“Nossa vitória consistia em não nos deixar abater”

A grande marcha

Iniciamos hoje a série histórica sobre a 1ª Divisão Revolucionária, que empreendeu  sua marcha pelo Brasil em 1924, contra o assalto da oligarquia cafeeira paulista, que submetia o Brasil ao imperialismo inglês e ao atraso. O período de lutas culminou com a Revolução de 1930, que levou Getúlio à presidência, colocando na ordem do dia a reconstrução e o desenvolvimento

SÉRGIO RUBENS DE ARAÚJO TORRES

Durante os 21 meses em que percorreu uma extensão de 25.000 km, através de 10 estados brasileiros, a 1ª Divisão Revolucionária foi duramente combatida pelo governo que mobilizou contra ela um vasto aparato militar composto por forças regulares do Exército, polícias militares de quinze estados, jagunços e cangaceiros.

Tendo ocupado, ao longo da marcha, mais de 500 cidades e vilas, os revolucionários encerraram a campanha, em fevereiro de 1927, cercados por uma aura de invencibilidade e prestígio que feriu de morte o poder da oligarquia cafeeira paulista.

Esta conseguiria manter ainda, por mais alguns anos, o seu domínio sobre a vida nacional. Porém, a nova onda revolucionária que se ergueria  em 1930, sob o comando de Getúlio Vargas, levaria de roldão o velho regime baseado na submissão aos interesses do imperialismo inglês, na política de valorização artificial do café - às custas do empobrecimento dos demais setores da sociedade - e na imposição de um sistema eleitoral notoriamente fraudulento.

A eclosão da primeira rebelião inspirada pelos ideais de voto secreto, ensino público, industrialização, direitos trabalhistas, independência econômica e moralidade administrativa ocorreria no Rio de Janeiro, em 1922.

A segunda onda revolucionária teria início em julho de 1924, quando as guarnições do Exército da capital paulista e parte do contingente da Polícia Militar, com o apoio da população civil, assumiram o controle da cidade. Ainda no mês de julho, as forças revolucionárias tomam Aracaju e Manaus, mas são sufocadas no mês seguinte.

Em São Paulo, após 22 dias de combates que culminaram num, devastador e indiscriminado bombardeio promovido pelos representantes da oligarquia contra a população da cidade, os revolucionários se retiram para o interior. Cruzando o estado, atingem o rio Paraná, de onde seguem para o sul, assumindo, no mês de setembro, o controle da faixa oeste do território paranaense, de Guaíra a Foz do Iguaçu.

A 29 de outubro, revoltam-se as guarnições do Exército das cidades gaúchas de Santo Ângelo, São Luis Gonzaga das Missões, São Borja, Uruguaiana e Alegrete, em ação conjugada com as milícias dos generais maragatos Honório Lemes e Zeca Neto.

Em abril de 1925, as forças revolucionárias gaúchas atingem Foz do Iguaçu, reunindo-se às forças paulistas.

Decidem então constituir a 1ª Divisão Revolucionária e prosseguir a luta cruzando uma faixa do território paraguaio, para atingir o estado do Mato Grosso, iniciando assim a Grande Marcha através dos sertões brasileiros.

Com um efetivo de 1.500 homens, armados de fuzis e revólveres, 600 animais de carga, sela e tração, duas seções de metralhadoras pesadas e uma bateria de artilharia, a 1ª Divisão Revolucionária era comandada pelo general Miguel Costa, sendo formada pelas brigadas Rio Grande e São Paulo. A primeira comandada pelo coronel Luís Carlos Prestes e a segunda pelo tenente-coronel Juarez Távora.

Alguns oficiais revolucionários que participaram da fase anterior da luta emigraram para o Paraguai, entre eles o marechal Isidoro Dias, o general Bernardo Padilha, os tenentes-coronéis Estilac Leal e João Cabanas, o major Felinto Muller, os capitães Gwyer de Azevedo e Ricardo Holl. A maioria, com a saúde abalada, não se encontrava em condições de enfrentar os rigores da nova campanha.

PRIMEIRAS VITÓRIAS

Penetrando em solo paraguaio, a 29 de abril de 1925, o grosso da 1ª Divisão Revolucionária retornou ao Brasil, no dia 1º de maio, após percorrer 125 km, através de uma picada ligando Puerto Adela à fazenda Jacareí, situada na fralda brasileira da serra de Maracaju.

Marchando na vanguarda, o regimento João Alberto, um dos quatro destacamentos que compunha a Brigada Rio Grande, atingiu o estado do Mato Grosso, a 30 de abril, atravessando, na mesma data, o rio Iguatemi, na localidade de Porto Lindo. Poucos dias depois, o batalhão Virgílio dos Santos, da Brigada São Paulo, ocupou Porto Felicidade, e, em seguida, a vila de Campanário, sede da empresa Mate Laranjeira.

O povoamento dos ricos campos do sul mato-grossense tivera seu início com a chegada das forças do maragato Juca Tigre, em 1894. Formara-se, desde então, uma ininterrupta corrente migratória procedente do Rio Grande do Sul.

A farta quantidade de gado, mate e outros recursos ali existentes faziam a felicidade da tropa revolucionária que voltava a sentir-se como peixe dentro d’água.                 

Os combates não tardaram, tendo se iniciado no dia 6 de maio, conforme relato do comandante do 2º Regimento da Brigada Rio Grande, tenente-coronel João Alberto:

“Em Panchita, a meio caminho de Ponta Porã, fui acometido, quando almoçava, por um forte destacamento do Exército - que vinha ao nosso encontro em caminhões. O combate foi duro, mas obtivemos brilhante vitória. Prendemos 20 caminhões e fizemos mais de 100 prisioneiros.

Usando esses caminhões avançamos naquela mesma noite até a ponte do Amambaí que encontramos destruída. O adversário manobrava na defensiva. Passados dois dias... prosseguimos para Ponta Porã”.

A guarnição dessa cidade, situada na fronteira paraguaia, era constituída do 11º Regimento de Cavalaria Independente, reforçado por um batalhão do 3º Regimento de Infantaria, recém-chegado, e por cerca de 100 jagunços do coronel Mário Gonçalves. O efetivo total era de 800 homens. A tropa do governo, no entanto, recebeu  ordens do QG para retirar-se, indo entrincheirar-se em Cabeceira do Apa, encruzilhada de estradas no caminho para Campo Grande - sede da 4ª Região Militar, no estado.

No dia 8, o batalhão Cordeiro de Farias, da Brigada Rio Grande,  ocupou Porto Carlos, na margem do rio Paraná, como flanco-guarda direita, batendo-se com o inimigo durante o dia e a noite de 10 de maio, impedindo que ele avançasse contra o grosso da força insurgente. 

No dia 11, quando o general Miguel Costa e o Estado Maior da 1ª Divisão Revolucionária chegaram a Ponta Porã, os regimentos de João Alberto e Siqueira Campos já haviam deixado a cidade, em perseguição às tropas governistas. Estas haviam recebido reforço procedente de Campo Grande, sob o comando do major Bertoldo Klinger, dispondo de muitas metralhadoras e farta munição.

Em carta datada de 14 de maio, João Alberto relata a Prestes o desenrolar dessa batalha:

“Durante a aproximação fui tiroteado quatro léguas aquém do Apa... Atropelei; e, na madrugada de hoje, ataquei as posições inimigas. Até às 15 horas combati fortemente e a coluna inimiga retirou quase completamente, deixando uma retaguarda de 100 homens de infantaria e 60 de cavalaria. Mas notando que meu fogo estava fraco... a cavalaria inimiga atacou o flanco esquerdo que debandou... forçando-me a recuar meia légua, depois do que consegui opor resistência.

