“Iracema” , de José Maria de Medeiros. Acervo do Museu Nacional de Belas Artes - Rio de Janeiro

Nelson Werneck Sodré: a obra de José de Alencar na História - (3)

Continuação da edição anterior

Alencar dá realce, pela primeira vez no Brasil, a um estilo literário; (...) mais evidente ainda, é que Alencar é, na verdade, o fundador do romance brasileiro. Não se trata de uma questão de precedência cronológica, evidentemente, mas de uma questão de valor qualitativo, de continuidade, de unidade. Alencar não só foi um romancista de produção constante, que valorizou o gênero, como — o que é muitíssimo mais importante — levou-o ao grande público, difundiu-o, vulgarizou-o, tornou-o frequentado

 NELSON WERNECK SODRÉ

De um modo geral, as características de Alencar podem ser especificadas pelos seus vínculos com um nativismo que se fundamentou em três traços: o indianismo romântico, como processo; a exaltação da natureza tropical, como meio; e a busca da diferenciação idiomática, como expressão. A tais características, geralmente aceitas, é necessário acrescentar, entretanto, duas outras, de ordem acessória, já vistas por alguns de seus críticos, e que têm importância para a análise de sua obra: a primeira consiste em que Alencar dá realce, pela primeira vez no Brasil, a um estilo literário; a segunda, mais evidente ainda, é que Alencar é, na verdade, o fundador do romance brasileiro. Não se trata de uma questão de precedência cronológica, evidentemente, mas de uma questão de valor qualitativo, de continuidade, de unidade. Alencar não só foi um romancista de produção constante, que valorizou o gênero, como — o que é muitíssimo mais importante — levou-o ao grande público, difundiu-o, vulgarizou-o, tornou-o frequentado. Nesse sentido, Agrippino Grieco situou perfeitamente o problema: “... mas o romance brasileiro, de um modo mais amplo, começa com José de Alencar, o mesmo que foi, durante longos anos de abundante e ininterrupta produção, o melhor mantenedor desse gênero literário e, mesmo morto, continua a ser, pela irradiação do seu nome, pela leitura direta dos seus livros ou simplesmente pela recordação dos nomes dos seus heróis, o nosso autor mais vivo e o supremo valorizador das nossas letras no espírito popular”. E resume, nesta conclusão feliz: “Força é reconhecer que o nosso melhor romance só começou com o indianista, autêntico ou falso, do Guarani”. A propósito do estilo literário, Sílvio Romero frisou suficientemente o papel de Alencar, quando escreveu: “Basta dizer, por último, que foi o primeiro que deu à prosa, no Brasil, o lavor artístico do estilo aprimorado e brilhante, que tem sido até agora o mais aprimorado de nossos paisagistas e o que mais vigor tem revelado na habilidade de descrever e narrar”.

A tendência em relegar o romancista cearense ao plano secundário de autor popular, destituído de reais qualidades literárias, funda-se, de maneira geral, em incompreensões e em repetições que não resistem a uma análise que comece por desprezar as afirmações correntes, para colocá-las no crivo da interpretação, revendo julgamentos. As acusações contra Alencar podem ser resumidas pouco mais ou menos da forma seguinte: seu indianismo era falso e postiço, copiado de modelos estrangeiros, particularmente do francês, que já o recebera de segunda mão; seu esforço em prol de uma diferenciação idiomática, fundado num nativismo desorientado, não deu resultado algum e findou por se neutralizar na própria obra do romancista de O Guarani; seu senso da paisagem era falso — Alencar não conhecia a natureza brasileira e descreveu-a sem os recursos da observação, apenas fundado numa ênfase lírica que impressionou os leitores do tempo; suas personagens são meras idealizações, não têm vida, como que se apresentam desumanizados e falam uma linguagem postiça; seus romances não têm estrutura, tudo neles é trabalho de carpintaria, com os enfeites de uma prosa artificial e pomposa; postos de parte os trabalhos de fundo indianista, que ainda podem admitir exame, os romances de cenário citadino ou rural não merecem atenção; finalmente: Alencar vive na memória popular menos pelas suas qualidades literárias do que pela afinidade que existe, ainda hoje, entre o público brasileiro e o romantismo.

Mas se, por outro lado, considerarmos José de Alencar dentro do quadro das condições de seu tempo e de seu meio ambiente, verificaremos, em primeiro lugar, que o romantismo era a escola única. Note-se que não escrevemos que era dominante, mas única. Nenhum escritor que surgisse naquele tempo poderia aparecer como realista, por exemplo, tão somente porque o realismo não existia. Alencar começou a escrever em 1852, quando o romantismo acabava de ser lançado no Brasil, e constituía na Europa o processo comum. Alencar foi, pois, um romântico, e não poderia ter sido outra coisa. Nesse sentido, como em muitos mais, confundiu-se com a sua época, foi um intérprete dela. Filiando-se ao romantismo, entretanto, Alencar lhe empresta uma significação que não possuía no Brasil. Torna-se, por assim dizer, a expressão literária do romantismo brasileiro. Vai mais longe, porque leva o processo romântico ao grande público, coisa que não ocorrera com as principais figuras do movimento romântico brasileiro, poetas conhecidos de um público restrito. Alencar, por outro lado, cria uma prosa romântica, que não existia antes dele, isto é, dá caráter literário a um processo que vivera quase que tão somente em poesia feita para letrados. Essa prosa romântica, que nos parece hoje realmente solene e postiça, constituía, no seu tempo, o alimento literário comum. Alencar possuía uma intensa imaginação lírica — é um traço de união entre os poetas e os prosadores do romantismo, sem deixar de ser o criador da prosa romântica. E a força lírica “só se satisfaz na ênfase”, conforme observou, e muito bem, um dos críticos modernos da obra de José de Alencar.

