Revolução
de
1924
-
2
NAS
BARRANCAS
DO
RIO
PARANÁ
“Nas
lindes
acidentes
do
Paraná
alguns
milhares
de
compatriotas
vão
selando
com
o
seu
sangue
o
protesto
contra
a
tirania!”
1.
Introdução
2.
Sertões
Paulistas
3.
A
Coluna
da
Morte
4.
O
Papel
da
Imprensa
5.
Reorganização
em
Bauru
6.
Plano
de
Campanha
7.
Porto
Tibiriçá
8.
A
Conquista
de
Guaíra
9.
Preparando
a
Frente
Sul
10.
Chimangos
e
Maragatos
11.
Isidoro
desautoriza
João
Francisco
12.
Insurreição
no
Rio
Grande
do
Sul
13.
A
Revolta
do
Encouraçado
São
Paulo
14.
Nas
Trincheiras
de
Catanduvas
15.
A
Guerra
de
Posição
16.
Reveses
em
Alegrete
e
Itaqui
17.
O
Leão
de
Caverá
18.
Protetor
de
Chimangos
19.
A
Guerra
de
Movimento
20.
Marcha
para
o
Norte
21.
Deserção
do
Tenente
Gay
22.
Ataque
a
Formigas
23.
Conversações
de
Paz
24.
Operação
Clevelândia
25.
Queda
de
Catanduvas
26.
O
Encontro
das
Divisões
27.
O
Comandante
Paraguaio
28.
Epílogo
1.
Introdução
À
1h15
do
dia
5
de
julho
de
1922,
os
canhões
do
Forte
Copacabana,
no
Rio
de
Janeiro,
anunciavam
a
primeira
de
uma
sucessão
de
rebeliões
que
culminariam
com
a
liquidação
do
domínio
exercido
pela
oligarquia
cafeeira
sobre
a
vida
nacional.
A
submissão
aos
interesses
do
imperialismo
inglês,
e
a
conseqüente
renúncia
à
industrialização
do
país,
empurrara
a
oligarquia
a
um
beco
sem
saída.
Sua
insistência
na
valorização
artificial
do
café,
às
custas
do
empobrecimento
dos
demais
setores
da
sociedade,
provocara
uma
crise
sem
precedentes.
Os
tenentes
sonhavam
com
um
Brasil
renovado
pelo
voto
secreto,
educação
pública,
moralidade
administrativa,
erradicação
da
miséria.
Para
isso
era
necessário
libertá-lo
dos
grilhões
da
monocultura
cafeeira.
A
segunda
onda
revolucionária
teria
início
em
1924,
também
na
mesma
data,
5
de
julho.
As
guarnições
do
Exército
da
capital
paulista
e
parte
do
contingente
da
Polícia
Militar
se
insurgem.
Com
o
apoio
da
população
civil,
assumem
o
controle
da
cidade,
depois
de
quatro
dias
de
combates.
À
frente
do
levante
estão
o
capitão
Joaquim
Távora,
veterano
de
1922;
o
major
Miguel
Costa,
do
Regimento
de
Cavalaria
da
Polícia
Militar;
o
coronel
João
Francisco
Pereira
de
Sousa;
o
general
reformado
Isidoro
Dias
Lopes;
e
diversos
tenentes
e
ex-alunos
da
Escola
Militar
de
Realengo,
que
tiveram
seu
batismo
de
fogo
na
Revolução
de
1922.
A
13
de
julho
levanta-se
a
guarnição
federal
de
Sergipe,
sob
o
comando
do
tenente
Maynard
Gomes.
Dez
dias
depois,
subleva-se
o
27º
Batalhão
de
Caçadores,
sediado
em
Manaus.
Os
tenentes
Alfredo
Augusto
Ribeiro
Júnior
e
Magalhães
Barata
destituem
os
representantes
do
clã
Rego
Monteiro,
e
instituem
um
governo
revolucionário.
Em
26
de
agosto
é
a
vez
da
guarnição
de
Belém
derrubar
o
governo
estadual.
As
rebeliões
no
Nordeste
e
Norte
são
dominadas
pelo
governo
central,
ainda
no
mês
de
agosto.
Porém
a
revolução
iniciada
em
São
Paulo
se
estenderá
por
um
período
de
quase
três
anos,
marcando
profundamente
a
vida
política
do
país,
preparando
o
advento
da
terceira
e
decisiva
ofensiva
revolucionária,
em
1930.
2.
Sertões
Paulistas
Durante
os
primeiros
dias
em
que
a
luta
era
travada
na
cidade
de
São
Paulo,
os
insurretos
assumiram
o
controle
de
Rio
Claro,
Jundiaí
e
Campinas,
através
do
5º
Batalhão
de
Caçadores
e
do
2º
Grupo
de
Artilharia
de
Montanha,
unidades
respectivamente
sediadas
na
primeira
e
segunda
localidades.
A
partir
do
dia
18
de
julho,
três
destacamentos
revolucionários
foram
lançados
sobre
os
principais
eixos
ferroviários
do
estado.
Sob
o
comando
do
capitão
Otávio
Guimarães,
o
primeiro
destacamento
seguiria
pelas
ferrovias
Paulista
e
Mogiana,
na
direção
Oeste,
com
o
objetivo
de
neutralizar
as
penetrações
governamentais
vindas
de
Mato
Grosso.
O
segundo,
comandado
pelo
tenente
João
Cabanas,
tomaria
o
rumo
Norte,
através
da
Mogiana,
visando
conter
infiltrações
procedentes
do
sul
de
Minas.
O
outro,
chefiado
pelo
capitão
Paulo
Francisco
Bastos,
marcharia
na
direção
Sul,
pela
Sorocabana,
para
impedir
ou
retardar
a
progressão
de
forças
provindas
do
Paraná.
Essas
providências
foram
decisivas
para
evitar
o
cerco
da
capital
e
manter
aberto
o
caminho
para
a
retirada
das
tropas
revolucionárias
–
opção
que,
naquele
momento,
começava
a
afigurar-se
como
único
meio
de
salvar
São
Paulo
da
destruição
provocada
pelo
criminoso
bombardeio
levado
a
cabo
pelas
forças
governistas.
Apesar
de
não
produzir
baixas
significativas
entre
as
forças
revolucionárias,
o
bombardeio,
iniciado
em
12
de
julho,
espalhava
o
pânico
e
a
morte
entre
a
população
civil.
Em
dezesseis
dias,
mais
de
1.800
edificações
foram
arrasadas,
entre
as
quais
uma
centena
de
fábricas
e
estabelecimentos
comerciais.
O
destacamento
de
Otávio
Guimarães
–
tenente
do
Exército,
comissionado
na
função
de
capitão
–
dirigiu-se
para
a
estratégica
cidade
de
Bauru,
ponto
de
convergência
de
três
estradas
de
ferro,
onde
havia
uma
forte
oposição
disposta
a
prestar
integral
apoio
aos
revolucionários.
O
inquérito
realizado
pela
Polícia
Militar
de
São
Paulo
atesta
que
a
missão
foi
realizada
com
êxito.
Diz
o
documento:
“Fazendo
de
Bauru
o
centro
de
suas
proezas...
mandara
ocupar,
desde
logo,
Agudos,
Dois
Córregos,
Jaú
e
Bocaina,
o
que
foi
realizado
com
felizes
incursões
pelo
civil
dr.
José
Giraldes
Filho,
comissionado
tenente...
Determinou
o
delegado
militar
de
Jaú
a
ocupação
de
Mineiros
do
Tietê
e
Bica
de
Pedra...
Tomaram
a
Estrada
de
Ferro
Douradense,
cujos
empregados,
levados
pela
propaganda
revolucionária,
aderiram
francamente
ao
levante,
passando
a
obedecer
o
delegado
militar
de
Jaú”.
A
ameaça
de
infiltração
de
tropas
paranaenses
não
se
efetivou.
Poucos
dias
depois
o
destacamento
do
capitão
Paulo
Francisco
Bastos
retornava
a
São
Paulo.
3.
A
Coluna
da
Morte
O
tenente
João
Cabanas,
do
Regimento
de
Cavalaria
da
Polícia
Militar
–
denominada,
na
época,
Força
Pública
Paulista
–
tinha
um
problema
difícil
de
ser
resolvido
através
dos
meios
convencionais
de
combate.
À
frente
de
um
destacamento
composto
de
95
homens,
sua
missão
era
bloquear
o
general
Martins
Pereira,
que
vindo
de
Minas
ocupara
Mogi-Mirim,
Jaguari
e
Itapira
com
800
soldados
que
compunham
a
vanguarda
de
sua
tropa.
Dispunha
ainda
a
força
invasora
de
1.000
homens
estacionados
em
Ribeirão
Preto,
e
1.200
que
haviam
atingido
as
cidades
mineiras
de
Jacutinga
e
Pouso
Alegre.
O
general
tencionava
atacar
Campinas,
fechando
o
cerco
aos
revolucionários
na
capital.
Dispondo
de
poucos
elementos
para
desestabilizar
e
fazer
recuar
uma
tropa
cujos
efetivos
totais
chegavam
a
3.000
homens,
o
tenente
Cabanas
deslocava-se
com
estudado
espalhafato,
tendo
chegado
a
se
valer
de
um
trem
especialmente
preparado
para
parecer
armado
dos
mais
mortíferos
engenhos
militares
da
época.
Na
verdade,
o
veículo
era
uma
réplica
cenográfica
do
trem
blindado
utilizado
semanas
antes
pelas
forças
revolucionária
no
ataque
à
estação
de
Vila
Matilde,
na
cidade
de
São
Paulo.
No
vagão
da
frente,
um
imponente
e
temível
canhão
de
155
mm.
Só
observando-o
bem
de
perto
se
perceberia
o
logro.
Segundo
afiança
o
tenente,
o
artefato
fora
fabricado
“com
a
melhor
peroba
produzida
no
solo
paulista,
enegrecida
com
algumas
pinceladas
de
piche”.
Assim,
antes
mesmo
de
ser
atingido
pelos
disparos
dos
comandados
de
Cabanas
em
seus
desconcertantes
ataques,
o
general
Martins
Pereira
era
fustigado
pela
nascente
lenda
da
Coluna
da
Morte.
Antecedido
pela
fama
que
começara
a
granjear,
o
batalhão
do
tenente
Cabanas,
em
sua
marcha
para
Mogi-Mirim,
surpreendeu
os
ocupantes
da
cidade
com
arrasador
telegrama
endereçado
a
uma
cidade
vizinha:
“Seguimos
madrugada,
mil
homens,
seis
peças
de
artilharia,
vinte
metralhadoras.
Providencie,
urgente,
alojamentos
para
tropa”.
Incontinenti
a
Coluna
da
Morte
atacou
e
dominou
as
posições
mais
fracas
do
inimigo,
em
Jaguari
e
Itapira.
Foi
o
suficiente
para
que
o
general
governista
ordenasse
a
desocupação
de
Mogi-Mirim,
aliviando
a
pressão
sobre
Campinas.
Perdendo
o
respeito
pelo
adversário,
Cabanas
decidiu
persegui-lo,
marchando
sobre
Ribeirão
Preto,
onde
conseguiu
dispersar
a
força
inimiga
valendo-se
dos
mesmos
métodos.
Contida
a
ameaça
de
infiltração
das
tropas
de
Minas,
o
tenente
solicitou
autorização
para
ampliar
o
raio
de
ação
da
Coluna
da
Morte.
Pretendia
acossar
e
dispersar
as
quatro
brigadas
formadas
pelos
próceres
do
PRP
–
Partido
Republicano
Paulista.
Concentradas
em
Itapetininga
e
Sorocaba,
essas
forças
irregulares,
compostas
de
jagunços
e
peões
capturados
a
laço,
levavam
o
nome
de
seus
ilustres
organizadores:
Washington
Luís,
Fernando
Prestes,
Júlio
Prestes
e
Ataliba
Leonel
–
respectivamente,
o
ex-governador,
o
vice-governador,
o
futuro
governador
e
um
senador
estadual.
A
autorização
não
foi
concedida.
Já
a
essa
altura
contando
com
200
combatentes,
a
Coluna
da
Morte
voltou-se
então
para
Espírito
Santo
do
Pinhal,
onde
o
general
Martins
Pereira
procurava
reorganizar
suas
forças.
Derrotado
mais
uma
vez,
o
general
abandonou
no
campo
de
batalha
1.200
fuzis,
14
caixas
de
munição
de
artilharia,
duas
metralhadoras
pesadas
e
farta
munição
de
infantaria.
4.
O
Papel
da
Imprensa
Sob
o
impacto
das
investidas
de
Otávio
Guimarães
e
João
Cabanas,
as
autoridades
revolucionárias
comandaram
também
a
ocupação
de
São
Carlos,
Araraquara,
Jaboticabal,
Limeira,
Araras,
Pirassununga
e
Descalvado.