Às 16 horas, chegou o Siqueira que avançou um pelotão, fazendo parar a cavalaria inimiga. Fiz prisioneiro o 1º tenente Sayão que me informou... que a concentração do governo será em Campo Grande onde esperam, a cada momento, 1.000 homens da polícia gaúcha”.

Em marcha na direção de Campo Grande, no dia 19 de maio, o esquadrão de cavalaria do capitão Ari Salgado Freire dispersou uma tropa de jagunços, pouco além da margem esquerda do Rio Dourados.

A 4 de junho, a 1ª Divisão Revolucionária, tendo contornado as forças governistas entrincheiradas em Campo Grande, atingia a localidade de Patrimônio de Jaguari, situada 50 km ao norte daquela cidade.                        

Seguindo na direção nordeste, os revolucionários visavam atingir a cidade de Mineiros, no estado de Goiás. Ao alcançá-la teriam concluído um percurso de 2.000 km em território mato-grossense, dos quais já haviam coberto a metade.

Os canhões da artilharia, que os acompanhavam desde a insurreição na capital paulista, em julho de 1924, haviam sido cuidadosamente ocultos, em terras da fazenda Jacareí, nas proximidades da fronteira paraguaia, no dia 15 de maio. O ritmo veloz que se impunha a marcha impossibilitava o seu transporte.

ASSALTO AO 3º RI 

Na madrugada do dia 1º de maio, antes do amanhecer, enquanto a coluna revolucionária realiza sua penetração no território do Mato Grosso, os capitães Carlos da Costa Leite, Leopoldo Néri da Fonseca e o tenente Jansen de Melo, integrando um grupo de 20 homens, entre militares e civis, tentam tomar de surpresa o 3º Regimento de Infantaria, situado na Praia Vermelha, Rio de Janeiro.

O tenente, há pouco mais de um mês, fugira do Hospital Central do Exército, onde se encontrava detido por haver participado da Revolução de 1922. Costa Leite, Leopoldo Néri e outros oficiais também haviam escapado do presídio militar da Ilha Grande.

Conforme o plano dos revoltosos, depois de dominado o 3º RI, seriam tomadas de assalto as  fortalezas de São João e Copacabana. Em seguida, um destacamento marcharia ao palácio do Catete, para prender o presidente da República. O vice-presidente Estácio Coimbra seria detido na praça José de Alencar por um comando liderado pelo deputado gaúcho Batista Luzardo.

O plano, porém, fracassa. Apesar dos atacantes terem conseguido penetrar no quartel, a guarda, comandada pelo capitão Aquino Correia, reage. O tenente Jansen, ferido mortalmente, é resgatado por seus companheiros, que se retiram em meio a cerrado tiroteio. Eles transportam também, para a Casa de Saúde Pedro Ernesto, o cabo Cecílio, outro revolucionário ferido no confronto.

O tenente Jansen de Melo, com hemorragia intensa, morre antes de receber os primeiros socorros.

O cabo Cecílio, depois de medicado, é transferido para o Hospital Central do Exército. Para lá também fora removido o capitão Aquino Correia, cuja reação frustrara o levante.                     

O único revolucionário preso não fornece à polícia informações sobre a rede que planificara e realizara o assalto. Os deputados Batista Luzardo, Adolfo Bergamini e Azevedo Lima retomam normalmente suas atividade parlamentares. O médico Pedro Ernesto, outro civil que participara do levante, também prossegue em liberdade.

No dia 18 de julho, o capitão Costa Leite participa de novo embate com as forças do governo, rompendo a tiros um cerco, no bairro do Riachuelo. O alvo era a residência do capitão Cristóvão Barcelos, na rua Flack, onde ambos estavam reunidos com o estudante de engenharia João Beckeuser. Os três escaparam ilesos.

A ação conspirativa na capital da República não daria descanso a Artur Bernardes, até o último dia de sua permanência no palácio das Águias. Anos mais tarde, ele desabafaria:

“Como presidente da República não fui mais que um chefe de Polícia”.

 

A reestruturação da 1ª Divisão Revolucionária, feita por iniciativa do general Miguel Costa, para integrar as tropas gaúchas e paulistas, dotou-a de maior mobilidade e unidade de comando, e vigorou até o final da Grande Marcha, em 1927

 

No dia 10 de junho, as duas brigadas que compunham a 1ª Divisão Revolucionária se reuniram na fazenda Cilada, nas proximidades da cidade de Camapuã, para reorganizar-se.

O comandante da Brigada São Paulo, tenente-coronel Juarez Távora, revela em suas Memórias que:

“Enquanto grande parte da Brigada Rio Grande estava montada, a quase totalidade da Brigada São Paulo se deslocava a pé, e, por isso mesmo, tinha dificuldade de afastar-se do itinerário da marcha, para potrear animais de sela, nas estâncias circunvizinhas de seu itinerário de marcha”.

Por iniciativa do general Miguel Costa, foi apresentado aos comandantes das duas unidades e aos chefes de seus respectivos destacamentos um plano para a reestruturação da Divisão. O objetivo principal era promover a integração entre as tropas gaúchas e paulistas, de modo a superar as contradições que começavam a despertar animosidade entre elementos das duas brigadas.

Foi decidida então a dissolução dessas forças e a constituição de quatro destacamentos, cada um deles composto por soldados paulistas e gaúchos.

De acordo com a nova organização, que vigorou até o final da Grande Marcha, Prestes e Juarez Távora tornaram-se respectivamente chefe e subchefe do Estado-Maior da 1ª Divisão Revolucionária, permanecendo como seu comandante o general Miguel Costa.

Para o comando do 1º, 2º, 3º e 4º destacamentos foram designados os tenentes-coronéis Cordeiro de Farias, João Alberto, Siqueira Campos e Djalma Dutra.

Além de resolver o problema que lhe dera origem, a reorganização da 1ª Divisão Revolucionária dotou-a de maior mobilidade e unidade de comando. A critério deste, os destacamentos revezavam-se nas funções de vanguarda, retaguarda e flanco-guarda, durante a marcha. Sempre protegido, o QG, apenas por uma vez, viveu situação de sério risco, em toda a campanha.

Cada destacamento tinha freqüentemente um conhecimento detalhado das condições do terreno e das posições do adversário, num raio de vários quilômetros, em virtude da ação incansável de seus potreadores.

Criadas inicialmente com o objetivo de cumprir um papel meramente logístico, na captura de animais de montaria, as potreadas logo se transformaram em importantes instrumentos de luta.

Dotados de grande mobilidade, os pequenos grupos de 10 a 15 cavaleiros se afastavam 20 a 30 km de seus destacamentos, durante vários dias, vasculhado a região, arrebanhando o gado, realizando missões de reconhecimento e fustigando o inimigo, onde ele menos esperava.

Retomando a marcha em direção à fronteira goiana, e tendo vencido todos os combates que tomara a iniciativa de travar, a coluna revolucionária mantinha as forcas governistas em situação de defensiva.

A imprensa, porém, controlada pelo governo, desdobrava-se na apresentação das mais fantasiosas versões dos acontecimentos, a exemplo da nota publicada no jornal carioca A  Notícia, no dia 18 de junho:

“Acossados por todos os lados... os rebeldes completamente desanimados, sem armas e sem munição, continuam a fugir das forças legais, evitando sempre entrar em combate... As tropas federais continuam galhardamente a perseguir de perto os bandoleiros, não lhes dando trégua e desbaratando-os totalmente, a fim de livrar o território nacional da permanência desses impertinentes e desmoralizados inimigos da ordem”. 

AS MISSIVAS DE KLINGER 

Transportadas em caminhões, as tropas do major Klinger se deslocaram de Campo Grande, ultrapassando a 1ª Divisão Revolucionária e atingindo a localidade de Baús, nos limites da fronteira goiana.

