é "absurda, até porque a empresa em questão já participava da obra quando assumi o governo do Estado".

O que tem uma coisa a ver com a outra, é coisa que ele não esclareceu. Por que, se a Odebrecht já participava do Rodoanel, isso seria um impeditivo para que ela passasse propina depois? Segundo se depreende, Serra teria a opinião de que as empreiteiras somente passam propina quando querem entrar em uma obra, jamais quando continuam nela e querem obter aditivos extrapolados ou qualquer outra vantagem.

Quanto a Temer, em princípio desconfiamos da informação, devido a quem a publicou: a "Veja".

No entanto, foi o próprio Palácio do Planalto que confirmou os detalhes descritos: o jantar de Temer e Odebrecht no Palácio Jaburu - e até o assunto tratado.

A fonte é o próprio Marcelo Odebrecht: segundo declarou, foi passado, em "dinheiro vivo", R$ 10 milhões. O atual ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, teria ficado com R$ 4 milhões e o atual presidente da Fiesp, Paulo Skaf, então candidato ao governo de São Paulo, teria ficado com R$ 6 milhões.

As provas estariam nos papéis do "Setor de Operações Estruturadas" da Odebrecht, aquele departamento misterioso – aliás, secreto – somente descoberto pela Polícia Federal em março deste ano.

São interessantes – porque cada vez mais comprometedoras – as declarações de Serra e Temer de que foi tudo "legal e registrado na Justiça eleitoral".

Como a principal acusação sobre a fossa política que ainda governa (e governava) o país é, precisamente, que eles lavavam propinas, dinheiro ilícito, através de contribuições eleitorais supostamente legais, essa declaração vale menos que uma cibalena. O crime, aqui, é, exatamente, dar aparência legal para recursos extraídos de maneira ilegal. Porém, nenhuma operação ou recurso é legal se teve origem em uma operação ou recurso ilegal.

Mas, no caso de Serra e Temer, a acusação é que o dinheiro entrou via caixa dois. Porém, mesmo assim – mesmo sem lavagem, mesmo sem fachada "legal" - a resposta deles continua a mesma, como se a acusação fosse a mesma, e quase como se a Odebrecht não tivesse referido a existência de documentos comprobatórios. A única diferença é a atribuição ao "partido" dos mal feitos, portanto, a admissão de sua existência, tal como, também, fez Dilma, mas como se eles não fossem parte do partido - aliás, a parte principal em suas respectivas campanhas eleitorais.

Algum cínico poderia dizer que eles não têm outra alternativa. Mas a verdade é que têm: dizer a verdade e arcar com as consequências. Talvez – ou com certeza - seja demais esperar essa hombridade, ainda que ela seja apenas mínima e elementar.

Resta frisar o que isso indica: um tal grau de podridão que demanda o varrimento imediato desse establishment, que só consegue sobrevida através de propinas para facilitar o roubo do dinheiro do povo e da propriedade nacional.

Em 1869, Teófilo Otoni e outros próceres do Império – inclusive o futuro senador Nabuco de Araújo, homem moderado e pai de Joaquim Nabuco – lançaram um manifesto-programa de mudanças para o país, que terminava com a síntese: "Ou a reforma ou a revolução".

As eleições para mudar o governo são, da mesma forma, a alternativa pacífica para este momento tormentoso da vida de nosso país.

CARLOS LOPES

 

Capa
Página 2
  Página 3

"Auxílio financeiro" da Odebrecht foi legal, asseveram Serra e Temer

Juízes e procuradores promovem atos na Câmara contra o projeto de Renan que fere a Lava Jato

Estudante acusa Feliciano de tentativa de estupro com chutes e soco na boca

MP abre inquérito contra Edinho para apurar caixa 2 na campanha de Dilma

Parecer pela cassação de Cunha é lido e deputados cobram data para votação

Célia anuncia candidatura à Prefeitura de Salvador

PF intima Lulinha a depor

Página 4 Página 5

Governo impõe a estados que congelem salários de servidor

Embraer anuncia plano de demissão voluntária

Rio 2016: Judoca Rafaela Silva conquista a primeira medalha de ouro para o Brasil

Temer é vaiado no Maracanã e tenta barrar protestos

Mercedes cortou salários e agora diz que demitirá 1800

Sindicato dos sapateiros  rejeita redução salarial e denuncia empresa em SP

Página 6

Zakharova: “Banir os paralímpicos russos é ato imundo e desumano”

Olimpíadas: drama de refugiada da guerra dos EUA na Síria é manipulado pelo cartão Visa

Após falar a um milhão de turcos, Erdogan vai à Rússia para se encontrar com Putin

Reunião para impedir Venezuela de assumir presidência do Mercosul não consegue chegar a consenso

Trabalhadores e desempregados argentinos tomam as ruas de Buenos Aires contra arrocho

Página 7

Obama inicia plano de US$ 1 tri para tornar mais letal arsenal nuclear

Putin: antimíssil dos EUA na fronteira da Rússia pode ser mudado para ataque ofensivo ‘em horas’

     Jill Stein, na convenção do PV: somos a opção para livrar os EUA do bipartidarismo das corporações


     Rússia, Azerbaijão e Irã reforçam sua integração para enfrentar desafios


     Até Akie Abe, primeira-dama japonesa, aderiu à luta contra as bases dos EUA em Okinawa
     

Página 8

Aleksandr Nevsky, por Eisenstein