Batida
no
campo
de
batalha
por
modestos
tenentes,
a
oligarquia
cafeeira
empenhou-se
em
estigmatizá-los
através
da
imprensa.
Otávio
Guimarães
era
apresentado
como
um
celerado
que
saqueava,
em
proveito
próprio,
os
cofres
das
estações
ferroviárias,
prefeituras
e
câmaras
municipais.
De
Miguel
Costa
diziam
que
desviava
produtos
requisitados
para
suprimento
das
forças
revolucionárias.
Sob
o
título
“Busca
e
apreensão
na
casa
da
irmã
de
um
dos
chefes
dos
bandoleiros”,
o
Correio
Paulistano
forjava,
em
31
de
julho,
a
prova
do
crime:
“O
sr.
dr.
Edgard
Botelho,
delegado
da
1ª
circunscrição
da
capital...
realizou
ontem,
às
13h,
uma
busca
na
casa
da
rua
Tabatingüera,
84-A,
residência
da
irmã
do
major
Miguel
Costa,
chefe
dos
elementos
sublevados
da
Força
Pública
Estadual,
o
`remodelador
da
moral
republicana
brasileira`,
onde
apreendeu
as
seguintes
mercadorias:
1
caixão
de
latas
de
sardinhas,
2
caixões
de
cebolas,
1
saco
de
milho,
2
caixões
de
sabão,
3
sacos
de
sal...
1
pneumático,
5
réstias
de
alho,
16
galinhas,
1
peru,
2
leitões,
15
latas
de
atum,
2
latas
de
pescada,
4
latas
de
leite
condensado,
1
lata
de
vaselina...
Um
verdadeiro
armazém!”.
Já
o
tenente
Cabanas
foi
contemplado
com
pérolas
do
seguinte
quilate:
“Na
torva
galeria
dos
malfeitores
que
a
revolta
engendrou
destaca-se,
num
fundo
rubro-negro,
ora
a
rir
como
jogral
num
circo,
ora
a
gesticular
como
epilético
em
paroxismo
trágico,
a
figura
do
tenente
Cabanas,
da
Força
Pública
de
São
Paulo...
Cabanas
surgiu
no
ambiente
lôbrego
da
revolta
como
seu
mais
perfeito
símbolo.
No
cérebro
onde
se
fluidificam
vapores
de
insânia
e
de
delírio
perpassam-lhes
como
relâmpagos
visões
trágicas
e
grotescas...
Para
a
execução
dos
planos
sinistros
e
instantâneos
que
idealiza
todos
os
meios
lhe
servem”.
A
síntese
desses
juízos
foi
expressa
pelo
Correio
Paulistano,
através
do
seguinte
epíteto:
“O
famigerado
João
Cabanas,
a
alma
danada
da
revolução”.
Empenhavam-se
os
escribas
em
compor
o
perfil
de
um
ser
maligno,
sanguinário
ao
extremo,
que
se
comprazia
em
torturar
prisioneiros
cortando-lhes
a
língua
e
arrancando-lhes
os
olhos
a
ponta
de
espada.
Em
breve
estariam
circulando
histórias
de
que
Cabanas
protegia-se
das
balas
cobrindo-se
com
uma
invulnerável
capa
negra
que
lhe
fora
presenteada
pelo
próprio
Satanás.
Alheio
às
maledicências,
o
tenente
ultimava
os
preparativos
para
a
realização
de
um
plano
de
invadir
o
triângulo
mineiro
e
marchar
sobre
Belo
Horizonte,
quando
foi
informado
que
os
revolucionários
começavam
a
retirar-se
de
São
Paulo,
devendo
a
Coluna
da
Morte
tomar
o
rumo
de
Campinas,
para
alcançar
o
grosso
da
força
revolucionária
em
deslocamento
para
Bauru.
5.
Reorganização
em
Bauru
Às
22h
do
dia
28,
as
forças
revolucionárias
iniciaram
a
retirada
estratégica
pelo
eixo
ferroviário
São
Paulo-Campinas-Bauru.
São
treze
composições
ferroviárias,
com
quatorze
a
dezesseis
vagões,
cada
uma
delas,
conduzindo
homens
e
material
bélico.
Toda
a
tropa,
seis
baterias
de
artilharia
com
seus
acessórios
e
munição,
duzentos
cavalos,
metralhadoras
pesadas,
equipamento
de
infantaria
e
cavalaria,
viaturas,
tudo
foi
embarcado
com
incrível
rapidez,
sem
dar
chance
ao
inimigo
de
perceber
o
que
estava
acontecendo.
Os
trens
correram
com
um
sincronismo
tal
que
não
houve
embaraço
nas
linhas,
ao
longo
de
vinte
e
quatro
horas.
Os
dias
seguintes
são
dedicados
à
reorganização
da
tropa
e
à
definição
do
plano
de
campanha
para
as
novas
condições
de
luta.
Os
3.000
homens,
originários
das
unidades
do
Exército,
Polícia
Militar
e
Batalhões
Patrióticos
–
formados
por
voluntários
civis
–
são
organizados
em
três
brigadas,
um
regimento
de
cavalaria,
um
regimento
misto
de
artilharia,
escolta
do
QG
e
Estado-Maior.
O
contingente
militar
do
estado
era
de
pouco
mais
de
11.000
homens,
dos
quais
7.538
da
Polícia
Militar
e
3.700
do
Exército.
Cerca
de
um
terço
integravam
agora
as
fileiras
revolucionárias.
Nos
quartéis,
pelo
menos
outro
terço
simpatizava
abertamente
com
a
revolução.
A
1ª
Brigada,
sob
o
comando
do
general
Bernardo
de
Araújo
Padilha,
é
composta
pelo
1º
e
2º
Batalhão
de
Caçadores,
chefiados
pelos
majores
Luís
França
de
Albuquerque
e
Tolentino
de
Freiras
Marques.
Padilha
era
coronel
e
comandava
o
5º
Batalhão
de
Caçadores,
de
Rio
Claro.
O
comandante
do
2º
Grupo
de
Artilharia
de
Montanha,
de
Jundiaí,
tenente-coronel
Olinto
Mesquita
de
Vasconcelos,
assume,
no
posto
de
general,
a
chefia
da
2ª
Brigada,
integrada
pelo
3º
e
4º
Batalhão
de
Caçadores,
comandados
pelos
majores
Juarez
Távora
e
Nelson
de
Mello.
A
3ª
Brigada,
tendo
à
frente
o
general
Miguel
Costa,
é
composta
pelo
5º,
6º
e
7º
Batalhão
de
Caçadores,
respectivamente
comandados
pelos
majores
Coriolano
de
Almeida,
João
Cabanas
e
Arlindo
de
Oliveira.
O
Regimento
de
Cavalaria
tem
no
comando
o
general
João
Francisco.
O
Regimento
Misto
de
Artilharia
segue
as
ordens
do
tenente-coronel
Newton
Estilac
Leal.
O
chefe
do
Estado-Maior
do
general
Isidoro
é
o
coronel
Mendes
Teixeira.
Todos
os
oficiais
investidos
nas
novas
funções
de
comando
foram
promovidos
a
postos
superiores
aos
que
ocupavam
quando
o
levante
teve
início.
6.
Plano
de
Campanha
O
plano
de
campanha
previa
o
deslocamento
da
Divisão
São
Paulo
para
Porto
Tibiriçá,
última
estação
da
Sorocabana,
situada
na
margem
esquerda
do
rio
Paraná,
divisa
com
o
estado
de
Mato
Grosso.
Dali,
a
opção
preferencial
do
general
Isidoro,
comandante
da
Divisão,
era
a
de
subir
o
rio
e
penetrar
no
Mato
Grosso,
através
de
Três
Lagoas.
A
adesão
da
guarnição
de
Campo
Grande,
previamente
comprometida
com
a
revolução,
propiciaria
a
ocupação
de
toda
a
região
que
corresponde
hoje
ao
estado
do
Mato
Grosso
do
Sul.
O
general
João
Francisco
tinha
uma
opinião
diferente.
Acreditava
que
de
Porto
Tibiriçá
as
forças
revolucionárias
não
deveriam
subir
o
rio,
mas
descê-lo,
invadindo
os
sertões
paranaenses
e
ocupando
a
faixa
que
vai
de
Guaíra
a
Foz
do
Iguaçu,
zona
produtora
de
sólida
situação
estratégica.
A
razão
principal
da
escolha
se
devia
ao
fato
dessa
posição
favorecer
uma
futura
junção
com
as
forças
revolucionárias
do
Rio
Grande
do
Sul,
em
cuja
insurreição
o
general
depositava
suas
maiores
certezas
e
esperanças.
Em
seu
modo
de
ver,
a
abertura
da
nova
frente
renovaria
e
ampliaria
as
forças
revolucionárias,
criando
as
condições
para
que
elas
retomassem
a
ofensiva.
Sem
que
isso
ocorresse,
o
movimento,
condenado
à
defensiva,
acabaria
por
definhar.
Prevaleceu,
no
entanto,
nesse
primeiro
momento,
a
opção
por
Mato
Grosso.
Foram
então
mobilizadas
as
unidades
que
deveriam
dar
cobertura
ao
deslocamento
da
coluna.
7.
Porto
Tibiriçá
Otávio
Guimarães
dirigiu-se
para
Araçatuba,
com
150
homens.
Sua
missão
era
fixar
no
terreno
as
forças
do
general
governista
Nepomuceno
Costa,
até
que
fosse
completada
a
entrada
de
toda
a
tropa
em
Mato
Grosso.
Para
a
realização
da
marcha
de
Bauru
até
Porto
Tibiriçá,
era
preciso
dar
uma
volta,
recuando
para
Botucatu,
até
Rubião
Júnior,
e
depois
avançando
pelo
ramal
da
Sorocabana
que
passa
por
Avaré,
Ourinhos,
Presidente
Prudente
e
Presidente
Epitácio.
O
Batalhão
Cabanas
toma
então
posição
em
São
Manoel
e
nos
arraiais
de
Toledo,
Redenção
e
Igualdade
–
na
direção
de
Dois
Córregos.
O
Batalhão
Távora
segue
para
Botucatu.
A
missão
de
ambos
é
impedir
que
as
forças
do
general
Azevedo
Costa
embaracem
a
progressão
da
Divisão.
No
dia
31
de
julho
inicia-se
o
deslocamento,
na
seguinte
ordem:
Brigada
Padilha,
Brigada
Mesquita,
Cavalaria
do
general
João
Francisco,
QG,
Brigada
Miguel
Costa.
Às
22h
do
dia
seguinte
estava
terminado
o
escoamento
de
todas
as
unidades
em
Rubião
Júnior.
Às
23h,
embarcam
na
esteira
do
grosso
o
Batalhão
Távora,
seguido
pelo
Batalhão
Cabanas,
designado
para
fazer
a
retaguarda.
Através
da
longa
travessia
os
revolucionários
são
estimulados
pelo
entusiasmo
da
população.
Avaré,
Cerqueira
César,
Ourinhos,
Salto
Grande
vibram
com
a
sua
passagem.
Em
5
de
agosto
chegam
a
Assis.
São
recebidos
com
festas
e
missa
campal
–
naquele
dia
se
comemorava
um
mês
de
luta
revolucionária.
Foi
realizado
um
comício
e
editado
o
primeiro
número
do
jornal
O
Libertador,
que
teria
mais
quatro
edições
produzidas
naquela
cidade.
A
6
de
agosto,
a
vanguarda
da
Divisão,
composta
pela
Companhia
Gwyer,
do
1º
Batalhão
de
Caçadores,
reforçada
por
uma
seção
de
metralhadoras,
atinge
Porto
Tibiriçá.
Num
ataque
relâmpago
aprisiona
os
vapores
Guaíra,
Paraná,
Rio
Pardo,
Brilhante
e
Conde
de
Frontim.
Na
retaguarda,
comandando
um
batalhão
composto
de
380
praças,
bem
armados
e
municiados,
quatro
metralhadoras
pesadas
e
uma
peça
de
artilharia,
o
major
Cabanas
dinamita
pontes
e
provoca
obstruções
na
via
férrea,
para
retardar
a
marcha
das
forças
que
vêm
no
encalço
da
coluna.
Em
seu
relato,
ele
considera
que
esse
trabalho
foi
facilitado
pela
“anarquia
nas
tropas
governistas”.
Uma
das
razões
que
aponta
é
a
seguinte:
“Na
minha
estadia
em
Mandurí,
recebia
informações
detalhadas
do
que
se
passava
em
Avaré.
Nesta
cidade
pararam
os
comboios
que
conduziam
a
vanguarda
da
perseguição,,,
cujos
oficiais
faziam
preceder
os
respectivos
trens
de
alguns
vagões
repletos
de
prostitutas,
requisitadas
a
100
mil-réis,
diários
e
por
cabeça,
recrutadas
nos
bordéis
de
Sorocaba
e
Botucatu”.