Dispondo suas forças de modo a barrar a progressão da coluna, na ponte da Capela, sobre o rio Sucuriú,  o chefe do estado-maior das tropas governistas buscava virar o jogo que até então lhe fora desfavorável.

A ofensiva revolucionária contra essas defesas foi empreendida por três destacamentos: 1º, 3º, e 4º.                    No dia 19 de junho, Cordeiro de Farias atacou as forcas oponentes na ponte da Capela. Klinger repeliu o ataque, mas não conseguindo contato com a sua retaguarda, interceptada pelo destacamento Djalma Dutra, tentou com duas investidas romper, pelo norte, o cerco que o constrangia. Foi, porém, rechaçado pelas forças de Siqueira Campos, que então contra-atacaram, tomando-lhe parte do acampamento - situado na margem direita do arroio Dois Córregos.      

O major Klinger estava virtualmente sitiado.

Visando poupar homens e munições, o QG ordenou o levantamento do cerco, na madrugada do dia 21, deixando Siqueira Campos ocupado em fixar o inimigo. E passou para Goiás, atingindo a localidade de Mineiros, no dia 26. A travessia do território mato-grossense durara 53 dias.

A 29 de junho, às 11h, a 1ª Divisão Revolucionária acampou na invernada Zeca Lopes. Pouco tempo depois, o general Miguel Costa recebia um emissário que trazia uma carta do major Klinger:

“Meus camaradas,

Acho-me muito próximo de vós, dispondo de recurso de velocidade e de fogo, bem como de uma tropa excelente. Esta tem sobretudo vontade decidida e grande superioridade moral. Não desejo empregar esses meios de força contra patrícios, sem tentar antes, mais uma vez, a cessação pacífica da luta pelas armas. Por que não vos entregueis à minha discrição confiantes de que tereis o máximo de concessões possíveis, militarmente?...

Saudações do camarada,

Major Bertoldo Klinger”

Não era a primeira carta que Bertoldo Klinger enviava a seus antigos parceiros de conspiração. No dia 19 de maio, vazada no mesmo tom melífluo, porém transbordante de arrogância, a carta do major Klinger dizia:

“Meus destemidos camaradas,

Apresento-lhes meus cumprimentos com o propósito de convidá-los a pôr termo à inglória luta pelas armas. O destacamento onde sirvo está, só ele, com um efetivo equivalente ao total dos vossos combatentes. Já vos rodeiam outros destacamentos e continua crescendo o efetivo das tropas fiéis ao governo, que de toda a parte vem chegando...

Se não for pois uma completa subversão da lógica dos fatos, não mais podeis pretender êxito para vossa causa...”.

Miguel Costa que conhecia bem os prejuízos que a pusilanimidade de Klinger haviam causado ao levante de 1924, pôs-se imediatamente a responder a carta. O resultado foi arrasador:

Invernada Zeca Lopes, 30 de junho de 1925

Sr. Bertoldo Klinger,

A história julgará amanhã, talvez, a sinceridade das propostas que nos tendes enviado.

Ex-companheiro de ideal revolucionário, vós não deveis procurar nunca injuriar com as vossas fraquezas a fé inquebrantável dos que não abjuraram as suas crenças.

Se quereis merecer daqueles que justamente vos julgam traidor algum sentimento de respeito, não os incomodeis mais com as vossas cartas tão cheias de orgulho por comandardes valentes esbirros de Bernardes.

Estamos contentes com os nossos soldados. Também eles não quiseram essas pomposas garantias que os vossos policiais de Minas lhes ofereceram.

A maldição pelo sangue derramado cairá um dia na consciência dos traidores.

Miguel Costa

Comandante dos homens de brio”

A resposta por certo não foi apreciada pelo chefe das tropas governistas que desferiu violento ataque contra as forças revolucionárias, contido pelos destacamentos João Alberto e Siqueira Campos, na entrada da invernada.

O próximo confronto de vulto só ocorreria no dia 24 de julho, já nas proximidades da cidade de Anápolis, ponto terminal da estrada de ferro que ligava Goiás a Minas e São Paulo.

O tenente-coronel João Alberto fez a seguinte descrição do combate:

“Simulando um ataque frontal a Anápolis, a Coluna forçou os governistas à defensiva... Assumindo a vanguarda, enquanto Siqueira e o Cordeiro de Farias cobriam o lado direito, achei-me em certo momento no flanco de uma das colunas legalistas. Temendo um ataque, o adversário retirou-se apressadamente em caminhões para a cidade...   

Avançamos de revólver em punho aos gritos de carga, enquanto o adversário fugia, atirando contra nós de cima dos caminhões. A estrada arenosa e cheia de buracos não lhe permitia velocidade...

Confirmando a regra geral das cargas de cavalaria que nos ensina que quase sempre um dos adversários cede terreno e foge, a tropa adversária abandonou os caminhões e, atirando o armamento para o chão, fugiu a pé pelo cerrado na direção da cidade”.

Depois dessa derrota as forças de Bertoldo Klinger não deram mais trabalho à 1ª Divisão Revolucionária.

Amante das missivas, o major escreveria ao ministro da Guerra, general Setembrino de Carvalho:

“O esmagamento é pura teoria.  A questão não tem solução pela força: importa corajosamente resolvê-la por via política com um ato radical de ampla volta à paz”. 

SOPINHA DE ARROZ 

A travessia do território goiano durou 51 dias, sendo concluída a 10 de agosto. Desenvolvera-se na direção sudoeste-nordeste, até a região de Formosa, na altura do paralelo 15º, de onde infletira para leste, buscando as cabeceiras do rio Urucuia, em Minas Gerais.

Entre 10 de agosto e 5 de setembro, a Divisão Revolucionária fez uma incursão diversionista pelo noroeste de Minas e sudoeste da Bahia, percorrendo, em 26 dias, cerca de 600 km, enfrentando apenas dois pequenos combates sustentados pelo destacamento João Alberto contra um batalhão da Polícia Militar baiana, dentro de São Romão, e logo à sua jusante, à margem do rio São Francisco. 

Atravessando uma região pobre e pouco povoada, a 1ª Divisão Revolucionária teve de suportar um dos piores períodos de subsistência, devido à falta de agricultura e de criação de qualquer espécie.

O tenente-coronel Juarez Távora assinala em suas Memórias:

“Na última etapa do nosso percurso em território baiano, bivacamos, tarde alta, às margens do rio Formoso, sem ter tido oportunidade de ingerir qualquer alimento substancial. E as potreadas lançadas pelo Destacamento Siqueira Campos, com o qual então me deslocava, foram chegando, uma após outra, sem qualquer notícia de bois... O cozinheiro de Siqueira, uma hora depois de bivacarmos, trouxe-nos, para consolar-nos, o que chamou de uma ‘sopinha de arroz’. Mas, na verdade, era uma panela de água salgada, com meia dúzia de caroços de arroz, no fundo... Siqueira olhou-a de soslaio; e, desacreditando o pretendido milagre da multiplicação dos grãos de arroz, tentado por seu ‘mestre-cuca’, disse-lhe, com a moca costumeira de seus olhos de gato:

- Água por água, prefiro a água fresca do rio.

E despejando o prato de sopa na panela, foi, calmamente beber a água fresca do Formoso...

Eu, com a humildade de sertanejo cearense, enfrentei a água quente... Ao encerrar essa excursão, já sentíamos saudade da abundância de recursos a que nos habituáramos, marchando pelo sul de Goiás.         

