Temer dá cobertura para
os desmandos de Geddel

Ex-ministro demitido deu um relato detalhado de como Geddel pressionou órgão público por obra irregular onde possuía apartamento nababesco

A Comissão de Ética da Presidência da República, por unanimidade, na segunda-feira, abriu processo contra o ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, depois que o conselheiro José Saraiva – nomeado pelo governo Temer – recuou de pedir vistas, o que postergaria a decisão, apesar de todos os outros conselheiros manifestarem-se a favor.

A história de Geddel, "articulador político" do governo Temer, de seu apartamento de R$ 2,6 milhões, num espigão que avacalharia uma área histórica de Salvador, de sua chantagem desastrada para que o então ministro da Cultura, Marcelo Calero, forçasse o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) a permitir o monstrengo, passando por cima de todos os critérios (e de sua própria função) – tudo isso é, como dizem alguns, a cara do governo Temer.

Mas a cara do governo Temer, mesmo, é o resultado: o ministro que denunciou a atividade ilícita saiu do governo, enquanto o ministro que praticou o ilícito foi garantido no governo.

JACARÉ

Não é pouca coisa, isso que alguns chamam, na TV, pelo suave nome de "conflito de interesses". Geddel, disseram alguns juristas, cometeu, pelo menos, dois crimes: concussão (Art. 316 do Código Penal: "Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida"); e advocacia administrativa (Art. 321 do Código Penal: "Patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a administração pública, valendo-se da qualidade de funcionário").

Geddel é um dos investigados da Operação Lava Jato. Era chamado, por outros investigados, de "boca de jacaré" - certamente por seu insaciável zelo pela coisa pública.

Em mensagem ao então vice-presidente da Caixa Econômica, Fábio Cleto, o doleiro Lúcio Funaro explicou o apelido: "[Geddel] é boca de jacaré para receber e carneirinho para trabalhar e ainda reclamão".

Cleto foi nomeado, pelo governo Dilma, vice-presidente da Caixa por indicação de Eduardo Cunha. Na mesma época, Dilma nomeou Geddel para outra vice-presidência da Caixa.

Numa mensagem, uma funcionária "comunica uma solicitação de aporte de capital de R$ 30,6 milhões" da empresa J. Malucelli, com dinheiro do FI-FGTS (Fundo de Investimento do FGTS).

"Geddel demonstrava uma preocupação exacerbada com esse aporte à J. Malucelli" (cf. PF, Operação Catilinárias, "Relatório de Análise de Material Apreendido N° 049/2016", p. 12).

No dia 05/04/2012, Cleto diz a Funaro: "Ele [Geddel] tá louco atrás dessa operação da Malucelli. Já me cobrou umas trinta vezes".

Geddel fora membro do Conselho de Administração da J. Malucelli.

Quando Lula nomeou Geddel Vieira Lima para o seu Ministério, não foram poucos que se lembraram dos vídeos que o velho ACM patrocinara sobre o novo ministro, intitulados: "As primeiras gatunagens de Geddel", "Geddel vai às Compras" e "O Agatunado", apontando um aumento no patrimônio de 364% em quatro anos (1994-1998), incluindo 12 fazendas. Entrevistado sobre a nomeação, ACM comentou: "Lula tem o direito de escolher seus ministros, principalmente quando são iguais a ele". Na época, pareceu um exagero. Hoje, nem tanto.

Voltemos ao La Vue Ladeira da Barra, um mastodonte de 33 andares, que a empreiteira Cosbat começou a erguer em Salvador, desrespeitando o patrimônio histórico da cidade. Geddel achou que podia extorquir do ministro da Cultura a permissão para depredar Salvador - em proveito (e luxo, ainda que brega) próprio.

O escritório de advocacia que defende a Cosbat tem como dono o primo de Geddel, Jayme Vieira Lima Filho, que, por sinal, é sócio de Geddel no restaurante Al Mare. O outro advogado da Cosbat é Pedro Luz, que também é primo de Geddel.

Veja só o leitor o que é a vida, o outro sócio de Geddel no restaurante Al Mare é Christiano Pinto Polillo, que foi executivo da OAS – aquela do triplex de Lula – nas obras da Cidade Maravilha, a "revitalização" do centro do Rio, operada pela dupla Sérgio Cabral e Eduardo Paes.

O mesmo Polillo, sócio de Geddel no restaurante Al Mare, foi administrador da Morro do Gato Empreendimentos, com um sócio de Luiz Fernando Machado Costa Filho - que vem a ser o dono da Cosbat, que estava construindo o edifício La Vue Ladeira da Barra, onde Geddel comprou (comprou?) um apartamento no 24º andar.

O novo ministro da Cultura, Roberto Freire, declarou que a decisão técnica do Iphan deve ser respeitada.

Vejamos, portanto, os documentos do Iphan.

Primeiro, um cupincha de Geddel na Superintendência do Iphan na Bahia aprovou o projeto. Para isso, modificou o conceito de "entorno" dos prédios históricos, com o qual o Iphan trabalha, para localizar o edifício – evidentemente, sem que este mudasse de lugar – fora desse "entorno". Com isso, o projeto de 33 andares foi aprovado, numa área onde só são permitidos edifícios até 13 andares.

O Instituto dos Arquitetos do Brasil - Seção da Bahia (IAB/BA) entrou com pedido de impugnação dessa autorização para a construção do La Vue Ladeira da Barra, no Iphan nacional.

A essa altura, Geddel, fazendo lobby para a Cosbat, agrediu a Câmara de Vereadores, que também era contra a construção – e também a família Mariani, dona do BBM, que tem uma mansão na área, e também era contra.

Disse ele sobre Marcos Mariani: "o banqueiro, para preservar seus privilégios, tenta pôr em risco empregos em Salvador". Além disso, disse que "o banqueiro Marcos Mariani tá assediando vereadores, pois ele se acha o dono da Ladeira da Barra".

Realmente, mais comovente do que a preocupação de Geddel com os empregos em Salvador, ou sua firme oposição aos banqueiros, só o seu cuidado com a ética na política. É só ver o governo Temer, do qual Geddel é ministro da Secretaria de Governo. Ou os governos a que antes serviu, sempre em posição quadrúpede: Fernando Henrique, Lula, Dilma.

ENTORNO

Depois de examinar o pedido do IAB/BA, o Iphan nacional revogou a autorização concedida pelo Iphan/BA. O processo foi encaminhado ao Departamento de Patrimônio Material e Fiscalização (Depam) e à sua Câmara de Análise dc Recursos (CAR/Depam):

"O Parecer Técnico da CAR é contundente. Nele é afirmado de modo incontestável o fato de o imóvel destinado à construção do Edifício La Vue situar-se no entorno dos bens tombados em nível federal na região da ladeira da Barra, em Salvador/BA e, por consequência, o manifesto erro do Parecer Técnico do lphan/BA que acatou uma referência ou proposta de poligonal de entorno incoerente e incompatível com os valores culturais atribuídos a esses bens – e que lhes justificam a preservação, bem como as práticas de gestão de salvaguarda desses valores" (cf. Despacho n°. 411/2016 da Presidência do Iphan, 16/11/2016).

Era isso que Geddel queria derrubar. Como o governo é o de Temer, derrubado foi o ministro da Cultura, que era contra a negociata. Mas isso não acabou.

 

CARLOS LOPES

 

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Temer dá cobertura para os desmandos de Geddel

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