Vencendo
duas
escaramuças,
em
Salto
Grande
e
Indiana,
e
dois
combates
de
maior
vulto,
em
Santo
Anastácio
e
Cayuã,
o
Batalhão
Cabanas
atinge
Porto
Tibiriçá,
no
dia
13
de
setembro.
Nos
38
dias
decorridos
entre
a
chegada
da
vanguarda
da
Divisão
e
de
sua
retaguarda
ao
rio
Paraná,
a
marcha
dos
acontecimentos
ditou
a
alteração
dos
planos
revolucionários.
Fracassara
a
invasão
do
Mato
Grosso.
Todas
as
esperanças
voltavam-se
para
a
conquista
de
Guaíra.
8.
A
Conquista
de
Guaíra
O
Batalhão
Távora
fora
batido,
em
18
de
agosto,
na
margem
mato-grossense
do
rio
Paraná,
quando
tentava
ocupar
Porto
Independência,
passo
preliminar
para
a
conquista
da
cidade
de
Três
Lagoas.
Conta
o
seu
comandante
que
o
batalhão
fora
“reforçado
pela
Companhia
Gwyer
e
Companhia
Azhaury,
ambas
do
1º
Batalhão
de
Caçadores,
e
uma
seção
de
artilharia
comandada
pelo
capitão
Felinto
Muller,
somando
um
efetivo
global
de
570
homens”.
A
tropa
era
numerosa
e
experiente.
No
entanto,
sofreu
um
grave
revés,
conforme
relata
o
major
Távora:
“Deixava
o
Batalhão,
no
campo
de
combate,
entre
mortos,
feridos
e
prisioneiros,
um
terço
de
seu
efetivo,
aí
incluídas
as
duas
seções
de
metralhadoras
pesadas”.
Uma
semana
depois
da
trágica
investida,
começa
a
descida
do
rio
Paraná.
O
plano
é
escoar
a
Divisão
em
escalões
sucessivos,
em
direção
à
Guaíra.
A
vanguarda,
sob
o
comando
do
general
João
Francisco,
é
composta
pelo
3º
e
4º
Batalhão
de
Caçadores,
da
Brigada
Mesquita
de
Vasconcelos,
reforçada
por
uma
seção
de
artilharia
montada
e
um
piquete
de
cavalaria.
O
3º
Batalhão
de
Caçadores,
debilitado
pelas
baixas
sofridas
em
Mato
Grosso,
fora
reorganizado,
absorvendo
a
Companhia
Azhaury
que
antes
integrava
o
1º
Batalhão.
Embarcada
em
três
navios
e
um
pontão,
a
expedição
aprisiona,
no
dia
26
de
agosto,
a
lancha
Iguatemi,
da
Companhia
Mate
Laranjeira,
que
conduzia
uma
patrulha
governista.
Os
prisioneiros
informam
que
o
capitão
Dilermando
Cândido
de
Assis,
responsável
pela
defesa
de
Guaíra,
mantinha
200
homens
em
Porto
São
José,
na
margem
paranaense
do
rio,
três
léguas
abaixo
da
foz
do
Paranapanema
-
divisa
do
estado
de
São
Paulo.
Na
outra
margem,
o
grileiro
Quincas
Nogueira
dominava
Porto
São
João.
Nogueira
era
um
homicida
disputado
pela
Justiça
do
Rio
Grande
do
Sul,
de
Rosário
–
Argentina
–
e
Santa
Rosa
–
Uruguai.
Fugira
da
cadeia
de
Corrientes,
em
outubro
de
1913,
instalando-se
nos
ervais
mato-grossenses.
O
governo,
em
seu
esforço
de
guerra,
concedera-lhe
a
patente
de
tenente-coronel
da
reserva
do
Exército.
A
força
revolucionária
dividiu-se
para
enfrentar
a
nova
ameaça
–
um
destacamento
continuaria
pela
via
fluvial,
outros
seguiriam
por
terra,
para
surpreender
os
elementos
governistas
entrincheirados
nas
duas
margens
do
rio
Paraná.
A
iniciativa
valeu
a
conquista
de
Porto
São
João,
em
30
de
agosto,
e
Porto
São
José,
no
dia
seguinte.
Em
14
de
setembro,
após
um
confronto
com
as
forças
do
capitão
Dilermando,
na
ilha
do
Pacu,
os
revolucionários
conquistam
Guaíra.
Haviam
descido
200
km
do
rio
Paraná,
em
20
dias.
Percorreriam
outros
tantos,
nas
duas
semanas
seguintes.
9.
Preparando
a
Frente
Sul
A
cidade
era
uma
sólida
cabeça-de-ponte
para
a
concentração
do
grosso
revolucionário
no
sudoeste
paranaense.
O
escalão
de
vanguarda
tratou
logo
de
alargá-la,
ocupando
Porto
Mendes,
situado
60
km
abaixo
de
Guaíra
–
nesse
mesmo
trecho,
paralela
ao
rio
corria
a
estrada
de
ferro
da
empresa
Mate
Laranjeira.
No
dia
15
de
setembro,
a
Companhia
Azhaury
ocupou
também
Porto
São
Francisco,
20
km
ao
sul
de
Porto
Mendes.
Acometido
de
pneumonia
dupla,
o
capitão
Azhaury
de
Sá
Brito
morreria
poucos
dias
depois.
Azhaury
era
tenente,
no
5º
Regimento
de
Infantaria,
de
Lorena.
Enviado
para
combater
a
rebelião
na
capital
paulista,
levantara
sua
companhia
integrando-a
às
hostes
revolucionárias.
A
26
de
setembro,
depois
de
haver
ocupado
Porto
Britânia,
o
3º
Batalhão
de
Caçadores
chega
a
Foz
do
Iguaçu,
fazendo
o
percurso
através
de
picadas
que
margeiam
o
rio
Paraná.
Nessa
cidade
se
realiza,
em
5
de
outubro,
o
encontro
longamente
esperado
pelo
general
João
Francisco.
Emissários
estabeleciam
contato
com
a
Divisão,
a
fim
de
coordenar
os
esforços
para
promoverem
um
levante
de
grande
envergadura
no
estado
do
Rio
Grande
do
Sul.
Para
a
abertura
da
nova
frente,
o
general
João
Francisco
acreditava
poder
contar
com
diversas
unidades
do
Exército
situadas
nas
fronteiras
sul
e
oeste
daquele
estado.
Além
disso,
esperava
também
a
adesão
dos
generais
maragatos
e
seus
lendários
cavaleiros.
Embora
agindo
cada
qual
por
conta
própria,
os
chamados
caudilhos
manifestavam
especial
consideração
pelas
opiniões
do
dr.
Assis
Brasil,
chefe
da
Aliança
Libertadora.
João
Francisco
nascera
e
se
formara
nas
lides
da
fronteira
gaúcha.
A
adaga
da
qual
não
se
afastava,
sempre
visível
entre
o
cinturão
e
a
túnica,
não
deixava
dúvida
quanto
às
suas
origens.
Sobrevivente
da
Guerra
Federalista
de
1893,
cavalgara
com
os
chefes
maragatos.
A
delegação
que
acabara
de
chegar
para
a
reunião
confirmava
as
suas
expectativas.
Ao
lado
do
tenente
Siqueira
Campos,
herói
do
Forte
Copacabana,
sentavam-se
os
majores
maragatos
Alfredo
Canabarro
e
Anacleto
Firpo,
representando
os
generais
Honório
Lemes,
Zeca
Neto
e
o
dr.
Assis
Brasil.
A
situação,
segundo
eles,
estava
madura.
A
rebelião
poderia
ser
iniciada
em
menos
de
um
mês.
Esperavam
apenas
a
manifestação
da
Divisão
Paulista
sobre
a
oportunidade
de
deflagrá-la.
10.
Chimangos
e
Maragatos
No
final
do
século
19,
uma
profunda
divisão
entre
os
gaúchos
dera
origem
a
sangrentas
disputas.
Os
chimangos
detinham
o
controle
do
governo
do
estado,
desde
a
proclamação
da
República,
com
Júlio
de
Castilhos
e,
em
seguida,
Borges
de
Medeiros.
Nas
eleições
presidenciais
de
1922,
o
chefe
do
Partido
Republicano
Rio-Grandense
marchara
contra
a
candidatura
oficial,
sustentada
pela
oligarquia
paulista.
Visando
enfraquecê-lo,
os
maragatos
apoiaram
o
candidato
oficial,
Artur
Bernardes,
e
lançaram
Assis
Brasil
ao
governo
do
Rio
Grande
do
Sul.
Contestando
o
resultado
das
eleições
ao
governo
do
estado,
iniciaram
os
maragatos,
em
janeiro
de
1923,
uma
rebelião
armada
para
derrubar
Borges
de
Medeiros.
O
governo
federal
escusou-se
de
intervir
na
contenda,
permitindo
que
ela
se
aprofundasse.
Em
seguida,
passou
a
costurar
um
pacto
segundo
o
qual
os
partidários
de
Assis
Brasil
aceitariam
que
Borges
concluísse
o
mandato,
em
troca
de
não
mais
poder
submeter
sua
candidatura
à
reeleição.
O
Pacto
de
Pedras
Altas,
celebrado
em
dezembro
de
1923,
no
entanto,
não
pacificou
o
Rio
Grande.
Acreditando
que
a
oligarquia
paulista
havia
estimulado
sua
rebelião
com
o
intuito
de
utilizá-la
em
benefício
próprio,
como
instrumento
para
submeter
Borges
de
Medeiros,
os
maragatos
estavam
dispostos
a
voltar
suas
armas
contra
ela.
11.
Isidoro
desautoriza
João
Francisco
O
general
João
Francisco
não
perde
tempo.
No
dia
8
de
outubro,
os
emissários
estão
de
volta.
Em
sua
companhia
viaja
o
major
Távora.
O
general
Mesquita,
que
havia
transferido
o
comando
da
2ª
Brigada
ao
tenente-coronel
Estilac
Leal,
assumindo
a
função
de
superintendente-geral
do
Serviço
de
Transporte,
também
foi
mobilizado
para
uma
operação
delicada:
a
de
transportar
os
recursos
financeiros
para
a
aquisição
de
armas
e
munições
necessárias
aos
revolucionários
gaúchos.
Dias
depois
as
providências
tomadas
por
João
Francisco
dão
origem
a
um
sério
desentendimento
entre
ele
e
o
general
Isidoro.
O
grosso
da
Divisão
ficara
sitiado
por
vários
dias
nas
ilhas
situadas
pouco
acima
de
Porto
São
José,
perdendo
o
contato
com
a
vanguarda.
Os
combates
travados
produziram
muitas
baixas
–
a
principal
delas
foi
a
perda
completa
do
7º
Batalhão
de
Caçadores.
Além
de
defrontar-se
com
o
inimigo
tradicional,
os
revolucionários
eram
castigados
por
um
novo
adversário
ao
qual
não
estavam
ainda
adaptados,
e
que
assim
foi
descrito
pelo
tenente
Cabanas:
Dormir
alguém
em
uma
ilha,
embora
respirando
a
fragrância
de
flores
desconhecidas
ou
embalado
pelo
rumorejar
das
águas
é
quase
um
sacrifício;
nuvens
de
mosquitos
em
formação
aérea
de
combate
nos
atacam
aos
grupos...
Depois
os
carrapatos
de
diversos
físicos...
Além,
a
infantaria
das
formigas,
num
desfilar
incessante,
ferrão
em
riste...
as
urtigas,
a
unha
de
gato,
a
tiririca,
o
agulheiro
de
taquarussu,
o
vespeiro
que
aprece
ao
quebrar-se
um
galho,
as
aranhas
monstruosas,
a
taturana,
a
manada
furiosa
de
queixadas
e
caetetus,
o
bicho
do
pé
que
aos
milhares
irrompem
dos
excrementos
do
tapir.
Em
razão
desses
percalços,
só
em
20
de
outubro
o
general
Isidoro
consegue
chegar
a
Guaíra
e
Porto
Mendes,
onde
encontrou-se
com
João
Francisco,
pela
primeira
vez,
desde
que
este
partira
de
Porto
Tibiriçá.
A
discussão
foi
áspera.
João
Francisco
argumenta
que
a
situação
do
Rio
Grande
do
Sul
exigira
uma
decisão
rápida.
Isidoro
contesta,
considera
especialmente
absurdo
o
fato
dele
haver
utilizado
três
quartas
partes
dos
recursos
financeiros
da
revolução
numa
“aventura”.
Isidoro
envia
depois
uma
carta
a
João
Francisco
informando
que
vai
desautorizar
suas
iniciativas
junto
aos
revolucionários
gaúchos.
Ele
diz:
Vou
agir
e
deliberar
de
acordo
com
o
meu
modo
de
ver
e
vou
também
entender-me
diretamente
com
os
amigos
do
Paraná,
Santa
Catarina
e
Rio
Grande,
a
fim
de
combinarmos
uma
ação
conjunta.
Antes
que
João
Francisco
possa
ler
a
missiva,
estoura
o
levante
no
Rio
Grande
do
Sul.
