Revolução
de
1930
A
REVOLUÇÃO
DE
VARGAS
“Desta
viajada
se
volta
com
honra
ou
não
se
volta
mais”
1.
Prólogo
2.
Assalto
ao
QG
da
3ª
Região
Militar
3.
Morro
do
Menino
Deus
4.
Tomada
de
Porto
Alegre
5.
Sucessão
de
Washington
Luís
6.
Aliança
Liberal
7.
Preparação
da
Insurreição
8.
Campanha
Eleitoral
9.
O
Amigo
da
Onça
10.
Defecção
de
Prestes
11.
Manifesto
de
Vargas
12.
Volta
por
Cima
13.
Assassinato
de
João
Pessoa
14.
Preparativos
Finais
15.
Colunas
Avançadas
16.
Revolução
em
Minas
17.
Revolução
no
Nordeste
-
1
18.
Revolução
no
Nordeste
-
2
19.
A
Caminho
do
Front
20.
Deposição
de
Washington
Luís
21.
A
Batalha
de
Itararé
22.
Passagem
por
São
Paulo
23.
Chegada
ao
Rio
de
Janeiro
24.
Epílogo
1.
Prólogo
3
de
outubro
de
1930.
Getúlio
Vargas,
governador
do
Rio
Grande
do
Sul,
candidato
esbulhado
nas
eleições
presidenciais
de
março,
registra
em
seu
recém
iniciado
diário:
“Se
todas
as
pessoas
anotassem
diariamente
num
caderno
seus
juízos,
pensamentos,
motivos
de
ação
e
as
principais
ocorrências
de
que
foram
parte,
muitos
a
quem
um
destino
singular
impeliu
poderiam
igualar
as
maravilhosas
fantasias
descritas
nos
livros
de
aventura
dos
escritores
da
mais
rica
imaginação.
O
aparente
prosaísmo
da
vida
real
é
bem
mais
interessante
do
que
parece.
Lembrei-me
que
se
anotasse,
diariamente,
com
lealdade
e
sinceridade,
os
fatos
de
minha
vida
como
quem
escreve
apenas
para
si
mesmo
e
não
para
o
público,
teria
aí
um
largo
repositório
de
fatos
a
examinar
e
uma
lição
contínua
de
experiência
a
consultar.
Não
o
fiz
durante
a
minha
mocidade
cheia
de
episódios
interessantes
que
vão
se
apagando
pouco
a
pouco
da
memória.
Depois,
o
trato
contínuo
com
os
homens
e
as
observações
feitas
sobre
os
mesmos
em
fases
e
circunstâncias
diferentes
nos
habilitam
a
um
juízo
mais
seguro.
Lembrei-me
disso
hoje,
dia
da
Revolução.
Todas
as
providências
tomadas,
todas
as
ligações
feitas.
Deve
ser
hoje
às
cinco
horas
da
tarde.
Que
nos
reserva
o
futuro
incerto
neste
lance
aventuroso?...
Pela
manhã
recebi
o
secretário
da
presidência,
com
quem
despachei
a
correspondência
do
dia,
e
entreguei-lhe
para
passar
a
limpo
o
manifesto
revolucionário
que
deverá
ser
publicado
amanhã...
Chegou
às
10
horas
o
coronel
Claudino
Nunes
Pereira,
comandante
da
Brigada
Militar.
Achei-o
mais
confiante.
Estava
antes
vacilante
e
um
tanto
desanimado.
Não
acreditava
no
êxito
do
movimento...
Atendi..
o
dr.
João
Simplicio,
secretario
da
Fazenda...
Nada
sabia
sobre
o
movimento
preparado
para
hoje,
apenas
os
boatos
insistentes
que
corriam
a
cidade...
disse-me
que
queimaria
toda
a
sua
biblioteca
se
Minas
entrasse
no
movimento
revolucionário
porque,
se
tal
acontecesse,
instituiria
uma
subversão
completa
de
todas
as
noçòes
que
ele
havia
aprendido...
Quatro
e
meia,
aproxima-se
a
hora.
Examino-me
e
sinto-me
com
o
espírito
tranqüilo
de
quem
joga
um
lance
decisivo
porque
não
encontrou
outra
saída
digna
para
o
seu
estado.
A
minha
sorte
não
me
interessa
e
sim
a
responsabilidade
de
um
ato
que
decide
do
destino
da
coletividade.
Mas
esta
queria
a
luta,
pelo
menos
nos
seus
elementos
mais
sadios,
vigorosos
e
ativos.
Não
terei
depois
uma
grande
decepção?
Como
se
torna
revolucionário
um
governo
cuja
função
é
manter
a
ordem?
E
se
perdermos?
Eu
serei
depois
apontado
como
responsável,
por
despeito,
por
ambição,
quem
sabe?
Sinto
que
só
o
sacrifício
da
vida
poderá
resgatar
o
erro
de
um
fracasso”.
2.
