Repassei propina a Renan entre 2004 e 2006, diz colaborador

Assessora fez mais de dez viagens entre Brasília e Rio de Janeiro para pegar os pacotes de dinheiro

O carregador de malas de dinheiro de Sérgio Machado, quando na presidência da Transpetro, Felipe Parente, confirmou à Procuradoria Geral da República que transportou propinas para o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB/AL) - e também para Jader Barbalho (PMDB/PA).

Para se entender completamente o significado do depoimento de Parente, é necessário relembrar outro depoimento, o do próprio Sérgio Machado, que ocupou durante 11 anos a direção da Transpetro (a frota de petroleiros da Petrobrás), durante os governos Lula e Dilma. Disse Machado que:

"... passou a ter maior proximidade com Renan Calheiros quando foi líder do PSDB no Senado; em certa ocasião, em 2004 ou 2005, Renan Calheiros (…) perguntou ao depoente se não poderia colaborar, ficando subentendido que essa colaboração haveria de ser obtida das empresas que tinham contratos com a Transpetro; o contexto evidenciava que Renan Calheiros não esperava que o depoente fizesse aportes de seus recursos próprios como pessoa física, e sim que, na qualidade de dirigente de empresa estatal, solicitasse propinas de empresas que tinham contratos com a Transpetro e as repassasse;

"... os dois acertaram que o depoente procuraria repassar esses recursos ilícitos para Renan Calheiros; se reunia mensalmente ou bimestralmente com Renan Calheiros para tratar dos recebimentos de propina; administrava a arrecadação de propinas na forma de um fundo virtual, apurando mensalmente os créditos junto as empresas que tinham contrato com a Transpetro;

"... até 2007 essas entregas eram executadas por Felipe Parente, que trabalhava na empresa de seu filho Daniel; Felipe Parente retirava o dinheiro em espécie junto às empresas;

"... foram repassadas ao PMDB, segundo se recorda, pouco mais de R$ 100 milhões de reais, cuja origem eram propinas pagas por empresas contratadas; desse valor, cerca de R$ 32 milhões foram repassados a Renan Calheiros, R$ 8.200.000,00 em doações oficiais (…); os demais valores foram pagos mediante entregas de dinheiro em espécie" (Cf. PGR, Termo de Colaboração n° 06 de José Sergio de Oliveira Machado, 05/05/2016, pp. 1-4).

LUA

Agora, com o aprofundamento das investigações, o transportador do dinheiro, citado por Machado, confirmou a entrega de propinas de R$ 5,5 milhões para Renan Calheiros e Jader Barbalho.

O relato de Felipe Parente é bastante detalhado:

"... Sérgio Machado chamou o depoente até a sede da Transpetro e pediu que fosse até a sede da Queiroz [Galvão] para receber valores que seriam destinados aos senadores Renan Calheiros e Jader Barbalho; o depoente foi até a sede da Queiroz, foi recebido pelo Sr. Ildefonso, que lhe orientou a ir até a Rua da Quitanda, nºs 50 a 80, numa determinada sala, e dissesse a senha Lua".

Ildefonso Colares era o presidente da Queiroz Galvão, na época.

A intermediária de Calheiros – e também de Barbalho – era uma funcionária do Senado, Iara Jonas, que vinha ao Rio buscar a propina, que era entregue por Felipe Parente em um flat no Leblon: "... o depoente levou a sacola com dinheiro para o flat; depois Iara entrou em contato com o depoente; foram mais ou menos dez repasses da Queiroz para os senadores Jader e Renan; em todas as dez vezes, foi Iara quem recebeu os recursos destinados tanto ao senador Jader, quanto ao senador Renan".

Felipe Parente relatou uma série de propinas, passadas a Renan Calheiros por três empresas, através de Sérgio Machado - as empreiteiras Queiroz Galvão e UTC e a empresa norueguesa de aluguel de navios Teekay Corporation: "todas as vezes que o depoente intermediou recursos destinados ao senador Renan Calheiros foi Iara quem se apresentou para receber".

Em valores atuais, corrigidos pela inflação, as propinas entregues por Parente à intermediária de Renan – e Jader – equivalem a R$ 11 milhões.

Esses são os fatos.

Resta dizer que Renan Calheiros é um desses casos cuja permanência fora das grades – e, mais ainda, na presidência do Senado, portanto, do Congresso, do Poder Legislativo do país – somente é explicada por aquele tipo de moral e cuidado pela propriedade do povo a que se referia, em 1655, o padre Antonio Vieira:

"O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza. (…) Não são só ladrões os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam" (Vieira, "Sermão do Bom Ladrão").

De dezembro de 2003, no começo do governo Lula, até outubro de 2014, Renan e alguns outros senadores mantiveram Sérgio Machado na direção da Transpetro.

Durante 10 anos, Renan e esses outros roubaram a Transpetro "sem temor, nem perigo", sob o abrigo do governo do PT. Até que a Operação Lava Jato – isto é, a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e o juiz Moro – acabaram com a sopa.

Foi um grande acontecimento.

INQUÉRITOS

Renan tem 12 inquéritos, autorizados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), para apurar os ilícitos que cometeu. No que se refere ao roubo à Petrobrás, durante os governos petistas, tem mais delitos para prestar contas que o malfadado Cunha. Ele é, talvez, o símbolo da via preferencial do PT para arrumar aliados: subornando-os, através da concessão de algum nicho para exercer sua própria ladroagem.

Logo, não é à toa que, no Senado, o PT e Renan se uniram contra a Lava Jato e, agora, contra o Judiciário em geral. Porém, o desespero dessa ralé, em especial de seu capo (?), transparece a cada declaração ou tentativa de acabar com a Lava Jato na marra, aprovando uma lei que, sob um suposto combate ao "abuso de autoridade" - que Renan só percebeu depois que a Lava Jato acabou com a sua cornucópia de indecências na Transpetro - impeça as investigações contra si próprio. Ou, pior, transparece nos processos que anunciou contra um juiz que apenas cumpriu com seu dever. Ou nas supostas reuniões dos "três poderes", na expectativa de unir todos contra a Lava Jato – o que teve, como efeito, o "vade retro Satanas" da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Carmen Lúcia.

Essa era exatamente a política que Renan preconizou, para acabar com a Lava Jato, nas suas conversas, gravadas, com Sérgio Machado: um acordão geral para proteger os ladrões do dinheiro e da propriedade pública – e acabar com as investigações.

Essa mediocridade, no entanto, não parece perceber que nem todo mundo é igual a ele. Aliás, não parece perceber que quase ninguém está na mesma categoria – intelectual e moral – que a sua.

CARLOS LOPES

 

 

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