Tratamos por isso de regressar, o mais rapidamente possível, ao território goiano”.                                              

PLANO DE CAMPANHA 

Alcançada a Vila de Posse, em Goiás, o plano de campanha era percorrer 1.100 km, em direção ao norte, para penetrar no Maranhão, estado onde os revolucionários possuíam ligações que poderiam abrir novos horizontes para a luta.

O Maranhão seria a porta de entrada para o Nordeste e a Bahia. O Estado-Maior considerava essas regiões como as mais favoráveis para um acúmulo de forças que lhe permitisse ameaçar Minas e a capital da República ou, na pior das hipóteses, prolongar a guerra de movimento pelo tempo que julgasse necessário.

Segundo relato do secretário do Estado-Maior da 1ª Divisão Revolucionária, capitão Lourenço Moreira Lima, no início do mês de julho os revolucionários tinham enviado um emissário ao marechal Isidoro, no Paraguai, solicitando a remessa de armas e munições, que “deveriam ser colocadas em qualquer ponto do Nordeste ou Bahia, confiadas aos nossos amigos, ali, a fim de nos serem entregues”.

De Posse, Miguel Costa, Prestes e Juarez escreveram ao deputado Batista Luzardo, no dia 14 de setembro:

“Apesar das asperezas da campanha, força é confessar que ela tem se abrandado nos últimos tempos graças à completa liberdade de ação que nos permitem as forças governistas... A eficiência dos nossos adversários se torna cada vez menos sensível. Dir-se-ia que essas forças adivinham sempre onde não estamos e para aí marcham.

Não é absurdo que prevejamos a possibilidade de prolongar indefinidamente a atividade da campanha.

Sem julgarmo-nos fortes, ousamos confessar que, por meio de exclusiva violência, será difícil ao governo submeter-nos...

Autorizamos Vossa Excelência a declarar ao país, da sua tribuna de legítimo representante do povo, que somos francos e sinceros partidários da paz...

Nada pedimos para que ela seja estabelecida, que não se justifique como um preceito de liberdade.

Como limite mínimo de nossas aspirações liberais, incluímos a revogação da lei de imprensa e a adoção do voto secreto.

Com tais medidas, uma natural anistia e imprescindível suspensão do estado de sítio, talvez seja possível ao governo trazer ao Brasil a paz e a tranqüilidade de que tanto necessita.

Eis as bases em que se poderia apoiar uma paz grata para nós, honrosa para o governo e proveitosa para o país”.

 

A 1ª Divisão Revolucionária atravessa o norte de Goiás (atualmente, Tocantins) e entra no Nordeste combatendo: o cerco de Teresina

 

A travessia do norte de Goiás durou 68 dias, ao longo dos quais a 1ª Divisão Revolucionária ocupou doze vilas e cidades, transpondo oito rios, afluentes ou subafluentes do Tocantins.

A ausência de combates estimulava Siqueira Campos a superar-se na arte de pregar peças nos companheiros. Algumas delas eram bastante trabalhosas, conforme revela Juarez Távora, em suas Memórias, ao mencionar um episódio ocorrido, no dia 22 de setembro, na cidade de Arraias, importante centro de mineração de ouro, nos tempos coloniais:

“Siqueira, com a ajuda de outro oficial, escrevera num papel bem amarelado e gasto (obtido, não sabia onde nem quando) uma espécie de roteiro indicando a existência, no subsolo da igreja, de um tesouro... A perversidade maior estava em haver no papel do roteiro dois buracos, como se fossem artes da traça, exatamente nos lugares onde deviam estar declarados os números de braças marcando o local e a profundidade em que devia ser encontrado o tesouro.... Esse documento fora meticulosamente metido numa das rachaduras existentes na parede frontal da igreja, de jeito a despertar a curiosidade de quem olhasse para o local”.

De Arraias, o QG da Divisão seguiu para Natividade, enquanto duas flanco-guardas eram lançadas sobre Palmas e Santa Maria de Taguatinga. 

CHUVA DE MANGA 

A 29 de setembro, o destacamento Siqueira Campos, que marchava como flanco-guarda direita, bateu-se com uma força da Polícia Militar goiana, na vila de Taguatinga, onde a mesma se entrincheirou, desistindo de prosseguir o seu avanço em direção ao grosso da coluna. Foi esse o único confronto ocorrido, durante toda a campanha no norte de Goiás.

A outra flanco-guarda, depois de atravessar o rio Palmas, chegou à localidade Chuva de Manga onde o capitão Moreira Lima tomou ciência de extraordinárias ocorrências que assim passou a relatar:

“Acampamos... num bosque de mangueiras colossais, junto à casa de moradia de dois pretos velhos que ali viviam. Eram pai e filho. Um, de 85 anos, inteiramente calvo, e o outro, de 60, ostentando farto cavanhaque todo branco...

Esses pretos ficaram escandalizados quando Cordeiro de Farias lhes perguntou pelas canoas, porque lhes haviam dito que atravessávamos os rios sem nos utilizarmos de embarcações, por conduzirmos um ‘apareio de mangaba’ que estendíamos sobre as águas passando por ‘riba deles’, bem como uma ‘rede de apanhar homens e cavalos’, rede que ‘não havia vivente que lhe escapasse’...

Como essa, muitas outras lendas se formaram a nosso respeito... só comíamos as partes dianteiras  do gado para andarmos mais depressa... Prestes ‘adivinhava’, razão porque não podíamos ser batidos, pela forças do ‘gunverno’...

Em Chuva de Manga os pretos nos contaram coisas espantosas do rio Palmas. Disseram-nos que havia neles peixes colossais, feras monstruosas que atacavam as criaturas até fora do rio, salientando-se pela sua audácia o ‘Negro D’Água’, um ‘bicho feroz’ que saltava em terra, ereto como um gigante e as perseguia, arrastando-as para o fundo d’água; e ... um ‘horrendo terém’, que o preto de cavanhaque me afirmou ter visto uma noite, quando se achava trepado num ‘pé de arvore’ , de tocaia às antas, e tão horrendo era que ele não se animara a lhe atirar e começou a tremer de medo, apesar de ser acostumado a ‘topar onça’; e estava certo de ter sido salvo por haver chamado por Nossa Senhora”.

Coincidências a parte o capitão Moreira Lima conclui assim a sua narrativa:

“Tendo sido arranjadas algumas canoas, foi iniciada a travessia do rio Palmas, passando a cavalhada a nado.

Aí perdemos um soldado, que desapareceu de repente, quando tomava banho perto da margem, com água pouco acima da cintura, certamente arrebatado por algum peixe.

Houve um momento de grande ansiedade, quando atravessava a canoa dirigida pelo preto de cavanhaque, que pilotava em pé.

A embarcação caiu numa grande corredeira e começou a meter água por um dos bordos.

Os soldados que ela conduzia não sabiam nadar e se amedrontaram... O preto remava corajosamente, gritando em altas vozes:

- Com a ajuda de Nossa Senhora, nos havemos de chegá. Valei-me Nossa Senhora da Conceição!

A canoa encostou, afinal, à outra margem, sem que se registrasse a desgraça que se avizinhava”.

Muitas histórias fantásticas brotavam daqueles rincões. O morro do Moleque, na serra de São Domingos, era povoado por assombrações que se manifestavam a noite: frades sem cabeça, montados em esqueletos de cavalos imensos, cobras enormes com olhos de fogo, isso quando não aparecia o próprio demo, no alto do morro, cavalgando um gigantesco porco-espinho, cujos grunhidos podiam ser ouvidos a mais de 100 léguas de distância.

Também a Coluna já deitara suas raízes naquele imaginário. 

SOBRE AS REQUISIÇÕES 

O grosso da Divisão descansou em Palmas, durante cinco dias, a espera da reincorporação das  flanco-guardas, seguindo a 12 de outubro para Porto Nacional, na margem direita do Tocantins, onde acantonou, durante oito dias.