12.
Insurreição
no
Rio
Grande
do
Sul
No
dia
29
de
outubro,
o
primeiro
manifesto
das
forças
revolucionárias
anunciava
a
eclosão
da
revolução
no
estado:
“Hoje...
levantam-se
todas
as
tropas
do
Exército
das
guarnições
de
Santo
Ângelo,
São
Luís,
São
Borja,
Itaqui,
Uruguaiana,
Alegrete,
Santana,
Dom
Pedrito;
Jaguarão
e
Bagé;
hoje,
irmanados
pela
mesma
causa
e
pelos
mesmos
ideais,
levantam-se
as
forças
revolucionárias
gaúchas
de
Palmeira,
de
Nova
Wuertemburg,
Ijuí,
Santo
Ângelo,
e
de
toda
a
fronteira
até
Pelotas.
E
hoje
entram
em
nosso
estado
os
chefes
revolucionários
Honório
Lemes
e
Zeca
Neto,
tudo
de
acordo
com
o
grande
plano
organizado”.
O
plano
previa
o
levante
simultâneo
das
unidades
do
Exército
e
dos
chefes
maragatos.
O
objetivo
era
formar
duas
colunas,
a
do
Sul
e
a
do
Oeste,
que
marchariam,
respectivamente,
sobre
Santa
Maria
e
Cruz
Alta.
Realizadas
essas
operações,
as
forças
revolucionárias
se
deslocariam
para
o
Norte,
visando
a
capital
da
República,
batendo
de
passagem
as
tropas
que
pressionavam
a
Divisão
São
Paulo,
no
Iguaçu.
A
movimentação
dentro
do
Rio
Grande
do
Sul
deveria
realizar-se
com
a
máxima
rapidez,
para
reduzir
ao
mínimo
o
contato
com
as
forças
de
Borges
de
Medeiros,
a
fim
de
concentrar
o
esforço
revolucionário
contra
o
governo
federal
e
seu
sustentáculo,
a
oligarquia
cafeeira.
Nem
tudo
correu
conforme
o
esperado.
Na
zona
oeste,
o
capitão
Luís
Carlos
Prestes
e
o
tenente
Mário
Portela
Fagundes
sublevaram
o
Batalhão
Ferroviário
de
Santo
Ângelo.
O
tenente
João
Pedro
Gay
levantou
o
3º
Regimento
de
Cavalaria
Independente,
de
São
Luís
Gonzaga
das
Missões.
Os
tenentes
Siqueira
Campos
e
Aníbal
Benévolo
assumiram
o
controle
de
São
Borja,
levantando
o
2º
Regimento
de
Cavalaria
Independente.
Porém
a
guarnição
de
Itaqui,
situada
entre
São
Borja
e
Uruguaiana,
não
aderiu
à
revolução.
A
ofensiva
sobre
Itaqui,
para
consolidar
o
controle
sobre
o
Oeste,
desarticulou
parte
importante
das
forças
revolucionárias
de
São
Borja,
custando
a
vida
do
tenente
Benévolo.
Na
fronteira
sul,
apenas
Uruguaiana
cerrou
fileiras
com
a
revolução.
O
major
Távora
e
o
tenente
Edgard
Dutra
foram
os
responsáveis
pelo
levante
do
5º
Regimento
de
Cavalaria
Independente,
que
guarnecia
a
cidade.
Violentos
combates,
na
faixa
da
fronteira
uruguaia,
arrastaram-se
durante
dois
meses.
As
forças
revolucionárias,
compostas
pelos
gaúchos
dos
generais
Honório
Lemes
e
Zeca
Neto,
pelo
5º
Regimento
de
Cavalaria,
de
Uruguaiana,
e
uma
seção
do
Regimento
de
Artilharia
a
Cavalo,
de
Alegrete,
acabaram
se
chocando
pesadamente
contra
os
corpos
provisórios
que
constituíam
a
nata
da
força
militar
chimanga.
Reunindo
cerca
de
10.000
homens,
agrupados
em
cinco
brigadas,
essas
unidades
tinham
entre
seus
principais
organizadores
Flores
da
Cunha,
Osvaldo
Aranha,
Paim
Filho,
Claudino
Nunes
Pereira
e
Getúlio
Vargas.
As
forças
que
marcharam
unidas,
a
partir
do
Rio
Grande
do
Sul,
seis
anos
mais
tarde,
para
promover
a
Revolução
de
30,
se
defrontavam,
naquele
momento,
no
campo
de
batalha.
13.
A
Revolta
do
Encouraçado
São
Paulo
A
insurreição
no
Rio
Grande
do
Sul
foi
um
chamamento
para
que
outras
ações
revolucionárias
fossem
desencadeadas.
No
dia
5
de
novembro,
o
encouraçado
São
Paulo
se
revolta
seguido
pelo
contratorpedeiro
Goiás.
Atacados
pelos
canhões
das
fortalezas
de
Santa
Cruz
e
Copacabana,
o
Goiás
se
rende.
O
São
Paulo
contra-ataca
e
silencia
as
duas
fortalezas.
Os
600
marinheiros
revolucionários
comandados
pelo
tenente
Hercolino
Cascardo,
apoiado
por
seis
tenentes,
haviam
tido
grande
dificuldade
para
dominar
o
navio,
em
razão
da
resistência
oferecida
por
parte
da
tripulação
que
navega,
agora,
devidamente
trancafiada:
praças
e
sargentos
no
paiol,
os
oficiais
em
seus
respectivos
camarotes.
O
São
Paulo
e
o
Minas
Gerais,
duas
das
mais
potentes
belonaves
da
época,
eram
o
orgulho
da
Marinha.
Para
o
povo,
constituíam-se
num
importante
símbolo
das
nossas
potencialidades.
Por
seis
dias,
o
encouraçado
rebelado
navegou
seguido
da
esquadra
capitaneada
pelo
Minas
Gerais.
Ambos
evitaram
o
duelo
que
poderia
pô-los
a
pique.
A
11
de
novembro
o
São
Paulo
fundeou
em
Montevidéu.
Metade
dos
marinheiros
sublevados
por
Cascardo
decidem
juntar-se
às
forças
revolucionárias
em
luta
no
Rio
Grande
do
Sul.
Poucos
dias
depois,
a
15
de
novembro,
na
residência
do
major
Martins
Gouveia
de
Feijó,
rua
Cabuçu,
número
58,
a
polícia
apreendeu
grande
número
de
bombas
de
10
e
15
kg
fabricadas
com
dinamite.
Foram
detidos
também
o
Capitão
Costa
Leite
e
o
farmacêutico
João
Ferreira
Chaves.
A
rede
revolucionária,
na
capital
da
República,
era
extensa,
possuindo
bases
sólidas
no
15º
Regimento
de
Cavalaria,
1º
Batalhão
de
Engenharia,
Regimento
de
Artilharia
de
Montanha,
Companhia
de
Carros
de
Assalto
e
Escola
Militar
de
Realengo.
A
4
de
janeiro
dezenas
de
prisões
desarticularam,
em
São
Paulo,
a
execução
do
plano
revolucionário
de
atacar
o
edifício
da
Imigração,
transformado
em
cárcere
político.
Lá
se
encontravam
presos
o
general
Ximeno
de
Villeroy
e
o
major
Arlindo
de
Oliveira
-
genro
do
general
João
Francisco
e
comandante
do
7º
Batalhão
de
Caçadores
da
Brigada
Miguel
Costa.
O
plano
previa
o
ataque
simultâneo
ao
Comando
Geral
da
Polícia
Militar,
Polícia
Central,
QG
do
Corpo
de
Bombeiros,
por
ex-oficiais
de
Itu,
membros
da
Polícia
Militar
e
civis.
Até
o
final
de
1926,
as
tentativas
de
promover
novos
levantes
em
apoio
à
ação
do
exército
revolucionário
não
cessaram,
lotando
as
cadeias
com
milhares
de
presos
políticos,
dos
quais
1.200
foram
enviados
para
a
Colônia
Agrícola
da
Clevelândia,
situada
no
Oiapoque,
divisa
com
a
Guiana
Francesa.
Só
179
saíram
de
lá
com
vida.
14.
Nas
Trincheiras
de
Catanduvas
Desde
a
ocupação
de
Guaíra,
o
general
João
Francisco
promovia
o
alargamento
da
cabeça-de-ponte
conquistada
não
só
em
direção
à
Foz
de
Iguaçu.
Logo
nos
primeiros
dias
um
pelotão
de
cavalaria
era
lançado,
rumo
leste,
pela
estrada
carroçável
que
liga
Porto
São
Francisco
à
Catanduva.
O
arraial
encravado
no
alto
da
serra,
única
via
de
penetração
direta
do
planalto
para
o
cânion
do
médio
Paraná,
estava
situado
sobre
a
estratégica
rodovia
que
liga
Guarapuava
a
Foz
do
Iguaçu.
Progredindo
por
essa
rodovia,
em
direção
à
Guarapuava,
o
pelotão
ocupou
a
localidade
de
Lopeí,
a
90
km
da
barranca
do
rio
Paraná.
Posteriormente,
o
4º
Batalhão
de
Caçadores,
comandado
pelo
major
Nelson
de
Mello,
estendeu
o
domínio
sobre
a
rodovia,
atacando
as
forças
governistas
em
Formigas.
Estas
recuaram,
indo
entrincheirar-se
na
Serra
do
Medeiros,
defronte
à
localidade
de
Belarmino.
Em
Belarmino
foi
fixada
a
2ª
Brigada,
com
dois
batalhões
de
Infantaria,
reforçados
pelo
regimento
de
cavalaria
e
uma
seção
de
artilharia.
O
posto
de
comando
foi
instalado
em
Isolina,
na
estrada
Iguaçu-Cascavel.
Também
na
mesma
carroçável,
situada
atrás
das
linhas
revolucionárias,
duas
seções
de
artilharia,
enfermaria,
intendência
e
oficina
mecânica
reforçavam
as
unidades
sob
comando
de
Estilac
Leal.
A
localidade
era
conhecida
pelo
nome
de
Depósito
Central.
Em
Foz
do
Iguaçu
instalou-se
o
QG
da
Divisão.
Em
Guaíra,
a
Brigada
Padilha.
Entre
Porto
Mendes,
Porto
São
Francisco
e
Santa
Helena,
a
Brigada
Miguel
Costa.
Uma
picada
que
vinha
em
curva
de
Guarapuava
até
Porto
Mendes,
cruzando
o
rio
Piquiri
e
deixando
Catanduvas
à
sua
esquerda,
expunha
o
flanco
revolucionário.
A
23
de
outubro,
o
Batalhão
Cabanas
foi
incumbido
de
guarnecê-lo.
O
ponto
em
que
a
picada
cruzava
o
Piquiri,
situado
32
léguas
a
leste
da
margem
do
Paraná,
ficava
dentro
dos
ervais
do
latifundiário
argentino
Júlio
Allica.
Em
regime
de
trabalho
escravo,
cerca
de
1.000
mensus
-
paraguaios
contratados
como
mensalistas
-
eram
ali
violentamente
explorados.
Cabanas
libertou-os
depois
de
aplicar
uma
“surra
de
espada”
no
capataz
Santa
Cruz,
cunhado
de
Allica.
O
capataz
e
os
jagunços
foram
expulsos
do
local.
Cerca
de
200
trabalhadores
incorporaram-se
ao
6º
Batalhão
de
Caçadores
–
esses
homens,
afeitos
ao
serviço
de
abertura
de
picadas,
seriam
de
grande
importância
nas
futuras
ações
do
batalhão.
A
partir
desse
episódio
a
Companhia
Mate
Laranjeira,
concorrente
de
Allica
na
região,
redobrou
a
deferência
que
passara
a
dispensar
aos
revolucionários
desde
que
estes
haviam
ocupado
localidades
e
portos
vitais
para
a
companhia.
A
região
sob
domínio
das
forças
revolucionárias
no
sudoeste
paranaense
possuía
área
equivalente
ao
território
da
Suiça.
A
produção
interna
e
a
fronteira
com
dois
países,
Paraguai
e
Argentina,
tornava
viável
as
possibilidades
de
abastecimento.
A
única
mudança
significativa
nas
posições
ocupadas
pela
Divisão
São
Paulo
foi
o
recuo
da
linha
avançada,
de
Belarmino
para
Catanduvas,
no
início
do
mês
de
janeiro,
após
combates
iniciados
em
15
de
novembro.
15.
A
Guerra
de
Posição
O
general
Cândido
Rondon,
comandante
da
guarnição
militar
dos
estados
de
Santa
Catarina
e
Paraná,
assumira
o
comando
geral
dos
12.000
homens
das
forças
governistas
mobilizadas
para
combater
os
revoltosos.