Ataque
ao
Quartel-General
da
3ª
Região
Militar
“Começou
o
movimento,
um
fogo
vivo
de
fuzilaria
e
metralhadoras,
uns
vinte
minutos
de
luta
e
foi
tomado
o
quartel-general,
presos
o
comandante
da
Região
e
seu
estado-maior.
O
assalto
foi
feito
por
guardas
civis
e
populares
capitaneados
por
Osvaldo
Aranha,
Flores
da
Cunha
e
Adalberto
Correia.
Foi
um
lance
épico”.
Osvaldo
Aranha
organizara
meticulosamente
o
decisivo
ataque.
Por
delegação
de
Vargas,
ele
assumira
a
frente
dos
preparativos
da
insurreição,
desde
o
ano
anterior,
como
secretário
de
Interior
e
Justiça
de
seu
governo.
O
plano
era
capturar,
logo
no
início
do
levante,
o
general
Gil
de
Almeida,
comandante
da
3ª
Região
Militar,
e
seu
estado-maior,
de
modo
a
desarticular
o
esforço
contra-revolucionário.
O
quartel
da
Guarda
Civil
ficava
nas
imediações
do
Quartel-General
da
3ª
Região.
Com
várias
semanas
de
antecedência,
Aranha
determinara
que
diariamente,
às
cinco
da
tarde,
hora
em
que
encerrava
o
expediente
nas
repartições
militares,
a
Guarda
Civil
entrasse
em
formatura
e
iniciasse
um
desfile,
saindo
de
seu
prédio
e
passando,
invariavelmente,
pela
frente
ao
QG.
Sentinelas
e
demais
ocupantes
da
unidade
militar
acostumaram-se
àquela
rotina.
No
dia
3
de
outubro,
a
cena
costumeira
se
repetiria.
A
diferença
é
que
alguns
edifícios
na
retaguarda
e
no
flanco
esquerdo
do
quartel
haviam
sido
discretamente
ocupados
pelos
revolucionários
que
ali
instalaram
metralhadoras
para
servirem
de
cobertura
ao
assalto.
Igualmente,
nas
imediações
do
QG
um
grupo
armado,
integrado
por
Osvaldo
Aranha
e
pelo
senador
Flores
da
Cunha,
aguardava
a
passagem
da
tropa
da
Guarda
Civil.
Quando
esta
chegou
em
frente
ao
QG,
o
ataque
começou.
As
sentinelas
foram
surpreendidas
e
o
prédio
invadido.
A
luta
foi
curta,
porém
intensa.
Dos
50
revolucionários
que
atacaram
o
prédio,
a
metade
foi
posta
fora
de
combate
–
seis
morreram
na
própria
investida
e
cinco
mais
tarde,
em
conseqüência
dos
ferimentos.
Mas
estavam
presos
o
general
Gil
de
Almeida,
o
coronel
Firmo
Freire,
chefe
de
seu
estado-maior,
e
outros
oficiais.
Na
mesma
rua,
a
poucos
metros
do
Quartel-General,
a
guarnição
do
arsenal
de
guerra
foi
dominada
por
outro
contingente
integrado
por
guardas
civis
e
populares,
dirigidos
pelos
deputados
federais
Adalberto
Correia
e
Francisco
Antunes
Maciel.
3.
Morro
do
Menino
Deus
3
de
outubro.
Diário
de
Vargas:
“No
morro
do
Menino
Deus
estavam
dois
corpos
o
8º
e
o
9º
Batalhão
de
Caçadores.
O
primeiro,
sob
o
comando
do
tenente-coronel
Galdino
Esteves,
aderiu,
e
o
segundo
ofereceu
fraca
resistência
sendo
preso
o
comandante
e
alguns
oficiais”.
O
segundo
alvo
estratégico
da
insurreição
na
capital
gaúcha
era
o
fortificado
Morro
do
Menino
Deus,
onde
estavam
sediados
dois
regimentos
de
Cavalaria
Divisionária
–
o
3º
e
o
4º.
Em
setembro,
o
general
Gil
de
Almeida
havia
reforçado
essa
posição
com
o
8º
e
o
9º
Batalhão
de
Caçadores,
respectivamente
comandados
pelo
tenente-coronel
Galdino
Esteves
e
pelo
coronel
Toledo
Bordoni.
O
contingente
ali
aquartelado
atingia
um
efetivo
de
1.500
homens.
Além
de
se
constituir
na
mais
importante
posição
da
tropa
federal,
em
Porto
Alegre,
no
imenso
paiol
do
Morro
estava
armazenada
a
“única
reserva
de
munição
existente
no
estado”.
O
coronel
João
Alberto,
veterano
da
Revolução
de
1924,
encarregado
de
comandar
a
investida,
comenta
o
fato:
“O
ponto
fraco
da
revolução
era
justamente
o
reabastecimento
da
munição
de
fuzil.
Nem
a
Brigada
Militar
do
estado
nem
os
corpos
de
tropa
do
Exército
dispunham
de
municiamento
para
grandes
combates.