A travessia do norte de Goiás prosseguia, sem maiores surpresas.

O único incidente grave fora de caráter interno - uma conspiração chefiada pelo major Aldo Geri, membro do Estado Maior, ex-comandante do batalhão italiano formado durante a insurreição paulista, em julho de 1924. O objetivo era atacar o QG, liquidar seus integrantes, assaltar as finanças da caixa de guerra e fugir para a Bolívia. Detectado o plano, antes que ele fosse posto em prática, foram expulsos o major Geri, o tenente Morgado e dois ex-oficiais que meses antes haviam sido rebaixados por mau comportamento, além de alguns soldados.

Em todas as vilas e cidades goianas pelas quais passavam, os revolucionários destruíam sistematicamente os troncos e gargalheiras, que povoavam as cadeias, bem como as palmatórias, abundantes também nas escolas.

Em Porto Nacional, o povo acorreu curioso para ver a princesa Isabel que, conforme se espalhara, acompanhava a marcha da 1ª Divisão Revolucionária. As cinqüenta vivandeiras que seguiam com a coluna e a destruição dos antigos instrumentos de tortura, da época da escravidão, davam asas à imaginação sertaneja.

O QG da Divisão ficou hospedado no Convento dos Dominicanos, a convite de Frei José Maria Audrin, que substituía o prelado Dom Domingos Carrerot, então em visita apostólica no Araguaia.

A única fotografia, na qual todos os chefes da 1ª Divisão Revolucionária aparecem juntos, foi tirada pelo próprio frei Audrin, em Porto Nacional.

Deveras atencioso e hospitaleiro, o frei considerou, no entanto, de bom tom formalizar por escrito ao general Miguel Costa uma proposta de intermediar junto ao governo federal um acordo de paz. A proposta vinha precedida de um veemente protesto contra as requisições, através das quais as forças revolucionárias se abasteciam durante a marcha.

O documento, datado de 21 de outubro, dizia:

“Ilmo Sr. General Miguel Costa

A passagem da coluna revolucionária através dos nossos sertões e por nossa cidade tem sido um lamentável desastre que ficará, por alguns anos, irreparável. Em poucos dias, nosso povo, na maioria pobre, viu-se reduzido a quase completa miséria.

... Se é grato dever para nós reconhecermos a elevada disciplina que tem reinado na Coluna, quanto ao respeito aos lares e ao cuidado extremo do Estado-Maior e comandos de corpos em prevenir e castigar severamente qualquer ofensa à moralidade e ao sossego do povo - se acreditamos que os danos materiais sofridos pela população em gado e animais, longe de serem motivados pelo instinto do roubo, são apenas uma imposição vexatória mas fatal das duras necessidades da guerra, sentimo-nos não obstante forçados a deplorar tais prejuízos e levar contra eles perante Vossa Excelência o nosso protesto...

E o mesmo sentimento de caridade cristã que nos tem obrigado a lamentar as misérias do nosso povo, excita-nos a procurar um meio de contribuir para a conclusão de tantas angústias...”.

Miguel Costa poderia ter lembrado ao missionário que a pobreza secular do povo daquelas regiões tinha causas que os revolucionários corajosamente empenhavam-se em erradicar, ao contrário de certas almas piedosas que pouco faziam para alterar aquele estado de coisas.

Porém, mais útil, naquele momento, era fortalecer a disposição de frei Audrin de bater-se pela abertura de negociações de paz, e reiterar a lisura que presidia o processo de requisições.

A resposta, assinada por Miguel Costa, Prestes e Juarez, dizia:

Não ignoramos nenhuma das vicissitudes deploráveis que constituem o séqüito sombrio da guerra civil.

Bem medimos a penúria em que fica a debater-se a população menos abastada das regiões sertanejas por onde transitamos...

Afiançamo-lhe, entretanto, que só temos retirado ao patrimônio do povo aquilo que é indispensável à satisfação das necessidades imprescindíveis da tropa. E se não indenizamos ao particular os prejuízos que lhe causamos é porque - ao contrário do que a má-fé de alguns tem propalado - transitamos na revolução tão pobres como quando para ela entramos.

De qualquer forma, porém, temos assegurado, indistintamente, a amigos e adversários, por meio de um documento idôneo, o recurso de reaver, mais tarde, pelos trâmites legais, a importância total dos bens de que houverem sido despojados”.

Um dispositivo da Constituição e do Código Civil obrigava a União a indenizar os prejuízos causados pela ação das forças revolucionárias. Ainda que o governo quase sempre o desconsiderasse, nunca era demais lembrar a sua existência.               

CERCO DE TERESINA 

Cruzando o rio Manoel Alves Grande, a 1ª Divisão Revolucionária penetrou em território maranhense, no dia 13 de novembro.

O 1º Destacamento rumou para Carolina, como flanco-guarda esquerda da Divisão, devendo cobri-la contra incursões de tropas vindas do Pará pelo rio Tocantins, enquanto o grosso avançou até São Raimundo das Mangabeiras, passando por Balsas.

Acolhido com comício e banda de música, pela população de Carolina, o 1º Destacamento permaneceu até o dia 23 naquela cidade, onde aproveitou para imprimir a oitava edição do jornal O Libertador, alcançando a Divisão, em Mangabeiras, a 29 de novembro.

No dia anterior, o destacamento João Alberto destacara-se do grosso, seguindo a noroeste para Grajaú, com o objetivo de libertar o major Paulo Kruger, membro do Estado Maior, que havia sido preso nas proximidades daquela cidade, quando viajava em missão de estabelecer contatos com chefes políticos oposicionistas do estado.

A 3 de dezembro, o comando revolucionário deu início a uma manobra de envolvimento da forte concentração de tropas governistas estacionadas na região de Benedito Lima e Uruçui, cidades respectivamente situadas nas margens maranhense e piauiense do rio Parnaíba.

Lançando o destacamento Djalma Dutra como flanco-guarda direita, em direção às forças governistas, a Divisão marchou para Mirador, com o objetivo de atingir Nova Iorque, no Rio Parnaíba, vários quilômetros abaixo de Benedito Lima e Uruçui, a fim de cortar a comunicação fluvial e telegráfica entre Teresina e aquela força de 1.500 homens que guarnecia o sul dos dois estados.

Na manhã do dia 7, uma patrulha do destacamento Dutra atacou um posto avançado e ao escurecer tiroteou as primeiras posições do adversário, retirando-se em seguida. Este, fortemente entrincheirado, prorrompeu em fogo maciço, durante toda a noite, contra um inimigo que já se encontrava a léguas de distância, tendo se retirado precipitadamente, a pé, a cavalo, em vapores, canoas e balsas, na direção de Teresina, ao raiar do dia.

Dutra, mal acreditando no que via, perseguiu-os até Nova Iorque, por onde a força governista passou aceleradamente, antes que o grosso da 1ª Divisão Revolucionária, em Mirador, pudesse agir.

Impressionado, o capitão Moreira Lima registrou, em seu diário de campanha:                 

“... os prisioneiros que fizemos... diziam ter sabido que não podíamos ser batidos porque conduzíamos uma preta feiticeira, chamada tia Maria, que dançava nua diante das ‘metraiadeiras’, ao som de um flautim... para ‘fechar o corpo’  dos nossos homens às balas dos inimigos”.

No dia 9 de dezembro, João Alberto chega a Mirador. Não conseguira libertar Kruger, porque o governo já havia transferido o prisioneiro - de Grajaú, para São Luís.

Acompanhavam o 2º Destacamento 200 homens comandados por Manoel Bernardino, fazendeiro da Zona da Mata, e 50 liderados por Euclides Neiva, todos armados e municiados.