Nos
seus
43
anos
de
vida
militar,
o
general
havia
obtido
respeito
e
admiração
de
seus
patrícios
pelo
trabalho
pioneiro
que
desenvolvera
como
pacificador
de
indígenas
e
desbravador
de
uma
imensa
área
do
território
nacional,
enquanto
cumpria
a
extenuante
missão
de
estender
2.270
km
de
linhas
telegráficas
através
da
região
amazônica.
Em
1922,
Rondon
havia
apoiado
Nilo
Peçanha
contra
Bernardes,
nas
eleições
para
presidente
da
República,
tendo
inclusive
chegado
a
participar
das
articulações
que
visavam
impedir
a
posse
do
segundo
por
meios
insurrecionais,
conforme
relata
o
general
Flores
da
Cunha:
“Posso
depor
quanto
à
participação
ativa
dos
republicanos
rio-grandenses
para
articular
um
movimento
violento
contra
o
governo
da
República
e
o
candidato
por
ele
sustentado.
Dentre
outros
recebi
em
Uruguaiana
visitas
alternadas
dos
generais
Cândido
Rondon,
Ximeno
de
Villeroy
e
o
tenente
Adalberto
Moreira,
recomendados
pelo
dr.
Borges
de
Medeiros...
Dos
visitantes
era
o
general
Rondon
o
mais
reservado,
sem
ocultar
entretanto
a
mais
formal
repulsa
aos
processos
de
compressão
praticados
com
flagrante
desvirtuamento
do
regime
republicano”.
Assim
como
Borges
de
Medeiros,
Rondon
recuara
dessa
posição.
Os
insurretos,
porém,
mantinham
a
expectativa
de
que
o
general
não
se
deixaria
usar
pela
oligarquia
cafeeira
a
ponto
de
assumir
o
comando
da
ação
repressiva.
Foi
com
pesar
que
eles
viram
essa
esperança
se
desvanecer.
O
plano
de
Rondon
para
enfrentá-los
era
aumentar
gradativamente
a
pressão
sobre
as
linhas
revolucionárias,
acumulando
o
maior
número
possível
de
homens
e
armamento,
a
fim
de
forçá-los
a
retroceder,
passo
a
passo,
em
direção
às
fronteiras
da
Argentina
e
Paraguai,
onde
pretendia
encurralá-los
e
obrigá-los
a
escolher
entre
a
rendição
e
o
exílio.
Punha
em
prática
a
doutrina
da
guerra
de
posição,
adotada
amplamente
na
1ª
Guerra
Mundial.
Desde
1920,
a
Missão
Militar
Francesa,
comandada
pelo
general
Maurice
Gamelin,
repassava
aos
militares
brasileiros
sua
comprovada
experiência
nessa
matéria.
16.
Reveses
em
Alegrete
e
Itaqui
Em
29
de
outubro,
quando
estourava
a
rebelião
nos
quartéis
do
Rio
Grande,
o
tenente
João
Alberto,
servindo
no
3º
Regimento
de
Artilharia
a
Cavalo,
de
Alegrete,
estranhou
que
o
comandante
de
sua
unidade,
ao
invés
de
dominar
a
força
policial
e
assumir
imediatamente
o
controle
da
cidade,
tenha
ordenado
o
seu
deslocamento,
com
uma
seção
do
regimento,
até
a
ponte
sobre
o
rio
Capivari.
O
objetivo
era
guarnecer
a
posição
até
a
chegada
do
trem
que
viria
transportando
forças
do
5º
Regimento
de
Cavalaria
Independente
de
Uruguaiana,
mobilizadas
pelo
major
Távora
para
promover
a
ocupação
de
Alegrete.
Chegando
às
imediações
cidade,
na
madrugada
do
dia
31,
com
300
homens,
o
tenente
João
Alberto
e
o
major
Távora
são
surpreendidos
pela
violenta
reação
de
uma
tropa
composta
de
1.000
homens,
comandados
pelo
dr.
Osvaldo
Aranha.
Vindos
de
Santa
Maria
e
Quaraí,
esses
integrantes
dos
corpos
provisórios,
haviam
ocupado
Alegrete.
Depois
de
renhido
combate,
a
força
atacante
recua,
dividida
em
duas
metades
que
perdem
contato
entre
si.
Separadamente,
João
Alberto
e
Távora
conseguem
chegar
a
Uruguaiana
depois
de
diversas
peripécias
–
o
primeiro
na
noite
do
dia
31,
o
segundo
dois
dias
depois.
Mal
acabara
de
repousar,
uma
ligação
telefônica
informa
ao
major
Távora
que
Siqueira
Campos
e
Aníbal
Benévolo
iam
atacar
Itaqui,
na
madrugada
do
dia
4,
e
pediam
o
seu
apoio.
Acompanhado
dos
tenentes
Edgard
Dutra
e
João
Alberto,
ele
parte
para
a
região,
com
um
destacamento
de
200
homens.
Porém
as
duas
forças
não
conseguiram
estabelecer
contato.
Diz
ele:
“Como
na
manhã
seguinte
nenhum
indício
do
ataque
anunciado
fosse
observado,
resolvi
retornar
a
Uruguaiana,
onde
a
situação
não
me
parecia
muito
segura”.
O
desencontro
foi
fatal.
Vindo
de
São
Borja,
com
um
esquadrão
de
140
homens
do
2º
Regimento
de
Cavalaria
Independente,
Siqueira
Campos
estava
nas
proximidades
de
Itaqui,
aguardando
reforços
para
desfechar
o
ataque.
A
defesa
da
cidade,
que
sediava
o
4º
Grupo
de
Artilharia
a
Cavalo,
fora
acrescida
de
400
provisórios
comandados
por
Osvaldo
Aranha,
que
rapidamente
se
deslocara
de
Alegrete
e
pela
segunda
vez
se
interpunha
no
caminho
de
seus
futuros
aliados.
De
Santiago,
marchava
outro
contingente
de
provisórios,
para
imprensar
a
força
atacante
entre
dois
fogos.
As
unidades
do
Batalhão
Ferroviário,
mobilizadas
de
São
Luís
em
seu
socorro,
pelo
tenente
Mário
Portela
Fagundes,
não
puderam
evitar
o
desastre.
O
tenente
Benévolo,
que
cobria
a
retaguarda
de
Siqueira,
com
70
combatentes,
resiste
por
três
horas
ao
ataque
do
adversário,
até
tombar
sem
vida.
Siqueira
e
Portela
retiram-se
para
o
rio
Ibicuí,
30
km
ao
sul.
Na
iminência
de
serem
cercados,
dispersam
a
tropa
em
pequenos
grupos
que
retornam
cavalgando
para
São
Borja
ou
se
internam
nas
matas
do
rio
Uruguai,
visando
atravessá-lo,
para
chegar
à
Argentina.
Ao
atingir
a
margem,
o
grupo
de
54
homens
que
seguia
com
Siqueira
não
encontra
embarcação
disponível.
O
tenente
Mário
Portela
Fagundes,
relata
o
desfecho
do
episódio:
“Siqueira
estava
porém
disposto
a
salvar
as
suas
tropas...E
resolveu
então
praticar
um
gesto
que
o
deixou
altamente
dignificado
perante
os
companheiros
que
já
se
haviam
habituado
a
admirar-lhe
a
valentia...
tomou
um
pneumático,
amarrou-o
ao
peito
e
atirou-se
sozinho
às
águas
do
Uruguai,
frias
e
revoltas...
Após
duas
horas
e
meia
de
natação
entre
piranhas
e
jacarés,
Siqueira
atingiu
a
margem
e
trouxe
uma
chalana
que
fez
várias
viagens,
até
que
todos
os
homens
alcançassem
a
margem
portenha”
17.
O
Leão
de
Caverá
O
general
Honório
Lemes
chegara
a
Uruguaiana
no
dia
30
de
setembro,
pouco
antes
de
o
major
Távora
haver
partido
para
a
frustrada
missão
em
Alegrete.
Veio
acompanhado
de
550
cavaleiros
gaúchos,
agrupados
em
três
corpos.
Poucos
dias
depois,
um
emissário
de
Santana
do
Livramento
transmitiu-lhe
o
pedido
de
oficiais
do
7º
Regimento
de
Cavalaria
Independente,
ali
sediado,
para
que
aproximasse
sua
tropa
da
cidade,
pois
a
presença
da
2ª
Regimento
da
Brigada
Militar,
impedia
que
eles
assumissem
o
controle
da
localidade,
sem
o
reforço
solicitado.
O
5º
Regimento
de
Cavalaria
Independente,
comandado
pelo
tenente
Ambirre
Cavalcanti,
comissionado
tenente-coronel,
foi
integrado
à
tropa
chefiada
pelo
general
Honório
Lemes.
O
major
Távora
tornou-se
o
chefe
de
seu
Estado-Maior.
A
coluna
iniciou
a
sua
marcha
no
dia
5,
com
1.000
cavaleiros
e
2.000
cavalos
de
remonta.
Na
manhã
do
dia
8,
quando
se
preparava
para
deixar
o
acampamento
de
Guaçu-Boi,
10
léguas
a
leste
de
Alegrete,
os
corpos
provisórios,
sob
o
comando
de
Flores
da
Cunha,
atacaram.
A
marcha
noturna
realizada
pelo
general
Honório
por
atalhos
desconhecidos,
para
encobrir
a
posição
da
coluna,
fora
detectada
pela
força
atacante.
Colhidas
de
surpresa,
as
tropas
não
conseguem
organizar-se
para
o
confronto.
Conta
o
tenente
João
Alberto:
“O
chão
estava
coberto
de
objetos
diversos
que
caíam
das
carroças
viradas.
Instrumentos
de
música,
bombos,
sanfonas,
cornetas,
misturavam-se
a
lanças
barracas
e
panelas...
Honório
galopava
de
um
lado
para
o
outro,
no
meio
das
balas,
gritando:
‘estende
linha,
estende
linha’
“.
A
derrota
foi
dura.
Restaram
da
antiga
coluna
menos
de
200
homens.
A
maioria
havia
se
dispersado
para
evitar
o
massacre,
inclusive
o
tenente
João
Alberto,
que
retorna
com
um
grupo
para
Uruguaiana
e
atravessa
a
fronteira
argentina.
Mas
Honório
Lemes
dá
uma
prova
de
porque
merecera
o
título
de
Leão
de
Caverá.
Penetrando
naquela
região,
se
reabastece
e
recompõe
o
seu
exército,
em
menos
de
uma
semana.
No
dia
15,
a
coluna,
com
800
homens,
já
está
em
marcha
para
a
Estação
de
Remonta
do
Exército,
em
Saicã.
Depois
de
dominar
a
guarnição,
o
general
Honório
armou
uma
emboscada
contra
o
reforço
de
300
provisórios
que
se
deslocara
de
Rosário
para
o
posto
de
remonta.
No
dia
18,
a
coluna
chega
a
Cacequi
e
destrói
a
estação
telegráfica
local.
Honório
Lemes
manobrava
para
atrair
em
sua
perseguição
o
2º
Regimento
de
Cavalaria
da
Brigada
Militar,
estacionado
em
Santana
do
Livramento.
O
coronel
Januário
Correia
aceita
o
desafio.
As
duas
colunas
manobram,
cada
qual
procurando
despistar
e
envolver
a
oponente.
No
dia
22,
o
general
Honório
envia
o
major
Távora
a
Santana
do
Livramento,
com
a
missão
de
alertar
o
7º
Regimento
de
Cavalaria
de
que
atacaria
a
cidade
no
dia
24.
Mas,
no
último
momento,
decide
emboscar
o
coronel
Januário,
no
desfiladeiro
da
Conceição.
Na
manhã
de
23
de
novembro,
travou-se
ali
um
sangrento
combate,
do
qual
saíra
ferido
o
coronel
Januário
Correia,
perdendo
Honório
seus
dois
melhores
comandantes
de
corpo
–
os
coronéis
Catinho
Pinto
e
Teodoro
de
Meneses.
Desfalcado
de
seus
efetivos,
o
general
maragato,
rumando
para
Caçapava
e
depois
para
Camaquã,
reuniu
suas
forças
às
do
general
Zeca
Neto.
Após
muitas
correrias,
marchas
e
contra-marchas
destituídas
de
objetividade
estratégica,
sem
munição
e
acossados
pelos
provisórios,
emigram
ambos,
com
os
remanescentes
de
suas
forças,
para
o
Uruguai.
18.
Protetor
de
Chimangos
Isolado
em
Santana
do
Livramento,
o
major
Távora
decide
atravessar
a
rua
que
separa
aquela
cidade
de
Rivera,
sua
vizinha
no
Uruguai.
Considerando
esgotado
seu
papel
na
Frente
Sul,
o
major
prepara-se
para
retornar
ao
oeste
paranaense.
Antes,
porém,
faz
uma
visita
à
octogenária
mãe
de
seu
comandante
de
Brigada,
durante
a
descida
do
Rio
Paraná,
o
general
João
Francisco.
Ao
apresentar-se,
conta
ele,
foi
“brindado
com
a
seguinte
declaração”:
-
Já
conheço
a
sua
fama
de
protetor
dos
chimangos.