Seria
temeridade
armar
uma
centena
de
milhar
de
homens
para
uma
luta
séria,
contra
um
adversário
poderoso,
sem
ter
o
reabastecimento
garantido...
Aquela
munição
não
nos
podia
escapar.
Se
o
general
Gil
a
fizesse
explodir
no
último
instante
o
êxito
do
movimento
talvez
ficasse
comprometido”.
Momentos
antes
da
hora
combinada
para
o
ataque,
o
tenente-coronel
Galdino
Esteves
neutralizou
o
8º
Batalhão,
sob
seu
comando,
conduzindo-o
para
o
salão
do
rancho.
Sob
a
cobertura
de
um
grupo
comandado
por
Estilac
Leal,
João
Alberto
atacaria
as
trincheiras,
na
parte
alta
do
Morro,
guarnecidas
pelo
9º
Batalhão,
também
previamente
minado
pela
pregação
revolucionária.
O
tenente
Setembrino
Palma,
com
um
pequeno
grupo
de
guardas
civis
e
alunos
do
CPOR,
procuraria
imobilizar
as
tropas
de
Cavalaria,
surpreendendo-as
em
seus
alojamentos.
João
Alberto
fez
a
seguinte
narração
do
episódio:
“Tínhamos
apenas
cinco
minutos
de
espera,
quando
ouço
uma
fuzilaria
vinda
lá
de
baixo,
na
direção
do
quartel
de
Cavalaria.
O
tenente
Setembrino
Palma
cumprira
a
sua
palavra.
Dei
o
sinal
de
avanço...
Uma
fuzilaria
nervosa
estrondou
por
toda
a
linha
de
fortificação
do
adversário.
Quis,
minha
boa
estrela,
que
o
ataque...
incidisse
sobre
a
trincheira
ocupada
pela
companhia
do
tenente
Amaro,
nosso
companheiro
de
conspiração...
Galgando
temerariamente
o
parapeito
da
própria
posição,
para
se
dar
a
conhecer,
no
meio
das
balas,
ele
agitou
um
lenço
vermelho,
símbolo
das
forças
revolucionárias...
Em
menos
de
meia
hora
dominamos
o
Morro
e
precipitamo-nos,
em
seguida,
sobre
os
alojamentos
em
defesa
de
Setembrino”.
O
tenente,
no
entanto,
já
havia
dominado
os
170
soldados
que
se
encontravam
no
quartel.
Estes
se
renderam
pouco
depois
de
haver
tombado
o
seu
comandante
-
capitão
Jaime
Argolo
Ferrão.
4.
“De
Pé,
Pelo
Brasil!”
3
de
outubro.
Diário
de
Vargas:
“Resistiu
até
a
madrugada
o
7º
Batalhão
de
Caçadores
comandado
pelo
coronel
Acauã.
Durante
à
tarde
e
parte
da
noite,
a
cidade
sofreu
o
alarme
de
fogo
cruzado
entre
os
sitiantes
e
sitiados,
fuzilaria,
metralhadoras
e
morteiros.
Pouco
depois
da
meia-noite,
veio
um
oficial
do
7º
ao
palácio
propor-me
um
parlamento.
Entreguei-o
ao
coronel
Góis
Monteiro
que
ficou
dirigindo
as
operações
como
meu
chefe
do
estado-maior.
Este
regulou
as
condições
de
entrega
e
o
7º
se
rendeu”.
Com
a
queda
desta
unidade,
Porto
Alegre
passou
inteiramente
ao
comando
das
forças
revolucionárias.
O
coronel
Benedito
Marques
da
Silva
Acauã,
comandante
do
7º
Batalhão
de
Caçadores,
era
cunhado
do
senador
Flores
da
Cunha,
o
que
não
o
impediu
de
oferecer
uma
resistência
encarniçada,
acima
de
todas
as
expectativas.
Para
não
permitir
que
a
luta
se
prolongasse
em
demasia,
os
revolucionários
tiveram
que
fazer
uso
maciço
da
artilharia
e
mesmo
dos
lança-chamas
que
haviam
sido
preparados
por
outro
veterano
das
revoluções
de
1922
e
1924,
o
major
Henrique
Ricardo
Holl.
Porém,
no
momento
da
rendição,
o
coronel
Acauã
formou
a
tropa,
para
despedir-se
de
seus
comandados,
e
informou
que,
conforme
as
condições
estabelecidas,
todos
aqueles
que
quisessem
regressar
a
seus
lares
deveriam
dar
um
passo
a
frente,
pois
poderiam
fazê-lo
com
todas
as
garantias.
Nem
um
só
homem
se
moveu,
incorporaram-se
todos
às
fileiras
revolucionárias.
