Hartung aplicou no ES o que
Temer está aplicando no país

“Ajuste” fiscal, cortes nos investimentos por 20 anos, austeridade para o povo e rios de dinheiro para os parasitas financeiros

Há três semanas, o governador Paulo Hartung, do Espírito Santo, numa conferência em São Paulo, repetia: "Estamos fazendo o dever de casa com a execução de uma política de austeridade fiscal firme".

O "dever de casa" de Hartung era um vício pior do que aquele que caracteriza os papagaios. Mas ele repetia, sem senso do ridículo, essa expressão de neoliberais estúpidos e sequiosos por roubar o Erário.

Agora, com a Polícia Militar em greve – e a Polícia Civil, que iria votar a continuação da greve, iniciada no dia anterior, na quinta-feira -, com 101 mortos desde sábado até o fechamento desta edição, na quinta pela manhã, o governador tem todas as razões para sentir que sua lição de casa foi um desastre.

Infelizmente, seu comportamento, desde que voltou ao Estado, na terça-feira, não promete dias fáceis para ele – ou para qualquer adepto da mistura esbulho fiscal & marketing.

ESCRAVO

O que ele queria? Que os policiais ficassem satisfeitos com o trabalho escravo para o qual os envia a sua política de arrocho? Graças aos céus, a eles, às suas mulheres e familiares, não aceitaram esse papel de criados-peniqueiros, ainda pior quando o establishment político não pensa em outra coisa senão em roubar o dinheiro público e a propriedade pública – o dinheiro e a propriedade do povo. Querem roubar dos pobres para dar aos ricos - naturalmente, por uma gordurosa propina.

Aliás, o deslumbramento de alguns com a ação do Exército no Espírito Santo, apenas revela que eles queriam que nossos soldados fosse capitães do mato para submeter policiais-militares e policiais civis e reduzi-los à escravidão. Mas não é assim que o Exército está agindo.

Na página quatro desta edição, os leitores poderão ver a cobertura dos últimos acontecimentos.

Como disse um jornalista capixaba, na quarta-feira, o governador Hartung queria ser – ou era – o "queridinho do mercado", o que quer dizer, os bancos, fundos e parasitas do mercado financeiro.

Ele primava por aderir à política criminosa de Meirelles e Temer – antes tocada por Levy e Dilma – sem nenhuma resistência, até com antecipação. Tanto assim que os cortes de investimentos e outros gastos públicos foram instituídos, no Espírito Santo, pelo decreto nº 3755, no dia cinco de janeiro de 2015.

Por isso, independente das intenções, suas declarações soavam tão repulsivas. Por exemplo, em relação ao pedido de quase todos os governadores para a renegociação das dívidas de seus Estados: "Renegociar as dívidas é premiar quem não fez o dever de casa. É dar dinheiro da sociedade para quem não fez o dever de casa. Quem se esforça, quem rala, quem faz ajuste fiscal, acaba não sendo beneficiado".

Ele não via problemas – ao contrário, somente enxergava virtudes – em dar dinheiro da sociedade a bancos e outros rentistas. Que isso fosse o patíbulo para cariocas, gaúchos e outros muitos brasileiros, não parecia preocupar a Hartung. Nem mesmo o fato de que isso era o patíbulo também para os capixabas.

Os acontecimentos dos últimos dias não permitem, agora, que se esconda por mais tempo a verdade. O paraíso que Hartung dizia ter conseguido, com seu "dever de casa", se esboroou diante do país – a começar pelos próprios capixabas, vítimas da irresponsabilidade neoliberal.

A ideia (?) de que governadores são pirralhos irresponsáveis, que têm de ser obrigados a "fazer o dever de casa", ou seja, arrochar o seu povo em benefício de alguns sanguessugas antissociais – isto é, financeiros – é recorrente em Hartung. Segundo ele dizia há pouco, pouquíssimo tempo, "o ajuste fiscal que fazemos aqui foi pioneiro. Estamos cortando tudo que não é prioritário".