Perguntei-lhe
meio
perplexo
porque
me
atribuía
tal
fama.
-
Porque
o
senhor
acha
que
os
chimangos
podem
degolar
os
soldados
maragatos,
mas
nossos
maragatos
não
podem
degolar
os
chimangos...
O
major
Távora
lembrou-se
então
que
após
a
emboscada
contra
os
provisórios
em
Saicã,
percorrendo
o
campo
de
batalha,
ele
verificara,
com
tristeza,
que
alguns
adversários
vencidos
haviam
sido
degolados
pelos
vencedores.
Protestara
junto
ao
general
Honório
e
dissera
que
não
se
sentiria
à
vontade
como
chefe
do
Estado-Maior
de
sua
coluna
se
ele
não
fixasse
uma
proibição
terminante
àquele
tipo
de
prática.
Evidentemente,
sua
reprovação
era
extensiva
aos
atos
de
mesmo
teor
praticados
pelas
tropas
adversárias,
como
o
perpetrado
em
Los
Galpones,
ali
nas
proximidades
de
Rivera,
quando
sete
marinheiros
do
encouraçado
São
Paulo,
entre
os
quais
um
sobrinho
do
dr.
Assis
Brasil,
haviam
sido
degolados
ainda
em
território
uruguaio.
O
desfecho
de
seu
relato
porém
mostra
que
a
velhinha
era
dura
na
queda:
“Meu
esclarecimento
não
pareceu
demover
a
senhora
Pereira
de
Sousa
de
seus
pontos
de
vista,
pois
treplicou-me,
sem
pestanejar:
-
Aí
é
que
está
o
seu
engano.
O
senhor
pode
fazer
chegar
o
seu
pito
aos
nossos
soldados,
por
intermédio
do
general
Honório.
Mas
não
pode
fazer
o
mesmo
aos
chimangos
por
intermédio
de
sinhô
Cunha
e
outros
de
seus
comandantes
de
degolas.
Achei
mais
prudente
calar-me
para
pôr
termo
ao
incidente”.
19.
A
Guerra
de
Movimento
As
derrotas
em
Itaqui
e
na
fronteira
uruguaia
levaram
as
forças
revolucionárias
a
concentrar-se
na
região
de
São
Luís
Gonzaga
das
Missões,
distante
150
km
da
estrada
de
ferro
mais
próxima.
Acampadas
ali,
duas
unidades
do
Exército
e
centenas
de
gaúchos
aguardavam
a
chegada
dos
remanescentes
dos
destacamentos
que,
abaixo
do
rio
Ibicuí,
haviam
cometido
a
imprudência
de
reeditar
aquilo
que
se
pretendia
evitar:
as
velhas
peleas
entre
chimangos
e
maragatos.
João
Alberto
retornara
da
Argentina
por
São
Borja.
Permanecera
fora
do
país
apenas
o
tempo
necessário
para
embarcar
num
trem
e
descer
na
cidade
fronteiriça
de
São
Tomé.
De
São
Borja
parte
para
São
Luís,
com
200
combatentes,
originários
do
2º
Regimento
de
Cavalaria
Independente,
que
iriam
constituir-se
no
núcleo
do
2º
Destacamento,
a
força
que
estaria
sob
seu
comando,
na
marcha
da
Divisão
Rio
Grande
para
o
Paraná.
Poucos
dias
depois
chegava
Siqueira
Campos.
O
grande
desafio,
segundo
relata
João
Alberto,
era
“transformar
os
insucesso
e
malogros
de
grupos
desordenados
em
organização
militar
disciplinada,
eficiente...”.
A
maior
dificuldade
era
convencer
os
coronéis,
majores
e
capitães
maragatos
a
se
enquadrarem
numa
estrutura
militar
única,
combatendo
de
acordo
com
um
plano
estratégico
geral,
dentro
do
qual
cada
unidade
tinha
o
seu
papel
determinado
a
cumprir.
Aos
poucos
os
jovens
tenentes
foram
superando
os
obstáculos,
ajudados
por
figuras
como
o
major
Nestor
Veríssimo,
que
aceitou
o
encargo
de
subcomandante
do
2º
Destacamento.
Outro
dos
gaúchos
que
mais
contribuíram
para
o
êxito
dessa
empreitada
foi
o
coronel
Luís
Carreteiro,
do
qual
João
Alberto
apresenta
um
significativo
retrato:
“Era
aproximadamente
da
minha
altura
(1,80),
mas
cheio
de
corpo.
Bigode
e
barba.
Cabelos
abundantes
e
grisalhos.
Tez
escura,
denotando
mestiçagem...
Trajava
espetacularmente.
Prendia
as
suas
amplas
bombachas
de
pano
riscado
um
cinto
largo,
cheio
de
medalhas
e
enfeites
de
prata,
que
lhe
caíam
sobre
as
botas
pretas,
novas
e
altas,
de
sanfona.
Esporas
de
prata
com
corrente
e
grandes
rosetas
tilintantes
anunciadoras
de
seus
movimentos.
Ainda
seguros
ao
cinto,
dois
revólveres
calibre
38
e
uma
quantidade
de
balas.
Circundava-lhe
o
pescoço
um
grande
lenço
vermelho...
Do
chapéu
de
abas
largas,
também
novo,
cinza
escuro,
pendia-lhe
uma
fita
vermelha,
onde
se
podia
ler
a
frase:
‘não
dou
nem
pido
ventaje’”.
Toda
a
tropa
foi
distribuída
em
três
destacamentos
sob
comando
do
coronel
Luís
Carlos
Prestes,
com
o
tenente
Siqueira
Campos
na
chefia
do
Estado-Maior.
Prestes
recebera
a
promoção
das
mãos
do
general
João
Francisco,
no
início
do
mês
de
novembro,
em
São
Borja.
Foi
o
último
ato
do
general,
antes
de
seguir
para
o
exílio.
O
1º
Destacamento
da
Divisão
Rio
Grande
foi
confiado
ao
tenente
Mário
Portela
Fagundes,
o
2º
Destacamento
a
João
Alberto.
O
comando
do
3º
Destacamento
coube
ao
tenente
João
Pedro
Gay.
Eram
2.000
homens.
O
bastante
para
refutar
a
afirmação
de
Isidoro
na
carta
que
provocara
o
afastamento
do
general
João
Francisco
da
Divisão
São
Paulo:
“Não
creio
nos
três
ou
quatro
mil
homens
que
o
senhor
ficou
de
nos
mandar
para
voltarmos
pelo
Paraná
a
São
Paulo”.
Renovaram-se
as
esperanças.
A
estratégia
adotada
seria
a
da
guerra
de
movimento,
enunciada
por
Prestes
em
carta
ao
general
Isidoro
com
as
seguintes
palavras:
“Com
a
minha
coluna
armada
e
municiada,
sem
exagero
julgo
não
ser
otimismo
afirmar
que
conseguirei
marchar
para
o
Norte,
dentro
de
pouco
tempo
atravessar
o
Paraná
e
São
Paulo,
dirigindo-me
ao
Rio
de
Janeiro,
talvez
por
Minas
Gerais.
Se
a
Divisão
São
Paulo
igualmente
movimentar-se,
em
vez
de
aceitar
a
guerra
de
trincheiras,
e
se
marchar
conosco
em
ligação
estratégica,
e
talvez,
em
algumas
circunstâncias,
mesmo
tática,
impossível
será
ao
governo
obstar
a
nossa
marcha”.
Siqueira
Campos,
João
Alberto
e
Prestes
eram
revolucionários
desde
o
levante
que
abalara
a
capital
da
Republica
em
1922.
Siqueira
comandara
a
lendária
marcha
dos
18
do
Forte.
Exilado
na
Argentina,
logo
estabelecera
contato
com
os
quartéis
da
fronteira
gaúcha.
João
Alberto
fora
preso
em
razão
do
malogro
do
levante
da
Vila
Militar,
onde
servia
na
2ª
Bateria
do
1º
Regimento
de
Artilharia
Montada.
Passara
cinco
meses
na
prisão,
antes
de
ser
transferido
para
Alegrete.
Prestes
contraíra
tifo,
às
vésperas
do
5
de
julho,
ficando
impossibilitado
de
promover
a
sublevação
do
1º
Batalhão
Ferroviário.
Desta
feita,
porém,
tomara
todo
o
cuidado
para
que
a
saúde
não
lhe
pregasse
outra
peça.
20.
Marcha
para
o
Norte
Na
véspera
do
Natal,
a
coluna
se
pôs
em
marcha.
Depois
de
organizada,
aguardara
ainda
algumas
semanas,
em
São
Luís,
pelas
armas
que
viriam
através
da
Argentina
-
enviadas
pela
Divisão
São
Paulo.
Metade
da
tropa
estava
bem
armada,
outra
metade
não.
Constatada
a
impossibilidade
da
remessa
dos
armamentos,
os
revolucionários
decidem
atacar
Tupanciretã
–
100
km
a
leste
de
São
Luís.
O
7º
Regimento
de
Infantaria
da
Brigada
Militar
recém
chegado
à
cidade
repele
o
ataque.
A
27
de
dezembro,
evitando
uma
manobra
de
envolvimento
realizada
por
sete
colunas
governistas,
a
Divisão
Rio
Grande
toma
a
ponte
sobre
o
rio
Ijuí
e
embrenha-se
na
zona
da
mata,
marchando
por
antigas
picadas
abertas
pelos
colonos
alemães.
Ultrapassando
a
região
agreste,
retornam
ao
campo
aberto.
No
dia
3
de
janeiro
são
alcançados
pelas
forças
perseguidoras
de
Claudino
Nunes
Pereira,
no
Boqueirão
de
Ramada.
O
combate
é
feroz.
As
baixas
nas
fileiras
revolucionárias
são
de
50
mortos
e
100
feridos.
Mas
o
adversário
bate
em
retirada
para
Palmeiras.
No
dia
4,
os
revolucionários
alcançam
as
matas
marginais
ao
rio
Uruguai,
pelas
quais
prosseguem
em
direção
à
Santa
Catarina.
Prestes
assinala
que:
“As
matas
dos
rios
Uruguai
e
Iguaçu
são
talvez
as
mais
densas
do
Brasil,
não
se
podendo
marchar
a
não
ser
através
de
picadas
abertas
a
facão...
Era
difícil
fazer
com
que
os
homens
andassem
pela
mata
mais
de
três
ou
quatro
quilômetros
por
dia”.
As
condições
da
marcha
são
penosas,
particularmente
para
os
gaúchos
acostumados
a
desmontar
apenas
para
comer
churrasco
e
beber
chimarrão
ao
redor
do
fogo.
A
carne
de
panela
tomou
o
lugar
do
churrasco.
A
cavalhada
foi
se
enfraquecendo
com
a
falta
de
pasto,
e
o
terreno
úmido
embaraçava
a
caminhada.
Com
seus
ponchos
transformados
pela
chuva
constante
em
verdadeiras
“cangalhas”,
os
gaúchos
patinam
e
atolam
na
lama
suas
botas
sanfonadas.
Trazem
o
cavalo
pelas
rédeas
e
se
obrigados
a
desfazer-se
dele
carregam
a
sela
nas
costas.
Sofrendo
na
própria
carne
as
conseqüências
desse
tipo
de
marcha,
o
pernambucano
João
Alberto
revelou
que
em
certos
momentos
de
maior
dificuldade,
chegara
mesmo
“a
concordar
com
o
preconceito
gaúcho
contra
a
infantaria”.
Em
seguida,
afirma:
“Marchar
a
pé
não
requer
valentia,
Mas
tenacidade,
estoicismo,
dureza
de
fibra.
São
outras
qualidades
de
caráter”.
No
final
de
janeiro,
a
vanguarda
da
Divisão,
composta
pelo
2º
Destacamento,
atravessa
o
rio
Uruguai
e
chega
a
Porto
Feliz,
em
Santa
Catarina.
A
travessia
do
grosso
é
lenta,
feita
em
dezenas
de
canoas
e
leva
vários
dias.
A
medida
que
as
tropas
vão
chegando,
providenciam
abastecimento
e
descansam.
Tinham
ainda
um
longo
caminho
pela
frente:
Mais
de
30
léguas,
pela
densa
mataria,
até
atingirem
o
estradão
que
serve
de
divisa
entre
os
estados
do
Paraná
e
Santa
Catarina
e
de
ligação
entre
as
cidades
de
Barracão
e
Palmas.
21.
Deserção
do
Tenente
Gay
A
dureza
da
marcha
produziu
uma
diferenciação
entre
os
participantes.
Temperou
o
ânimo
da
maioria.
Mas
abateu
o
de
considerável
número
de
combatentes.
Ao
longo
de
três
semanas,
desde
que
abandonaram
o
campo
aberto,
após
o
combate
no
Boqueirão
de
Ramada,
diversas
deserções
aconteceram.