No
dia
4,
pela
manhã,
os
jornais
estampavam
o
manifesto
revolucionário
que
o
secretário
de
Vargas
recebera
dele,
pela
manhã
do
dia
3,
com
a
orientação
de
encaminhá-lo
para
a
publicação,
no
dia
seguinte
–
sutilezas
a
que
se
obriga
um
governador
decidido
a
dirigir
uma
revolução
e
não
a
alardeá-la:
“O
povo
oprimido
e
faminto.
O
regime
representativo
golpeado
de
morte,
pela
subversão
do
sufrágio
popular...
Daí
como
conseqüência
lógica
a
desordem
moral,
a
desorganização
econômica,
a
anarquia
financeira,
o
marasmo,
a
estagnação,
o
favoritismo,
a
falência
da
Justiça.
Entreguei
ao
povo
a
decisão
da
contenda,
e,
este,
cansado
de
sofrer
rebela-se
contra
os
seus
opressores...
Não
foi
em
vão
que
o
nosso
Estado
realizou
o
milagre
da
união
sagrada.
É
preciso
que
cada
um
de
seus
filhos
seja
um
soldado
da
grande
causa.
Rio
Grande,
de
pé
pelo
Brasil!
Não
poderás
falhar
ao
teu
destino
heróico!”
O
apelo
foi
atendido
prontamente.
Em
poucos
dias,
cerca
de
50.000
voluntários
se
alistaram
para
a
luta.
As
tentativas
de
reação
das
forças
federais,
no
interior
do
estado,
restringiram-se
a
Rio
Grande,
Bajé,
São
Gabriel,
Alegrete,
Itaqui,
São
Borja
e
Passo
Fundo,
e
foram
rapidamente
debeladas.
O
Rio
Grande
estava
pronto.
5.
Sucessão
de
Washington
Luís
Getúlio
Vargas
assumiu
o
governo
do
Rio
Grande
do
Sul
em
25
de
janeiro
de
1928.
Desde
a
campanha
eleitoral,
no
ano
anterior,
conseguira
a
pacificação
do
estado,
sendo
apoiado
por
chimangos
e
maragatos.
Republicanos
e
libertadores,
pela
primeira
vez
na
história
da
República,
trocavam
as
armas
pela
busca
do
entendimento.
Da
rica
experiência
política
vivida
pelo
país,
ao
longo
da
década
de
20,
Vargas
tirara
a
convicção
de
que
o
Rio
Grande
dividido
deixava
a
oligarquia
cafeeira
de
mãos
livres
para
impor
seus
interesses
ao
conjunto
do
país.
E
estes
tornavam-se
cada
vez
mais
estreitos
e
excludentes.
A
política
de
valorização
do
café
convertera-se
numa
bomba
de
efeito
retardado.
A
safra
de
1927
fora
de
28.334.000
de
sacas,
para
um
consumo
mundial
de
23.536.000.
O
governo
sustentava
artificialmente
o
preço,
comprando
o
excedente
com
recursos
obtidos
através
de
empréstimos
nos
bancos
ingleses
e
norte-americanos.
Em
dez
anos,
o
número
de
pés
de
café
havia
passado
de
2.000.000,
para
2.579.000.
A
safra
de
1929
ameaçava
atingir
a
casa
das
38.000.000
de
sacas.
Uma
violenta
crise
despontava
no
horizonte,
antes
mesmo
de
sobrevir
o
crack
da
bolsa
de
Nova
Iorque.
Diante
dessa
situação,
a
oligarquia
cafeeira
paulista
decidiu
ignorar
o
pacto
que
previa
a
transferência
da
presidência
da
República
a
um
aliado
mineiro,
nas
eleições
de
março
de
1930.
A
manutenção
de
seus
privilégios,
num
quadro
de
crise
aguda,
implicaria
na
imposição
de
maiores
sacrifícios
aos
demais
setores
da
sociedade,
daí
a
necessidade
de
um
presidente
paulista,
nada
menos
que
o
governador
do
estado,
ainda
que
isso
provocasse
a
ruptura
da
tradicional
política
do
café-com-leite.
Pela
segurança
de
que
seus
privilégios
seriam
preservados
sem
hesitação,
a
oligarquia
cafeeira
estava
disposta
a
pagar
o
preço
do
isolamento
político.
Considerava
que
o
sistema
eleitoral
vigente
lhe
garantiria
a
vitória
em
quaisquer
circunstâncias.
Além
do
voto
a
bico
de
pena
–
aberto
e
não
secreto
–
que
propiciava
a
intimidação
dos
eleitores,
a
designação
de
todos
os
componentes
das
mesas
era
de
responsabilidade
exclusiva
dos
presidentes
das
casas
legislativas.
Depois
de
colhidos
e
contados,
os
votos
eram
incinerados,
restando
as
atas,
cuja
validação
e
totalização
também
estavam
sob
estrito
controle
dos
presidentes
dos
legislativos.
Em
poucas
palavras,
Getúlio
Vargas
resumiu
o
funcionamento
desse
sistema:
“Na
maior
parte
dos
estados
do
Brasil,
as
eleições
são
lavradas
em
atas
falsas,
feitas
nas
casas
dos
apaniguados
dos
governos
locais,
sem
interferência
do
povo”.