Conta o capitão Lourenço Moreira Lima:

“Manuel Bernardino era cearense. Homem inteligente e entusiasta, exercia grande influência no povo... Chamavam-no o Lenine da Mata, porque era o defensor dos direitos dos fracos e oprimidos”.

Em sua fuga, as forças governistas de Uruçui se entrincheiraram em Floriano, somando-se à guarnição daquela cidade. O QG ordenou o assalto imediato da posição pelo 2º Destacamento e o 4º, que transpuseram o Parnaíba. Ao mesmo tempo o 1º e as tropas de Manoel Bernardino deviam atacar a vila de Barão de Grajaú, situada na margem maranhense do rio, enquanto o 3º cortaria mais abaixo as comunicações entre as duas localidades e Teresina.

Empreendendo novo recuo, a força governista sofreu pesadas baixas ao ser atacada por Siqueira Campos que estava à sua espera em Queimados e Araçás.

Uma ampla faixa dos territórios do Maranhão e Piauí, desde os altos sertões, às cercanias de Teresina, passou às mãos dos revolucionários.

No dia 18 de dezembro, o QG ocupou Barão de Grajaú e Floriano. Daí partiu o Esquadrão Ari Freire, do 4º Destacamento, na direção leste, a fim de se apoderar das cidades piauienses de Oeiras e Picos, devendo observar a coluna inimiga do coronel Almada que avançara de Remanso, na Bahia, em direção a Vitória, no alto Parnaíba.

Os destacamentos João Alberto e Dutra seguiram pela margem direita do Parnaíba, para Teresina, sob comando de Juarez Távora, enquanto os destacamentos Cordeiro de Farias e Siqueira Campos, sob o comando de Prestes, marchavam pela margem maranhense do rio para atacar a contígua cidade de Flores.

A 26, a 1ª Divisão Revolucionária instalava o seu QG em Amarante.

Teresina e Flores eram guarnecidas por um efetivo de 3.000 homens do Exército, Polícias Militares e Marinha, navios de guerra e artilharia, sob comando geral do coronel Gustavo Bentemuller.

As incursões das forças revolucionárias sobre as trincheiras dessas cidades só teriam início no dia 28.

No entanto, desde o dia 23, sobressaltadas, as forças governistas atiravam a esmo, conforme assinala João Alberto, com fina ironia, em bilhete enviado a Juarez Távora:

“De ontem para hoje repetiu-se o mesmo tiroteio forte em Teresina e foi ouvido daqui do meu acampamento. Decididamente estão gastando toda a nossa munição”.

Na manhã do dia 27, ao embarcar de Floriano para Amarante, o capitão Moreira Lima foi contatado pelo capitão Waldemar de Paula Lima e o jornalista pernambucano Josias Carneiro Leão. Procedentes do Recife, eles eram portadores de uma correspondência do tenente Cleto Campelo. Cleto tencionava apoderar-se daquela cidade, e destacara os tenentes Lourival Seroa da Mota e Aristóteles de Sousa Dantas para apossarem-se da capital da Paraíba.

 

No Nordeste, os combates prosseguem com táticas bem sucedidas dos revolucionários, combates sangrentos e a prisão de Juarez Távora

 

Em Teresina a confusão reinante era agravada pelos desentendimentos entre o governador Matias Olímpio e o comando das forças militares. Na madrugada de 26 de dezembro, um levante no 25º Batalhão de Caçadores, que poderia ter sido fatal aos ocupantes daquela cidade, foi debelado.

Na madrugada do dia 28, as forças revolucionárias começam a testar as defesas adversárias, mantendo a pressão durante três dias seguidos. Numa das investidas, o pelotão comandado pelo capitão Filó, do 4º Destacamento, conseguiu romper as linhas inimigas, penetrando em Teresina. Porém, refeitas da desordem inicial, que as acometera desde o recontro em Benedito Leite, as forças governistas conseguiram se estabilizar, passando a tirar proveito de sua superioridade numérica e maior poder de fogo.

O comando revolucionário ordenou então a suspensão do cerco e a retomada da marcha em direção ao Ceará.       

Em suas Memórias, Juarez Távora revela que o Estado-Maior contava com essa possibilidade, desde o momento em que planejara a ofensiva:

“Ficou estabelecido que antes de decidir-se um ataque em força àqueles dois redutos governistas, seriam feitas cautelosas explorações ofensivas sobre cada um deles, para melhor avaliar a organização defensiva em seu conjunto.

Essas explorações foram realizadas simultaneamente sobre Flores e Teresina, durante as madrugadas de 28, 29 e 30 de dezembro, chegando-se à conclusão de que não seria compensador para as forças revolucionárias o ataque projetado...”.

A retirada, inclusive a transposição do Parnaíba pelas forças revolucionárias que se encontravam na margem maranhense, se realizou no dia 31 de dezembro.

As tropas governistas custaram a perceber a manobra, que se efetuou sem maiores percalços, salvo o que passa, agora, a ser relatado pelo tenente-coronel João Alberto:

“Infelizmente, no dia exato em que me cumpria partir na vanguarda para transpor a serra de Ibiapaba - acidente geográfico que limita o estado do Piauí com o do Ceará - Juarez foi feito prisioneiro. Cometera a imprudência de tentar, apenas com alguns homens, um reconhecimento às posições adversárias. Atacado pelo inimigo, julgou poder escapar com a sua montada, na qual transportava arquivos e documentos. Tiveram mais sorte os homens que o acompanhavam: cortaram o mato e alcançaram o acampamento. Que desastre!”.

Juarez considerou-se vítima de “uma infeliz coincidência”. Ao relato de João Alberto acrescenta que estava acompanhado apenas de seu ordenança e um oficial da guarda de Caieiras, e que se deslocava pela margem direita do Parnaíba, na direção de Teresina, em busca de um local apropriado para armar emboscada a uma lancha governista.

Imprudência ou coincidência, o fato é que não havia tempo para se chorar o leite derramado. E o coronel Távora, logo encontrou um modo de retirar da derrota sofrida o primeiro resultado positivo:

“Teresina, 1º de janeiro de 1926

Prestes,

Aqui estou desde ontem pela manhã, como prisioneiro. Recebendo logo após a minha chegada uma honrosa visita de sua Excelência o bispo Dom Severino Vieira de Melo, abordou-se, em palestra, a idéia de um entendimento para evitar, se possível, o transe amargo que ameaça a população indefesa de Teresina.

Contrariando, embora, o meu interesse pessoal, naturalmente propenso a anelar por uma tentativa de libertação, eu prefiro abdicar dessa satisfação em benefício do povo desse recanto do meu país...”.

Em sua resposta, Prestes repica o blefe, dando seqüência à operação de contra-informação deflagrada por Juarez. A carta foi entregue por ele, pessoalmente, ao bispo de Teresina:             “’Acantonamento da Vila Natal, 4 de janeiro de 1926.

Meu caro Távora,

Tendo consultado o general Miguel Costa e os comandantes de destacamento a respeito do teu pedido, resolvemos suspender o ataque a Teresina, até que tenhas outro entendimento com o comandante dessa praça, coronel Bentemuller, desde que ele se mantenha, como prometeu, dentro de suas posições atuais, e não procure perturbar a tranqüilidade das regiões que estamos dominando no estado, regiões essas que, como sabes, abrangem a quase totalidade do seu território.

Percebemos que com essa nossa primeira concessão os nossos adversários ficarão, dia a dia, mais fortes; mas tudo sacrificamos pela tranqüilidade da família teresinense, certo de que igualmente por esta tranqüilidade o governo não se oporá à tua liberdade e volta ao nosso meio.”