Na
Colônia
Militar
do
Alto
Uruguai,
pouco
antes
da
transposição
do
rio,
mais
de
200
gaúchos
solicitaram
permissão
-
e
receberam
-
para
abandonarem
a
tropa
e
passarem
à
Argentina.
Mais
grave
porém
foi
a
atitude
do
tenente
João
Pedro
Gay,
até
aquele
momento
comandante
do
3º
Destacamento
da
Divisão
Rio
Grande.
No
dia
3
de
fevereiro
ele
foi
preso,
a
fim
de
ser
submetido
a
um
Conselho
de
Guerra.
Dias
antes
de
sua
prisão,
Prestes
havia
convocado
uma
reunião
com
os
oficiais
em
função
de
denúncias
que
circularam
sobre
os
maus
propósitos
do
tenente.
Ele
foi
advertido
de
que
poderia
ir
embora,
esse
era
um
direito
que,
naquele
momento,
estava
facultado
a
todo
e
qualquer
combatente.
Não
poderia,
no
entanto,
levar
o
armamento
e
a
munição,
por
serem
indispensáveis
àqueles
que
optaram
por
prosseguir
na
luta.
A
reação
do
tenente
foi
chorar,
dizendo
estar
sendo
vítima
de
uma
infâmia.
Mais
tarde,
interrogados
por
Prestes
os
soldados
confirmaram
que
Gay,
valendo-se
da
posição
de
comandante
do
Destacamento,
estava
procurando
organizar
uma
deserção
em
massa.
A
decisão
do
Conselho
de
Guerra
foi
a
condenação
do
oficial
à
morte,
por
fuzilamento.
A
sentença
não
foi
executada.
Dois
dias
antes
da
data
marcada,
o
tenente
Gay
fugiu.
Prestes
contou
à
sua
filha,
Anita
Leocádia,
que
anos
depois
tomara
conhecimento
de
que
João
Alberto
se
apiedara
daquela
alma
e
facilitara
a
sua
fuga.
Mas
não
há
outros
testemunhos
que
referendem
a
exatidão
da
assertiva.
O
comando
do
3º
Destacamento
foi
assumido
pelo
tenente
Siqueira
Campos.
22.
Ataque
a
Formigas
No
dia
6
de
janeiro,
o
major
Cabanas
participa
de
uma
reunião
com
os
oficiais
que
respondem
pela
defesa
de
Catanduvas.
O
front
havia
sido
recuado
de
Belarmino
para
aquela
localidade.
Embora
a
posição
fosse
mais
segura,
seus
600
defensores
estavam
sob
pressão
das
tropas
do
coronel
Álvaro
Mariante,
compostas
de
2.200
homens.
A
conferência
avalia
a
conveniência
de
um
ataque
a
Formigas,
atrás
das
linhas
das
forças
sitiantes.
O
plano
previa
também
uma
incursão
simultânea,
a
partir
de
Formigas
e
de
Catanduvas,
sobre
as
linhas
do
coronel
Mariante,
com
o
intuito
de
desorganizá-las.
Como
o
general
Rondon
passava
grande
parte
do
tempo
no
acampamento
de
Formigas,
acompanhando
de
perto
a
evolução
da
situação
na
frente
de
batalha,
a
possibilidade
de
capturá-lo
dava
novo
alento
às
forças
revolucionárias.
A
única
possibilidade
de
execução
dessa
ousada
ofensiva
estava
na
exploração
do
elemento
surpresa.
Seria,
portanto,
indispensável
a
abertura
de
uma
picada
de
30
km,
na
mata,
partindo
do
rancho
de
Sapucaï,
nas
proximidades
de
Santa
Cruz,
até
o
acampamento
inimigo..
Cabanas
iniciou
a
marcha
no
dia
11,
com
duas
companhias
do
seu
batalhão,
a
terceira
seguiria
dois
dias
depois.
Eram
ao
todo
280
homens.
O
restante
do
6º
Batalhão
de
Caçadores
continuaria
a
guarnecer
a
antiga
posição,
no
rio
Piquiri.
No
dia
18,
haviam
rasgado
25
km
de
mata
e
construído
quatro
pontes,
uma
das
quais
com
16
metros,
sobre
o
rio
Ano
Novo.
O
ataque
ocorreu
na
madrugada
do
dia
21.
Surpreendida,
a
guarnição
não
pode
fazer
valer
o
peso
de
sua
superioridade
numérica.
O
comandante
geral
das
forças
governistas,
porém,
não
foi
encontrado.
Conta
o
major
Cabanas:
“O
primeiro
prisioneiro
que
fiz
deu-me
a
informação
que
o
general
Rondon,
devido
ao
desconcerto
de
sua
limusine,
retardou
a
chegada
a
Formigas
onde
já
deveria
estar”.
Embora
espetacular,
a
investida
não
surtiu
o
efeito
desejado.
Nas
imediações
do
acampamento,
o
comando
governista
já
havia
concentrado
forças
de
efetivo
muito
superior
ao
esperado
pelos
revolucionários..
Em
pouco
tempo,
600
homens
do
2º
Batalhão
de
Caçadores
e
1.200
do
coronel
Varella
convergem
sobre
ele.
Durante
toda
a
tarde,
Cabanas
resistiu
ao
assédio.
À
noite
conseguiu
escoar
suas
forças
para
a
mata.
Nem
o
general
Rondon
fora
aprisionado,
nem
pode
Cabanas
atacar
as
linhas
do
coronel
Mariante.
E
encontrou
muitas
dificuldades
para
retornar
a
Santa
Cruz,
o
que
só
ocorreu
em
1º
de
fevereiro.
23.
Conversações
de
Paz
O
deputado
Batista
Luzardo
chegou
a
Foz
do
Iguaçu
em
13
de
fevereiro.
Veio
acompanhado
de
um
capitão
do
Exército
que
trazia
carta
do
general
Eurico
de
Andrade
Neves,
comandante
da
3ª
Região
Militar,
sediada
no
Rio
Grande
do
Sul.
A
carta
propunha
a
abertura
de
conversações
de
paz,
na
cidade
argentina
de
Posadas,
onde
já
se
encontrava
o
deputado
João
Simplício
de
Carvalho.
Luzardo
e
Simplício
representavam
o
Rio
Grande
na
Câmara
Federal.
Mas
seguiam
orientações
políticas
distintas.
O
deputado
Luzardo
fora,
até
recentemente,
um
dos
principais
coronéis
da
força
militar
que
combatia
sob
a
bandeira
do
general
Honório
Lemes.
Em
Posadas,
para
onde
se
desloca
o
general
Isidoro,
a
conferência
se
estende
nas
preliminares
sem
chegar
a
um
acordo.
Ainda
que
as
conversações
não
tenham
chegado
a
estabelecer
um
cessar-fogo,
na
prática
ele
vai
se
impondo
no
front
de
Catanduvas.
No
dia
24
de
fevereiro,
os
300
metros
que
separam
as
trincheiras
inimigas
são
atravessados
por
soldados
desarmados,
de
ambos
os
lados,
dando
início
a
uma
grande
confraternização
que
se
prolonga
por
mais
de
quatorze
horas.
Não
é
sem
dificuldade
que
os
oficiais
revolucionários
e
os
governistas
trazem
seus
comandados
de
volta
às
posições
originais.
No
dia
6
de
março
recomeçam
as
negociações,
em
Passo
de
los
Libres.
Simplício
apresenta
a
proposta
que
recebera
diretamente
do
presidente
da
República.
Pelas
condições
estabelecidas,
os
insurretos
deveriam
entregar
todo
o
armamento
em
seu
poder.
O
governo
se
comprometia
a
“deixar
cair
no
esquecimento
esse
período
de
sacrifício
e
de
luto”,
empenhando-se
para
que
o
Congresso
Nacional
formulasse
uma
lei
de
anistia.
Enquanto
ela
não
fosse
aprovada,
os
rebeldes
deveriam
entregar-se
nas
cidades
indicadas
pelo
governo.
O
acordo
de
paz
deveria
ser
assinado
na
cidade
de
Uruguaiana.
Os
revolucionários
consideraram
inconsistentes
as
garantias
oferecidas
pelo
governo.
Firmam
em
documento
a
posição
de
que
não
baixariam
as
armas
enquanto
não
fosse
revogada
a
Lei
de
Imprensa
e
adotados
o
voto
secreto
e
o
ensino
público
obrigatório.
Os
negociadores
solicitam
tempo
para
novas
consultas.
Porém
não
voltariam
mais
a
reunir-se
formalmente.
24.
Operação
Clevelândia
A
7
de
março
a
Divisão
Rio
Grande
chega
em
Barracão,
no
estado
do
Paraná,
fazendo
junção
com
as
forças
do
coronel
Fidêncio
de
Mello.
Estabelecido
como
fazendeiro
na
região,
o
coronel
era
amigo
do
general
João
Francisco.
Comandando
uma
força
de
78
homens,
havia
providenciado
a
abertura
de
uma
picada
de
Santo
Antônio,
em
Santa
Catarina,
até
a
vila
paranaense
de
Benjamin
Constant,
situada
do
outro
lado
do
rio
Iguaçu,
de
modo
a
permitir
a
ligação
das
duas
divisões.
Barracão
fica
na
antiga
região
do
Contestado.
De
lá,
até
Foz
do
Iguaçu,
onde
estava
instalado
o
Estado-Maior
da
Divisão
São
Paulo,
a
distância
era
de
90
km.
Uma
picada
entre
as
duas
localidades,
aberta
na
mata
por
uma
turma
do
Batalhão
Cabanas,
dirigida
pelo
tenente
Gastão
Maitre
Pinheiro,
estava
em
fase
final
de
conclusão.
Mas
a
última
coisa
que
passava
pela
cabeça
de
Prestes
era
atravessar
o
Iguaçu,
conduzindo
suas
tropas
ao
interior
do
cerco
montado
pelo
general
Rondon
à
Divisão
São
Paulo.
Os
destacamentos
de
Siqueira
Campos
e
João
Alberto
foram
lançados
sobre
Clevelândia
e
Palmas,
na
direção
Leste,
buscando
uma
junção
com
os
170
homens
das
forças
paulistas
que,
dois
dias
antes
da
chegada
da
Divisão
Rio
Grande
à
região,
haviam
dispersado
e
perseguido
o
contingente
governista
que
guarnecia
Santo
Antônio,
Barracão
e
Campo
Erê.
O
objetivo
da
manobra
era
prosseguir
até
a
Colônia
Mallet
e
golpear
a
retaguarda
de
Rondon,
de
modo
a
forçar
a
abertura
de
uma
brecha
que
permitisse
o
escoamento
da
Divisão
São
Paulo.
Conta
o
tenente
João
Alberto:
“Durante
cinco
ou
seis
dias,
Siqueira
e
eu...
marchamos
juntos.
Ao
fim
da
semana,
quando
já
nos
aproximávamos
do
campo
de
Clevelândia,,,
escalamos
nossa
tropa
e
coube-me
a
vanguarda.
No
mesmo
dia,
o
2º
Destacamento
chocou-se
com
uma
coluna
inimiga
que...
marchava
em
sentido
oposto
ao
nosso.
Daí
por
diante
foi
um
continuar
de
pequenos
combates...”
Impossibilitados
de
cumprir
a
missão,
Siqueira
e
João
Alberto
tratavam
agora
de
retardar
a
progressão
da
tropa
governista
em
direção
a
Barracão,
fazendo
uma
“guerra
de
emboscadas”
ao
longo
de
“180
quilômetros”.
Frustrada
a
tentativa
de
efetuar
a
junção
com
o
grosso
da
Divisão
São
Paulo
fora
do
cerco
estratégico,
a
Divisão
Rio
Grande
prepara-se
para
iniciar
a
marcha
para
o
Norte
em
direção
ao
rio
Iguaçu.
Siqueira
e
João
Alberto
são
avisados
para
evitar
o
contato
com
o
inimigo
e
rumar
também
para
o
Norte.
Em
Barracão
a
situação
é
delicada.
Convergem
sobre
o
1º
Destacamento
duas
fortes
colunas
governistas.
A
primeira
vem
seguindo
os
revolucionários,
através
da
mata,
desde
Porto
Feliz.
Na
luta
para
retardá-la,
ainda
em
Santa
Catarina,
tombara
em
combate,
no
dia
27
de
janeiro,
seu
comandante,
o
tenente
Mario
Portela
Fagundes.
A
outra,
vinda
do
leste,
é
a
que
acabara
de
fazer
abortar
o
ataque
à
retaguarda
de
Rondon.
Prestes
aguarda
até
o
último
instante.
Ao
anoitecer
do
dia
24
de
março,
simula
um
avanço
do
1º
Destacamento,
sobre
a
coluna
que
vinha
do
Sul,
obrigando-a
a
fixar-se
à
espera
do
ataque,
na
localidade
denominada
Maria
Preta.
Em
seguida
retira-se,
sem
permitir
que
a
manobra
seja
detectada.