Se
isso
não
fosse
o
bastante,
no
caso
das
eleições
aos
cargos
de
presidente
da
República,
deputados
e
senadores,
a
comissão
de
verificação
de
poderes
da
Câmara
Federal,
também
nomeada
pelo
presidente
da
casa,
se
encarregaria
da
degola
-
termo
pelo
qual
celebrizou-se
o
ato
de
transformar
candidatos
derrotados
em
vencedores
e
vice-versa.
À
frente
do
governo
de
Minas,
Antônio
Carlos
Ribeiro
de
Andrada,
reagiu
à
pretensão
da
oligarquia
paulista,
de
impor
o
nome
de
Júlio
Prestes,
retirando-se
da
disputa
e
selando
uma
aliança,
em
17
de
junho
de
1929,
pela
qual
o
Partido
Republicano
Mineiro
e
o
Partido
Republicano
Rio-Grandense
vetariam
a
candidatura
do
dr.
Julinho
e
se
unificariam
em
torno
de
Getúlio
Vargas.
6.
Aliança
Liberal
A
proposta
das
forças
dominantes
nos
estados
que
detinham
o
primeiro
e
o
terceiro
maior
colégio
eleitoral
do
país
seria
submetida
ao
presidente
Washington
Luís,
através
de
carta
firmada
por
Vargas,
em
11
de
julho
de
1929,
da
qual
foi
portador
o
senador
Flores
da
Cunha.
O
calejado
general
dos
corpos
provisórios
rio-grandenses
admitiu
que
“o
estado
de
espírito
do
presidente
me
perturbou”:
“O
Sr.
Washington
Luís
leu
rapidamente
a
carta.
Pelo
seu
ar
de
assombro
observei
que
estava
sob
a
impressão
de
um
homem
que
houvesse
caído
das
nuvens
de
seu
sonho,
no
chão
duro
da
realidade”.
O
presidente
da
República
anteviu
a
tempestade
que
iria
colhê-lo,
no
final
de
seu
mandato.
Ele
não
nutria
especial
simpatia
pela
candidatura
do
dr.
Júlio
Prestes,
e
sentia
que
sua
obra
administrativa,
dedicada
à
estabilização
monetária,
estava
a
pique
de
ser
sacrificada
pela
pressão
por
novas
emissões
e
empréstimos
capazes
de
absorver
os
gigantescos
excedentes
da
produção
cafeeira.
Limitou-se,
porém,
a
cumprir
os
desígnios
de
sua
classe.
Despachou
emissários
ameaçando
de
retaliações
as
forças
políticas
que
ousassem
alinhar-se
aos
estados
rebelados.
Em
31
de
julho,
a
comissão
executiva
do
Partido
Republicano
Mineiro
lançou
publicamente
as
candidaturas
de
Getúlio
Vargas
e
do
governador
da
Paraíba,
João
Pessoa,
à
presidência
e
vice-presidência
da
República.
As
forças
que
as
apóiam
organizam-se,
no
início
de
agosto
de
1929,
na
Aliança
Liberal,
composta
pela
Frente
Única
Gaúcha,
englobando
republicanos
e
libertadores,
pelos
partidos
republicanos
de
Minas
e
da
Paraíba,
e
pelas
forças
oposicionistas
nos
demais
estados.
Contavam
com
70
deputados
federais
e
12
senadores,
aproximadamente
a
terça
parte
do
Congresso
Nacional.
A
12
de
setembro,
o
Partido
Republicano
Paulista
secundado
pelas
agremiações
situacionistas
de
16
estados
homologa
as
candidaturas
de
Júlio
Prestes
e
do
baiano
Vital
Soares
à
presidência
e
vice-presidência
da
República.
A
convenção
da
Aliança
Liberal
realizou-se
a
20
de
setembro
no
Palácio
Tiradentes,
sede
do
Câmara
Federal.
Em
seu
discurso,
Antonio
Carlos
procuraria
desencorajar
iniciativas
governamentais
para
a
subversão
da
vontade
popular,
afirmando:
“...
sem
as
razões
morais...
que
impeliram
os
nossos
maiores
a
fundar
as
instituições
republicanas...
a
ordem
material
e
a
política...
não
passarão
de
um
remanso
estagnado,
em
cujo
seio
se
opera
lentamente,
em
todos
os
países
escravizados,
a
transformação
da
submissão
em
revolta”.
O
líder
da
bancada
gaúcha,
João
Neves,
dissera
o
mesmo
de
forma
mais
direta,
na
sessão
da
Câmara,
de
5
de
agosto:
“Vencidos
num
pleito
liso,
reconheceremos
com
prazer
a
nossa
derrota;
mas
vencedores...
ninguém
conseguirá
esbulhar
o
país
na
sua
escolha!”.
7.