O governo não libertou Távora, mas a 1ª Divisão Revolucionária só foi incomodada pelo adversário a partir de 14 de janeiro, depois de haver deixado a cidade de Valença, a mais de 200 km de Teresina. Uma semana depois cruzava a fronteira do Ceará.

720 km haviam sido percorridos em território maranhense e piauiense. Maior inimigo: a malária - contraída por cerca de 400 homens nas margens do Parnaíba. Parte dos feridos e doentes ficaram pelo caminho a convite dos moradores. Voluntários preenchiam os claros, mantendo os efetivos da força combatente em torno de 1.200 homens.

Os revolucionários procuravam não avançar muito além desse patamar, em razão das dificuldades que isso acarretaria ao abastecimento da tropa. 

No dia 20 de janeiro, Miguel Costa promovera Siqueira Campos e João Alberto ao posto de coronel e Prestes a general.           

JAGUNÇOS E CANGACEIROS 

O governo concentrara forças no Ceará. Além das tropas do Exército e Polícia Militar, armara milhares de jagunços e cangaceiros, arrebanhados por Floro Bartolomeu e Pedro Silvino, na zona do Cariri.

O doutor Floro e o latifundiário Silvino haviam se tornado poderosos e temidos, anos antes, explorando os supostos milagres do padre Cícero Romão, em Juazeiro do Norte. No ano de 1914, com o apoio do padre, eles mobilizaram milhares de romeiros para marchar sobre Fortaleza e derrubar o governador Franco Rabelo, que se desentendera com o governo federal.

Em 1926, Floro Bartolomeu ocupava uma cadeira de deputado, na capital da República. O padre Cícero recusara-se a atender a convocação do presidente Artur Bernardes para incorporar-se à cruzada contra a 1ª Divisão Revolucionária. Este recorreu então ao doutor Floro.

O capitão Moreira Lima conta que:

“Floro fechou o negócio, recebeu mil contos de réis, armas e munições e partiu para o Ceará, onde reuniu o cangaço, contra a vontade do padre que, já passando dos 80 anos de idade, não teve energia para se opor a isso”.

Nem mesmo Virgulino Ferreira, o famoso Lampião, cuja base de operações era distante do Cariri, deixou de comparecer a Juazeiro, acompanhado de 40 cabras, para receber os armamentos, dinheiro e uniformes idênticos aos do Exército - a única diferença era o distintivo sobre o dólmã, com as letras BPJ, Batalhão Patriótico de Juazeiro. Floro também brindou-o com a patente de capitão. Lampião ficou muito envaidecido, até descobrir que a patente era falsa. As armas eram verdadeiras, mas ele não as empregou contra as forças revolucionárias.

Em relatório enviado ao governador da Paraíba, o tenente-coronel Elísio Sobreira, comandante da Polícia Militar do estado, não deixa dúvida sobre o caráter dessas novas tropas criadas por iniciativa do governo federal:

“Pesa-me relatar a Vossa Senhoria que os oficiais imediatos do coronel Pedro Silvino constituem uma afronta às autoridades paraibanas”.

A passagem da 1ª Divisão Revolucionária pelo Ceará, no entanto, ocorreu sem confrontos expressivos. O objetivo fixado pelo Estado-Maior era atingir a cidade de Triunfo, em Pernambuco, entre os dias 12 e 15 de fevereiro, conforme fora combinado com os emissários do tenente Cleto Campelo.

Para isso, foi concebida uma manobra posta em execução desde o levantamento do cerco a Teresina.

O 2º Destacamento seguira na direção nordeste, para atravessar a serra de Ibiapaba e invadir o Ceará ao norte, na altura de Ipu, simulando uma investida contra Sobral e Fortaleza, para atrair e fixar o grosso das forças governistas naquelas localidades. Enquanto isso, o restante da Divisão deslocou-se para sudeste, atingindo a vila de Arneiroz, às margens do Jaguaribe, em 26 de janeiro, evitando as tropas de Floro Bartolomeu que se encontravam mais ao sul, na cidade de Campos Sales.

De Ipu, onde João Alberto tomou a estação ferroviária, danificou a via férrea e, antes de silenciar o telégrafo, enviou mensagens a Fortaleza anunciando a chegada das tropas revolucionárias, o 2º Destacamento deslocou-se para o sul, em marcha forçada de 100 km diários, ligando-se ao grosso em Arneiroz, a 29 de janeiro.

A vila ficava às margens do Jaguaribe, cujo leito escarpado, quase sem água, situava-se em terras semi-áridas que impunham grande dificuldade ao deslocamento de tropas.

O Estado-Maior avaliara que as forças governistas descartariam a hipótese de que a 1ª Divisão Revolucionária ousasse se aventurar por aqueles caminhos. E justamente por isso escolhera essa rota. Seguindo a leste, por Saboeiro e Jucás, a Divisão atravessou a região - onde 30 anos mais tarde foi construído o grande açude de Orós - e atingiu o estado do Rio Grande do Norte, em São Miguel, no dia 3 de fevereiro, depois de haver transposto a serra do Pereiro. Os dois recontros mantidos com as forças inimigas, no alto da serra e na vila de São Miguel, foram facilmente vencidos. Dali a coluna revolucionária infletiu para o sul, conforme relata o coronel João Alberto:

“Atravessamos o estado do Rio Grande do Norte sem maiores incidentes... Entramos no estado da Paraíba sempre em marcha forçada, para aproveitar a surpresa do ataque... o comando das forças governamentais... não sabia bem se era nossa intenção... marchar sobre a capital daquele estado ou continuar para o sul... Já no limite com Pernambuco teve a Coluna de batalhar duramente para dominar a resistência obstinada do Padre Aristides, misto de sacerdote e de cangaceiro que chefiava a defesa de Piancó...”.

PIANCÓ 

A cidade bloqueava a progressão da 1ª Divisão Revolucionária, tanto para Pernambuco, ao sul, quanto a leste para Patos, ponto estratégico da defesa da estrada de rodagem que seguia até a capital da Paraíba.

O padre Aristides Ferreira da Cruz, deputado estadual que portava um 38 sob a batina, já fora expulso de Piancó por roubar gado dos vizinhos. Empenhara-se em diversas atividades pouco recomendáveis a um prelado, porém retornara à cidade sob a proteção de seu correligionário, o ex-presidente Epitácio Pessoa.

Foi a pedido deste que Aristides armou 200 pistoleiros para barrar a marcha da 1ª Divisão Revolucionária, em Piancó, enquanto aguardava reforços, enviados pelo governo, através de Patos.

Os revolucionários não tinham conhecimento de que as forças governistas haviam entrado em prontidão, no dia 5 de fevereiro, após intenso tiroteio travado contra 11 revolucionários comandados pelos tenentes Sousa Dantas e Seroa da Mota, antes que estes pudessem iniciar o levante do 22º Batalhão de Caçadores, na capital paraibana.

Os tenentes foram delatados por Batista Ramos, ex-deputado goiano, que havia se infiltrado na 1ª Divisão Revolucionária, no Piauí.

Outro levante também havia fracassado, no dia 18 de janeiro, em Aracaju. O tenente Maynard Gomes, que liderara a rebelião de julho de 1924, em Sergipe, conseguira fugir e sublevar o 28º Batalhão de Caçadores, ocupando os pontos principais da cidade e cercando o quartel da Polícia Militar. Os revolucionários foram subjugados com a ajuda de tropas da Marinha, depois que o tenente Maynard foi ferido.

O sangrento confronto em Piancó foi registrado pelo capitão Moreira Lima, no diário da campanha:

“O dia 9 amanheceu belíssimo, fazendo a vanguarda o Destacamento Cordeiro, seguindo-se Dutra e por fim Siqueira.