Por exemplo, a polícia e os salários, certamente, não eram "prioritários". Hartung acusava os outros governadores de estarem "flertando com as piores histórias de países latinos". Segundo disse, "isso é igual criar filho. Vou ser a miss simpatia do meu filho ou colocar limites?".

Que os ratos e espoliadores do Tesouro, dos Estados, do povo e do Brasil é que necessitam de limites, não era uma ideia que Hartung absorvesse. No entanto, ela é óbvia.

Recapitulemos os fatos: o Espírito Santo tem 10.300 policiais militares que não têm aumento há sete anos - e há três anos o governo estadual nem sequer repõe as perdas da inflação; ou seja, o salário real da PM está sendo rebaixado há três anos e não há nenhum aumento real há sete anos.

Em janeiro de 2015, depois que o governador cortou a despesa com combustível da polícia, um PM declarou na imprensa capixaba: "Tivemos um corte de 50% na cota de combustível para as nossas viaturas, que já são poucas para patrulhar a cidade. Os veículos ficam parados, e o patrulhamento é feito a pé. O sistema Geocontrol que as viaturas possuem (uma espécie de computador com GPS) não funciona desde dezembro do ano passado. Esse equipamento é muito importante porque ajuda muito no nosso trabalho. Com ele é possível ver o nome do abordado, antecedentes criminais, e é possível consultar as placas de veículos para saber se existe restrição de roubo ou furto. O contrato com a empresa que disponibiliza o sistema venceu e não foi renovado".

Com os policiais do Espírito Santo sem nenhum reajuste nos salários, sem viaturas, sem adicional de periculosidade ou por trabalho noturno, sem coletes à prova de bala e com o hospital da PM aos pedaços, como esperar que a situação não explodisse - como explodiu?

MÁGICA

O governo de Hartung cifrava suas esperanças – ou tinha uma fé delirante – no marketing. Mas, aqui, é melhor passar a palavra a uma fonte jornalística local:

"O investimento vultoso numa das melhores assessorias de comunicação do País, transformou o Estado em modelo de excelência. A ‘mágica’ de Hartung para manter as contas do Espírito Santo no azul, enquanto a maioria dos colegas governadores mal conseguia pagar os salários do funcionalismo em dia, não escondia nenhum truque espetacular. O governador capixaba simplesmente fez um corte linear geral, cancelou investimentos e paralisou obras. Ao pisar fundo no freio dos gastos, o cobertor da área social, que sempre foi curto em seus governos, praticamente desapareceu.

"A Segurança Pública foi uma das áreas que sentiram a lâmina afiada da guilhotina dos gastos. Para quem já se esqueceu, uma das primeiras polêmicas do início do governo Hartung foi o corte de combustíveis das viaturas das polícias Civil e Militar. Com combustível racionado, as escalas de patrulhamento foram reduzidas. Antes que a polêmica ganhasse força, o governo passou a comemorar os resultados na segurança. Gráficos bem ilustrados no Power Point apontavam a queda nos índices de homicídios. Os dados positivos sepultaram os questionamentos e ainda serviam para dar suporte a mais uma espetacular campanha de marketing do governo, enaltecendo que o Espírito Santo conseguiu a maior redução de homicídios dos últimos 20 anos. Os números da Segurança caíam na mesma velocidade que as perdas salariais dos policiais, que começaram a se sentir usados pelo governo.

"Todo trabalho de promoção nacional de imagem arduamente construído em dois longos anos, num trabalho de comunicação impecável, ruiu em 72 horas. Nesse período, o Espírito Santo de Hartung deixou de ser o modelo de excelência do País para se tornar o Estado do medo, o rascunho do inferno. Mas o observador mais absorto irá perguntar: ora, mas como é possível ir do céu ao inferno tão rápido? Uma hora a conta chega" (Século Diário, editorial, 08/02/2017).

Chega, chegou – e chegará, para todos os que acharem que é possível implementar "ajustes" que são apenas o massacre do povo para favorecer ladrões financeiros e/ou políticos.

CARLOS LOPES

 

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