Preparação
da
Insurreição
No
mês
de
agosto,
enquanto
a
Aliança
Liberal
tomava
forma,
Osvaldo
Aranha
estabeleceu
a
ligação
entre
os
homens
que
governavam
o
Rio
Grande
do
Sul
e
os
oficiais
que
haviam
promovido
as
revoluções
de
1922
e
1924.
Ambos
eram
velhos
conhecidos.
Por
três
vezes
o
próprio
secretário
de
Interior
e
Justiça
havia
terçado
armas
contra
seus
novos
interlocutores.
Em
novembro
de
1924,
batera
João
Alberto
e
Juarez
Távora,
em
Alegrete,
e
Siqueira
Campos,
em
Itaqui.
Dois
anos
mais
tarde,
fora
derrotado
por
Alcides
Etchegoyen,
nas
proximidades
de
Santa
Maria.
“Jamais
houve
ressentimento
entre
nós,
tal
o
cavalheirismo
que
mantínhamos
depois
da
luta”,
escreveu
João
Alberto.
O
coronel
relata
o
desdobramento
desses
contatos:
“Prestes
a
instância
de
Siqueira
Campos
veio
a
Porto
Alegre
encontrar-se
com
o
dr.
Getúlio
Vargas,
a
fim
de
estabelecer
as
bases
da
nossa
colaboração.
Começamos
a
restabelecer
os
contatos
com
os
nossos
amigos
nos
diferentes
estados,
dando-lhes
instruções
para
que
fizessem
discretamente
os
preparativos
para
o
levante
e
emprestassem
todo
o
apoio
político
à
candidatura
do
dr.
Getúlio
Vargas...
Porto
Alegre
tornou-se
um
forte
centro
de
conspiração.
Ninguém
supunha
que
o
resultado
das
eleições
favorecesse
o
candidato
oposicionista.
A
máquina
eleitoral
do
governo
e
o
sistema
tradicional
de
fraude
nas
urnas
eram
bem
conhecios.
Não
havia
alternativa.
A
luta
pelas
armas
era
inevitável...”
Luís
Carlos
Prestes
entrevistou-se
secretamente
com
Vargas,
no
palácio
do
governo,
por
duas
vezes,
nos
meses
de
setembro
e
novembro.
As
condições
que
ele
apresentou,
como
representante
do
movimento
tenentista,
para
aceitar
a
chefia
militar
da
revolução,
foram
aprovadas
por
Getúlio.
Osvaldo
Aranha
entregou-lhe
o
primeiro
documento
de
falsa
identidade:
Manoel
de
Souza.
Os
recursos
solicitados
foram
enviados,
através
de
um
banco
em
Buenos
Aires
–
800
contos
de
réis.
A
13
de
outubro,
vindo
de
Buenos
Aires
e
passando
por
Montevidéu,
Juarez
Távora
chega
a
Porto
Alegre,
onde
se
encontra
com
Siqueira
Campos
e
João
Alberto.
Sua
missão,
previamente
acertada
com
Prestes
e
Miguel
Costa,
era
deslocar-se
para
o
Nordeste,
a
fim
de
assumir
o
comando
das
operações
militares
naquela
região.
Antes
porém
recebeu
a
incumbência
de
avistar-se
com
o
governador
de
Minas
–
na
época,
o
termo
empregado
era
presidente
do
estado:
”Demorei-me
em
Porto
Alegre
pouco
mais
de
uma
semana
tendo
tido
oportunidade
de
ser
apresentado
ao
presidente
Getúlio
Vargas,
por
Osvaldo
Aranha,
no
próprio
Palácio
Piratini...
Antes
de
deixar
Porto
Alegre,
recebi,
com
Siqueira
Campos,
a
missão
de
entender-me,
em
nome
do
governo
do
Rio
Grande
do
Sul
com
o
presidente
Antonio
Carlos,
de
Minas
Gerais,
a
respeito
de
contribuição
que
devia
caber
a
este
estado,
para
a
compra
de
armamento
no
estrangeiro”.
Após
a
missão
junto
ao
governo
mineiro,
Siqueira
Campos
se
fixa
em
São
Paulo.
Para
reforçar
o
levante
em
Minas
Gerais,
é
designado
o
capitão
Leopoldo
Néri
da
Fonseca.
João
Alberto
concentra
a
sua
atividade
no
Rio
Grande
do
Sul.
Nelson
de
Mello
no
Distrito
Federal.
Juarez,
antes
de
seguir
para
o
Nordeste,
passou
pelo
Rio
de
Janeiro,
tendo
sido
preso
e
encarcerado
na
fortaleza
de
Santa
Cruz.
Só
no
dia
28
de
fevereiro,
véspera
de
carnaval,
depois
de
empreender
uma
fuga
espetacular,
é
que
consegue
retomar
a
viagem
para
Pernambuco.
O
coronel
Estilac
Leal,
que
o
acompanhara
na
escapada,
segue
para
Porto
Alegre.
8.