O Destacamento Cordeiro ao descer a ladeira que conduz à vila foi rudemente atacado, travando-se renhido combate, que durou ate às 3 horas da tarde...

O inimigo estava entrincheirado em várias casas, na cadeia pública, que é um vasto edifício de granito, e na igreja.

Caíram feridos, logo no início do combate, os capitães Manoel de Oliveira Pires e João Batista dos Santos, e o tenente Agenor Pereira de Sousa, além de vários soldados, sendo mortos alguns desses últimos.

Mais tarde foi ferido o tenente Valfrido, do Destacamento Dutra, que avançava em apoio a Cordeiro...

Em dado momento, de uma das casas ocupadas pelo inimigo, hastearam uma bandeira branca, tendo arrefecido o fogo, da nossa parte... Os nossos avançaram confiadamente, sendo alvejados da casa onde estava o padre Aristides.

Dutra ordenou então ao sargento João Baiano que jogasse uma lata de gasolina à porta da casa, a fim de incendiá-la.

João Baiano tratou de cumprir essa ordem.

Nesse momento, abriu-se a porta da casa.

O sargento Laudelino da Silva, conhecido como Lino, tentou penetrar nela recebendo um tiro que o prostrou morto.

Os demais soldados precipitaram-se na sala, subjugando as pessoas que ali se achavam, inclusive o padre Aristides...”.

Foram todos imediatamente degolados. Um dos soldados, depois disso, castrou o padre e encheu-lhe a boca com os próprios testículos.

A velha tradição da degola que imperava nas guerras civis dos pampas fora combatida pelos oficiais revolucionários como um costume bárbaro. Porém, a torpeza do deputado-cangaceiro, simulando por duas vezes consecutivas um ato de rendição, para disparar contra os adversários, havia despertado a fera.

Miguel Costa e Prestes não permitiram que seus comandados tornassem a se deixar dominar por ela, até o final da Grande Marcha.

 

Durante um ano invictos e batendo sistematicamente as forças do governo, os revolucionários cruzam o Nordeste e traçam os próximos passos da campanha: manter a luta armada até o último dia do governo Bernardes e aproximar a Divisão da fronteira boliviana

 

Penetrando em Pernambuco, entre Flores e Ingazeira, a 1ª Divisão Revolucionária atingiu a Vila do Triunfo, no dia 13 de fevereiro, conforme fora combinado com os emissários do tenente Cleto Campelo.

A permanência na região, no entanto, apresentava novas dificuldades, conforme relata o coronel João Alberto:

“Passara a surpresa, e o adversário apresentava-se agora cheio de agressividade...”.

O tenente Cleto Campelo não conseguira reunir as condições para sublevar o 21º Batalhão de Caçadores e tomar a capital pernambucana. Seu novo plano era assumir o controle da estação ferroviária de Jaboatão, na periferia do Recife, seguir de trem para o interior e incorporar à 1ª Divisão Revolucionária as forças que conseguisse arregimentar durante a marcha.

Cleto desertara do 21º BC, em 1925, ao ser enviado para combater os revolucionários no Mato Grosso. Acompanhava-o Waldemar de Paula Lima, sargento da guarnição do encouraçado São Paulo, rebelada em 1924. Waldemar era capitão da 1ª Divisão Revolucionária, e fora designado para fazer a ligação com os revolucionários pernambucanos. O núcleo era integrado também pelo marinheiro Severino Cavalcanti e treze civis, entre os quais os padeiros comunistas José Francisco de Barros e José Caetano. O dirigente do recém-criado Partido Comunista do Brasil, em Pernambuco, Cristiano Cordeiro, havia prometido apoio ao tenente Cleto. O Comitê Central do partido não referendou a sua iniciativa.

No dia 18 de fevereiro, o grupo ocupou a estação da estrada de ferro Great Western, em Jaboatão, recebeu a adesão de 40 ferroviários e organizou um trem de combate, composto de quatro vagões e uma locomotiva.

A primeira parada foi em Vitória de Santo Antão, onde Cleto requisitou, da prefeitura e coletoria estadual, armas e munições, além de 1 conto e 525 mil-réis. Cerca de 100 novos voluntários se incorporaram à coluna. A maioria era constituída de ferroviários que seguiam de Caruaru para Recife. Quando o trem em que viajavam foi parado, em Vitória de Santo Antão, operários, telegrafistas, fiscais e o próprio chefe da estação de Caruaru decidiram somar-se aos revoltosos.

O tenente Cleto Campelo pretendia seguir pela via férrea até Buique, buscando contato com a 1ª Divisão Revolucionária.

O plano começaria a ruir em Gravatá. Numa confusa operação para submeter a fraca guarnição da cadeia local, o tenente Cleto foi baleado e morto, acidentalmente, pelos seus próprios companheiros. A consternação tomou conta da inexperiente tropa. O capitão Waldemar de Paula assumiu o comando e tentou prosseguir a luta, alterando o rumo da marcha. Mas pouco pode fazer. A 22 de fevereiro, foi morto numa emboscada em Tapada. Nenhum dos homens do pequeno contingente que o acompanhava escapou com vida. 

CÍRCULO DE FERRO 

Para o coronel João Alberto, os 15 dias passados em Pernambuco pesaram como 15 meses:            

“Combatendo diariamente, não nos sobrava tempo, sequer, para comer, tal a velocidade com que nos deslocávamos. A cada passo, surgia uma reação nova”.

A 14 de fevereiro os destacamentos Dutra e João Alberto atacam uma tropa da Policia Militar transportada em 20 caminhões, chefiada pelo coronel João Nunes.             

O capitão Moreira Lima registraria no diário de campanha o resultado da batalha de Carneiro:                  

“O inimigo foi completamente destroçado, deixando 15 homens mortos e 15 prisioneiros, alguns dos quais feridos, salvando-se os demais por se haverem refugiado na caatinga, onde a nossa cavalaria não os podia perseguir...

Foram feridos nesse combate o major Manuel Alves de Lira, capitão Heraclides Pinto (Preto), tenente Agerson Dantas e três soldados”.

Apesar dos reveses, as forças governistas tornavam-se mais ousadas e cada vez mais numerosas. No dia 18, em Mulungú, o 3º Destacamento sofreu 10 baixas, em virtude de um ataque no qual os homens da Policia Militar usaram lenços vermelhos nos pescoços, para confundir os comandados de Siqueira Campos.

A falta de notícias sobre Cleto Campelo obrigava os destacamentos revolucionários a restringirem sua movimentação à região demarcada pelos rios Pajeú, Navios e a Serra Negra. Um piquete comandado pelo major Ari Freire destacara-se na direção leste, realizando um raid sobre Pesqueira, Garanhuns e Buique em busca de ligação com o tenente Cleto.

Os combates se sucediam. Dia 20, na vila de Santa Maria e fazenda Monte Alegre. 21, em Tabuleiro Comprido. 22, na fazenda do Cipó.

Na tarde do dia 22, o grosso acampou na fazenda Buenos Aires, situada num contraforte da serra Negra. Conta o capitão Moreira Lima:

“Pelas explorações realizadas pelos nossos piquetes e depoimentos dos prisioneiros que fizemos em Cipó, soubemos que se aproximavam três poderosas Colunas inimigas, procurando nos envolver num círculo de ferro.

A situação era grave, tendo o governador de Pernambuco se apressado em telegrafar para o Rio, conforme lemos depois nos jornais, comunicando nos acharmos cercados e restar-nos apenas o refúgio daquela serra.

Esse comunicado exprimia a verdade, pois o inimigo havia conseguido transportar para aqueles sertões todas as tropas que dispunha no Nordeste, cerca de 15.000 homens.

Ari não conseguira notícias de Cleto.