Na
escuridão
da
noite,
as
duas
colunas
governistas
acabaram
por
se
chocar,
passando
a
trocar
tiros
entre
si.
Só
na
madrugada
puderam
verificar
que
o
fogo
amigo
provocara
200
baixas.
25.
Queda
de
Catanduvas
Três
dias
depois,
visando
antecipar-se
à
junção
das
duas
divisões
revolucionárias,
as
forças
governistas
desencadeiam
uma
violenta
ofensiva
contra
a
cidadela
de
Catanduvas.
A
cada
20
segundos
uma
granada
de
artilharia
explode
nas
trincheiras
revolucionárias.
Os
combatentes
que
as
defendem
são
assediados
por
4.000
soldados
comandados
por
17
generais.
O
major
Cabanas
assim
descreveu
os
últimos
dias
de
Catanduvas:
“A
artilharia
inimiga
rompeu
vivíssimo
fogo,
contra
nossas
posições,
ao
mesmo
tempo
em
que
a
infantaria
caía
com
violenta
carga
de
baionetas
em
todas
as
trincheiras
e
destacamentos
isolados.
Ao
primeiro
embate
foi
tomada,
na
ala
direita,
nossa
posição
denominada
Cajati...
no
dia
seguinte,
o
inimigo
enveredou
pelas
matas,
abrindo
picadas
contornou
as
trincheiras
da
ala
(esquerda)
e
foi
satir
a
2.500
metros,
na
retaguarda...
interceptando
completamente
nossa
ligação
entre
Catanduvas,
minha
coluna
em
Floresta
e
o
posto
de
comando
do
general
Costa...
A
noite
avançava;
os
nossos
soldados
detonavam
seus
últimos
cartuchos
e
a
situação
era
gravíssima...
Assim
reuniu-se
a
oficialidade
em
conferência
e
tomaram
a
única
solução
viável
no
caso:
a
entrega
da
praça,
devendo
pôr-se
imediatamente
a
salvo
como
pudessem
o
coronel
Estilac
Leal
e
o
capitão
Felinto
Müller...
Ao
amanhecer
de
30,
o
inimigo
sabendo
não
existir
mais
um
cartucho,
dá
o
sinal
de
carga
de
infantaria,
e
na
nossa
trincheira
principal,
da
frente,
agita-se
tristemente
uma
bandeira
branca”.
A
notícia
do
desastre
colheu
João
Alberto
em
plena
transposição
do
rio
Iguaçu.
Prestes,
que
já
completara
a
travessia,
movimenta
o
1º
Destacamento
em
marcha
forçada
para
proteger
o
cruzamento
da
estrada
Catanduvas-Cascavel-
Benjamin-Iguaçu
pelos
destacamentos
de
Siqueira
Campos
e
João
Alberto.
As
tropas
governistas,
no
entanto,
não
progrediram
pela
estrada,
estacionando
na
posição
conquistada.
Sobre
a
rodovia
foi
então
organizada
uma
nova
frente
de
cobertura
às
forças
revolucionárias
que
se
concentraram
em
Santa
Helena,
porto
fluvial
sobre
o
rio
Paraná,
entre
Porto
Mendes
e
Foz
do
Iguaçu.
Logo
após
a
travessia
do
rio
Iguaçu,
ainda
em
Benjamin
Constant,
no
dia
3
de
abril,
o
coronel
Prestes
e
o
general
Miguel
Costa
mantiveram
um
encontro,
no
qual
firmaram
o
compromisso
de
prosseguirem
na
luta,
levando
as
tropas
das
duas
divisões
a
movimentarem-se
continuamente
através
do
território
nacional,
até
reunirem
as
forças
necessárias
à
derrubada
do
governo.
Para
isso,
seria
necessário
romperem
imediatamente
o
cerco,
passando
ao
estado
do
Mato
Grosso.
26.
O
Encontro
das
Divisões
No
dia
12
de
abril,
em
Foz
do
Iguaçu,
realiza-se
o
encontro
decisivo
entre
diversos
oficiais
da
Divisão
São
Paulo
e
o
comandante
da
Divisão
Rio
Grande.
A
reunião
contou
com
a
presença
do
marechal
Isidoro,
que
retornara
da
Argentina
dois
dias
depois
da
queda
de
Catanduvas.
O
comando
das
forças
paulistas
que
fora
transferido
ao
general
Padilha,
na
ocasião
em
que
Isidoro
recebera
a
promoção,
estava
agora
sob
a
responsabilidade
do
general
Miguel
Costa.
Miguel
Costa
e
Prestes
sustentaram
a
posição
do
deslocamento
imediato
para
o
Mato
Grosso.
Mas
a
tarefa
não
era
simples.
Guaíra,
posição
revolucionária
mais
avançada
ao
norte
e
porta
de
acesso
àquele
estado,
fora
evacuada.
A
ordem,
da
qual
Miguel
Costa
só
tomou
conhecimento
após
a
execução,
partira
do
marechal,
que
considerara
inútil
manter
a
cidade,
depois
da
rendição
de
Catanduvas
e
de
sufocados
os
levantes
das
guarnições
mato-grossenses
de
Campo
Grande
e
Ponta-Porã.
As
rebeliões
do
17º
Batalhão
de
Caçadores
e
do
11º
Regimento
de
Cavalaria
tinham
sido
deflagrados
em
27
de
março,
dia
do
início
da
ofensiva
governamental
sobre
Catanduvas.
A
síntese
das
decisões
é
relatada
por
Juarez
Távora
nos
seguintes
termos:
“1.
Considerar
frustradas
as
tentativas
de
pacificação
começadas,
por
iniciativa
dos
chefes
do
governistas,
em
16
de
fevereiro.
2.
Prosseguir
as
operações
de
guerra
de
acordo
com
as
diretrizes
baixadas
pelo
general
Miguel
Costa.
3.
Grupar
numa
divisão,
sob
o
comando
do
general
Miguel
Costa,
os
remanescentes
das
forças
paulistas,
sob
comando
do
tenente-coronel
Juarez
Távora,
e
os
elementos
chegados
do
Rio
Grande
do
Sul,
sob
o
comando
do
coronel
Luís
Carlos
Prestes”.
O
tenente-coronel
Cabanas
acrescenta:
“...
sendo
o
plano
da
nova
campanha
de
grande
movimentação,
acordaram
os
oficiais
superiores,
atendendo
à
idade
e
ao
abatimento
físico
do
marechal
Isidoro,
do
general
Padilha
e
bem
assim
ao
delicado
estado
de
saúde
do
coronel
Estilac
Leal,
pedir
aos
três
que
ficassem
no
estrangeiro
até
que
fosse
possível
retornarem
ao
exercício
revolucionário”.
Estilac
havia
sofrido
um
ferimento,
por
estilhaço
de
granada,
no
pescoço.
Concentradas
em
Santa
Helena,
as
forças
revolucionárias
escoaram
suas
tropas
por
uma
picada
de
30
km,
passando
por
Porto
Artaza
até
Porto
Mendes,
correndo
a
5
km
da
margem
do
Paraná
para
evitar
os
cânions
dos
rios
São
Francisco
Falso
e
São
Francisco.
A
abertura
dessa
picada
havia
sido
ordenada
pelo
general
Miguel
Costa
ainda
na
primeira
semana
do
mês
de
abril.
Constatada
a
impossibilidade
da
retomada
de
Guaíra,
ao
norte,
Miguel
Costa
e
Prestes
decidiram
atingir
o
Mato
Grosso,
passando
através
do
território
paraguaio.
Para
que
a
travessia
do
rio
Paraná
não
fosse
embaraçada
pelas
forças
governistas
que
se
aproximavam
perigosamente
de
Porto
Artazas,
através
da
carroçável
que
partia
de
Lopeí,
a
leste,
as
forças
revolucionárias
desferiram
um
contra-ataque
que
as
fez
recuar
10
km.
27.
O
Comandante
Paraguaio
João
Alberto
foi
encarregado
de
apresentar
ao
comandante
da
guarnição
paraguaia
de
Puerto
Adela
uma
carta
na
qual
os
revolucionários
expunham
as
suas
razões:
“Por
circunstâncias
excepcionais
e
inapeláveis
entramos
armados
no
território
de
vossa
Pátria.
Não
nos
move,
neste
passo
extremo
a
que
nos
impelem
as
vicissitudes
de
uma
luta
leal,
porém
intransigente,
pela
salvação
das
liberdades
brasileiras,
nenhuma
idéia
de
violência
contra
nossos
irmãos
da
República
do
Paraguai”.
Datado
de
26
de
abril,
o
documento
levava
as
assinaturas
do
general
Miguel
Costa;
coronel
Luís
Carlos
Prestes;
tenentes-coronéis
João
Alberto,
Juarez
Távora,
Cordeiro
de
Farias,
João
Cabanas;
majores
Coriolano
de
Almeida,
Paulo
Kruger
da
Cunha
Cruz,
Virgílio
Ribeiro
dos
Santos;
capitães
Djalma
Dutra,
Ricardo
Holl,
Ary
Salgado
Freire,
Lourenço
Moreira
Lima
e
Emídio
Costa
Miranda.
Deixaram
de
assiná-lo,
o
tenente-coronel
Siqueira
Campos
e
outros
oficiais
que
se
achavam
empenhados
em
ações
de
cobertura
do
grosso
revolucionário.
O
comandante
da
guarnição
paraguaia,
porém,
não
era
homem
de
muita
conversa,
conforme
relata
o
próprio
portador
da
carta:
“Os
motores
fracos
do
Assis
Brasil
demoraram
muito
para
vencer
os
400
metros
que
nos
separavam
da
margem
oposta.
Isso
bastou
para
que
o
capitão
paraguaio,
comandante
da
tropa
(50
homens)
que
vigiava
e
defendia
a
fronteira
da
república
vizinha,
pressentindo
nossas
intenções
de
invadir
seu
território,
tomasse
posição
para
repelir
o
nosso
desembarque.
Eu
não
tinha
nenhuma
alternativa...
desembarquei
com
o
Nestor
e
uns
poucos
homens.
O
resto
da
tropa
ficou
detida
a
bordo...
Confabulamos
a
igual
distância
de
nossas
tropas.
Ele
exigia
que
eu
depusesse
armas
ou
regressasse
para
o
Brasil...
Por
duas
vezes
ele
abandonou
as
negociações
e
voltou
para
junto
de
seus
homens,
dizendo
que
iria
reagir...
Pensei
então
em
entrar
em
luta
corporal
com
o
capitão
paraguaio
a
fim
de
evitar
que
ele
me
fuzilasse”.
Afinal
o
capitão
acedeu
ao
pleito
revolucionário.
Mas
só
depois
de
João
Alberto
assinar
um
documento
no
qual
reconhecia
que
a
anuência
do
comandante
se
devia
à
inferioridade
numérica
em
que
ele
se
encontrava
frente
às
tropas
brasileiras.
A
travessia
foi
realizada
em
dois
vapores:
o
Assis
Brasil,
recondicionado,
meses
antes,
pelos
revolucionários,
em
Porto
Mendes,
e
o
Bell,
requisitado
por
eles
em
Puerto
Adela.
O
deslocamento
de
toda
a
Divisão
-
700
homens
da
Brigada
São
Paulo,
800
da
Brigada
Rio
Grande,
600
animais
de
carga,
sela
e
tração,
todo
o
material
bélico,
inclusive
uma
bateria
de
artilharia
-
levou
setenta
e
duas
horas.
No
dia
30
de
abril,
depois
de
marcharem
125
km,
em
território
paraguaio,
penetravam
no
estado
de
Mato
Grosso
pelos
campos
de
Amambaí.
28.
Epílogo
Iniciava
assim,
sob
o
comando
do
general
Miguel
Costa,
a
terceira
fase
da
Revolução
de
1924:
a
Grande
Marcha
de
25
mil
quilômetros,
através
de
dez
estados
brasileiros,
ao
longo
de
quase
dois
anos.
As
forças
revolucionárias
não
conseguiram
reunir
o
apoio
necessário
para
derrotar
a
oligarquia
cafeeira.
Esta,
porém,
também
não
teve
força
para
impor-lhes
uma
derrota
estratégica.
Em
1927,
candidato
ao
governo
do
Rio
Grande
do
Sul,
Getúlio
Vargas,
realiza
a
proeza
de
unificar
chimangos
e
maragatos.
Aí
começa
a
gestação
da
nova
onda
revolucionária,
que,
em
meados
de
1929,
se
materializaria
no
amplo
leque
de
forças
que
se
aglutinou
em
torno
de
sua
candidatura
à
presidência
da
República.
Nele
estariam
reunidos
os
revolucionários
de
22
e
24
e
alguns
de
seus
mais
duros
oponentes,
no
passado.
Isolada,
a
oligarquia
paulista
não
hesita
em
apelar
mais
uma
vez
para
a
fraude
eleitoral.
A
resposta
será
a
Revolução
de
3
de
outubro
de
1930.
SÉRGIO
RUBENS
DE
ARAÚJO
TORRES