Campanha
Eleitoral
Os
principais
pontos
do
programa
de
Getúlio
Vargas
-
anistia
aos
revolucionários
de
1922
e
1924,
voto
secreto,
liberdade
de
imprensa,
educação
pública
e
legislação
trabalhista
–
davam
um
caráter
popular
à
campanha
da
Aliança
Liberal
e
colocavam
seus
partidários
na
ofensiva
em
relação
às
forças
que
permaneciam
atadas
a
velhas
teses
sintetizadas
pelo
presidente
da
República,
na
conhecida
sentença:
“A
questão
social
é
um
caso
de
polícia”.
A
maioria
governista
decidiu
então
esvaziar
as
sessões
parlamentares,
impedindo
a
manifestação
dos
deputados
aliancistas.
Mas
estes
replicaram
passando
a
promover
comícios
nas
escadarias
do
palácio
Tiradentes.
A
temperatura
se
eleva.
No
dia
26
de
dezembro,
o
deputado
situacionista
Manuel
Francisco
de
Sousa
Filho
ataca
com
um
punhal
o
deputado
gaúcho
Ildefonso
Simões
Lopes
e
seu
filho
Luís,
na
entrada
da
Câmara.
Na
luta,
Ildefonso
disparou
dois
tiros
contra
o
deputado
pernambucano,
que
morreu
no
local.
O
gaúcho
era
vice-presidente
da
comissão
executiva
da
Aliança
Liberal.
A
imprensa
governista
procura
criar
um
clima
de
comoção.
O
líder
da
bancada
do
Rio
Grande
chega
a
telegrafar
a
Vargas
recomendando
o
adiamento
de
sua
viagem
à
capital
da
República.
Quatro
dias
depois,
Getúlio
desembarca
no
Rio
de
Janeiro.
Viera
proceder
a
leitura
de
sua
plataforma,
como
já
o
fizera
Júlio
Prestes,
no
saláo
do
Automóvel
Clube
do
Brasil,
cumprindo
uma
antiga
tradição
da
vida
política
nacional.
Logo
após
a
sua
chegada,
Vargas
procura
desanuviar
o
ambiente,
fazendo
uma
visita
ao
presidente
Washington
Luís.
No
dia
2
de
janeiro
de
1930,
ao
lado
de
João
Pessoa,
o
candidato
promove
a
leitura
da
plataforma,
em
praça
pública,
perante
multidão
de
proporções
sem
precedente
concentrada
na
esplanada
do
Castelo.
Vargas
esclarece
o
significado
da
nova
liturgia
que
emprestara
ao
ato,
com
a
seguinte
afirmação:
“Apesar
de
nem
sempre
terem
dos
fatos
uma
visão
de
conjunto,
são
realmente
as
classes
populares
sem
ligações
oficiais
as
que
sentem
com
mais
nitidez,
em
toda
a
sua
extensão,
por
instinto
e
pelo
reflexo
da
situação
geral
do
país
sobre
as
condições
de
vida,
a
necessidade
de
modificação
dos
processos
políticos
e
administrativos”.
Deixando
o
Rio,
a
comitiva
aliancista
embarca
num
trem
para
São
Paulo.
O
convite
para
que
Getúlio
Vargas
participasse
de
uma
manifestação
pública
na
capital
paulista
fora
feito
pelo
Partido
Democrático
-
dissidência
do
Partido
Republicano
Paulista
que
havia
aderido
à
Aliança
Liberal.
Realizado
o
comício,
no
dia
4
de
janeiro,
sábado,
a
dissidência
se
mostra
surpresa
e
assustada
com
o
prestígio
de
Vargas
em
“seu”
território,
conforme
expressa
o
relato
de
Paulo
Nogueira
Filho,
um
dos
próceres
do
Partido
Democrático
que
estivera
no
Rio
de
Janeiro
para
discutir
a
organização
do
ato:
“...
o
cortejo
se
pôs
em
marcha
pela
Avenida
Rangel
Pestana
no
Brás,
o
bairro
industrial.
Muita
gente
postada
na
calçada...
O
que
começou
a
surpreender
foi
que,
aclamado
o
candidato,
aquela
gente
toda,
ao
invés
de
regressar
às
suas
casas,
se
incorporava
ao
cortejo
que
ia
se
avolumando
espantosamente...
Assim
que
por
volta
das
20h
despontou
o
cortejo
na
várzea
do
Carmo,
tive
um
arrepio.
Não
era
possível
o
que
via!
Caminhava
não
um
cortejo,
mas
uma
imensa
multidão.
Que
sucederia
quando
aquela
gente
toda
se
encontrasse
com
a
que
estava
acima
da
ladeira?
A
multidão,
como
nunca
São
Paulo
vira
igual,
repetia:
Nos
queremos
Getúlio,
nós
queremos
Getúlio!
Daí
por
diante
tudo
foi
de
roldão...
Falaram
com
extrema
dificuldade
os
oradores
escalados.