Não nos deteremos na análise da coincidência, que tanto parece ter impressionado os modernos, entre o movimento romântico e a autonomia brasileira. A questão parece especiosa. O movimento romântico surge, entre nós, após a Independência, mas não se deve à Independência, como esta não tem origem no romantismo. A coincidência, no caso, parece mais da autonomia do que do romantismo, que era um processo literário do mundo ocidental, em plena vigência. Mas existe no movimento romântico brasileiro, sem dúvida, um sentimento nativista acentuado. Suas formas de exteriorização foram variadas. Nesse sentido, Araripe Júnior, que foi um dos críticos simpáticos a Alencar, em sua Carta sobre a Literatura Brasílica, publicada em 1869, acentuava que a nossa literatura devia ser cabocla, infensa às influências estranhas e valendo-se dos elementos de diferenciação disponíveis. Ainda sob este aspecto, Alencar foi não só um reflexo do sentimento literário dominante, como foi também o seu grande intérprete, a sua expressão mais destacada.

Alencar pretendeu sempre fazer literatura brasileira e, para isso, quis alterar o processo literário de composição na forma e no fundo, pela escolha de motivos brasileiros. Pretendeu mesmo seguir um plano, e pôs em primeiro lugar a exploração da fase primitiva da vida brasileira, “que se pode chamar aborígene, são as lendas e mitos da terra selvagem e conquistada; são as tradições que embalaram a infância do povo”, conforme Ele próprio observou. Crítica de nosso tempo, Lúcia Miguel Pereira compreendeu nitidamente a tarefa que o escritor se propunha quando escreveu: “E, todavia, dentro do romantismo, que era a expressão única de sua época, adotou a atitude mais próxima, não direi da realidade, mas do meio em que vivia. É possível que a Ele se deva o não haverem os nossos românticos enveredado pelo subjetivismo puro. O seu indianismo, embora falso, correspondia a um estado de espírito nacional; e, nos limites consentidos pelo seu idealismo, buscou fazer 'o romance da vida mestiça brasileira, do nosso meio provincial ou sertanejo, com a sua paisagem, os seus moradores, os seus costumes, as suas atividades peculiares'”.

O fundamento nativista da busca de diferenciação idiomática não chegou a ser levado por Alencar a limites amplos, sem dúvida alguma. Embora constituísse uma preocupação constante de sua atividade de escritor, e tenha acabado por vir a ser como que o seu testamento literário, conforme já foi observado, a verdade é que, apesar de tudo, Ele próprio ficou muito próximo dos modelos portugueses de seu tempo. A tarefa estava acima de suas forças. A diferenciação só se transfere para uma literatura e adquire nela a sua consistência, quando esta literatura ganhou maturidade; numa literatura em esboço, como a nossa, no tempo em que ele escreveu, a diferenciação da linguagem literária não poderia mesmo vingar. Os modernistas, um século depois, não conseguiram senão dar um impulso, desta vez real e profundo, para a solução do problema. O erro, mais uma vez, consiste na deformação constante em que nos colocamos, vendo uma literatura brasileira onde ela não existe, vendo-a desde Gregório de Matos, desde Bento Teixeira, desde Anchieta, como querem alguns, quando, a rigor, tudo isso não passa de proto-história literária, quando muito. Nesse sentido, não seria muito mais justo e de acordo com a realidade aceitar o início da literatura brasileira com o romance de José de Alencar?

Deixando para o fim o problema do indianismo, resta-nos analisar a ênfase descritiva de Alencar e o caráter postiço de suas personagens. Parece-nos, ainda aí, que se trata mais de um erro de interpretação. Se o índio não fosse apresentado com aquelas qualidades, que eram meramente literárias, e falando e sentindo daquela maneira, evidentemente falsa em confronto com a realidade do seu modo de sentir e de expressar, não serviria, simplesmente, para fornecer o fundo do romance nativista, em que Alencar pretendia fixar a existência de uma literatura brasileira. Como escreveu Agrippino Grieco, se “o índio não era assim, devia ser assim”. Isto é, se ele não era assim na realidade, devia ser assim em termos literários. Pois isso é de uma evidência espetacular, desde que não se tratava de traduzir, em termos de realismo, a posição do índio, mas de transpor, em termos de romantismo, os motivos indígenas para a literatura. A deformação era inevitável. O erro tem consistido em confrontar o índio de Alencar com o índio real, e afirmar que aquele é falso. Está claro que é falso, mas a análise é que não está bem posta. O julgamento literário não está nesse confronto, mas na verificação isolada do seu indianismo, na apreciação desse indianismo não como relatório naturalista ou antropológico, mas como processo literário, processo idealista sem dúvida, mas estreitamente ligado ao temário e ao conteúdo do romantismo. E não só do romantismo brasileiro, mas do romantismo em geral.

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Nelson Werneck Sodré: a obra de José de Alencar na História - (3)

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