Era
um
vozerio
só
e
imenso
a
se
alçar
nos
céus
de
Piratininga.
A
não
ser
aqui
ou
ali,
os
acordes
do
Hino
Nacional,
nada
mais
se
ouviu
a
não
ser:
Nós
queremos
Getúlio.
Nós
queremos
Getúlio!”.
Na
semana
seguinte,
8
de
janeiro,
Siqueira
Campos,
responsável
pela
chefia
militar
da
revolução
em
São
Paulo,
esvazia
a
sua
pistola
contra
policiais
que
o
localizaram
e
tentaram
capturá-lo.
Auxiliado
por
populares,
consegue
empreender
a
fuga,
chegando
até
a
sede
do
jornal
O
Estado
de
São
Paulo,
onde
Júlio
de
Mesquita,
integrante
do
Partido
Democrático,
lhe
presta
apoio.
São
presos
seus
colaboradores
Emídio
Miranda,
Djalma
Dutra
e
Aristides
Correa
Leal,
veteranos
de
1924.
O
aparelho
da
rua
Bueno
de
Andrade
101,
centro
da
conspiração,
era
freqüentado
também
pelos
tenentes
Ricardo
Holl
e
Oswaldo
Leite
Ribeiro.
Alertados
por
Siqueira
de
que
uma
delação
levara
a
polícia
até
o
local,
eles
restringem
seus
contatos
com
os
elementos
do
Partido
Democrático,
passando
a
priorizar
a
articulação
com
o
grupo
integrado
por
Maurício
Goulart
e
Oscar
Pedroso
D’Horta.
9.
O
Amigo
da
Onça
Também
em
Minas
Gerais
e
nas
principais
cidades
do
Norte
e
do
Nordeste
as
caravanas
da
Aliança
Liberal
realizaram
um
amplo
trabalho
de
agitação
política.
A
pressão
do
governo
federal
provocara
uma
cisão
no
Partido
Republicano
Mineiro,
encabeçada
pelo
vice-presidente
da
República,
Melo
Viana,
e
outra
na
Paraíba,
dirigida
pelo
ex-governador
João
Suassuna
e
pelo
deputado
José
Pereira,
ambas
de
reduzida
expressão
eleitoral.
A
Aliança
Liberal
realizara
uma
campanha
contagiante.
Impossível
compará-la
com
a
insossa
e
burocrática
performance
da
chapa
oficial.
Porém,
no
dia
19
de
março,
antes
mesmo
de
concluídas
as
apurações,
o
presidente
do
Partido
Republicano
Rio-Grandense,
dr.
Borges
de
Medeiros,
em
meio
às
denúncias
generalizadas
de
fraude,
se
antecipa
e,
em
entrevista
ao
jornal
carioca
A
Noite,
dá
uma
declaração
visando
paralisar
os
preparativos
revolucionários,
com
os
quais
estava
em
desacordo.
Com
a
autoridade
de
quem
já
governara
o
estado
por
cinco
vezes,
sendo
sucedido
por
Vargas
em
1928,
diz
o
amigo
da
onça:
“Devemos,
pois,
reconhecer
com
franqueza
e
lealdade
que
o
sr
Júlio
Prestes
está
eleito...
O
Rio
Grande
do
Sul...
reconhecerá
lealmente
a
derrota
de
seu
candidato,
que
é,
também,
o
seu
presidente.
E,
portanto,
reconhecerá
como
legal
o
governo
do
dr.
Julio
Prestes...
esses
elementos
que
mais
ardentes
e
apaixonados
se
mostraram
durante
a
campanha
igualmente
nada
farão.
Também
eles
compreendem
a
situação
e
se
subordinarão
à
maioria,
pois
são
homens
inteligentes
bem-educados
e
disciplinados.”
O
pronunciamento
recomendava
a
aceitação
da
fraude
eleitoral
como
um
fato
irreversível.
Ondas
de
protesto
voltaram-se
contra
ele.
Manhosamente,
Borges
o
retifica
admitindo
o
prosseguimento
da
luta,
porém
exclusivamente
pela
via
da
ação
parlamentar
e
da
pregação
doutrinária.
No
dia
22
de
março,
o
mineiro
Virgílio
Melo
Franco
e
o
gaúcho
Batista
Luzardo
viajam
a
Petrópolis,
no
Rio
de
Janeiro,
e
depois
a
Belo
Horizonte,
para
conversar
com
o
ex-presidente
Epitácio
Pessoa,
tio
do
governador
da
Paraíba,
e
com
Antônio
Carlos.
Pretendiam
certificar-se
da
disposição
desses
líderes
em
apoiar
a
via
revolucionária.
Luzardo
retornou
a
Porto
Alegre,
comunicando
a
Vargas
e
Osvaldo
Aranha
o
resultado
favorável.
No
dia
seguinte,
Luís
Aranha,
irmão
de
Osvaldo,
parte
com
a
incumbência
de
fechar
o
acordo
-
que
já
havia
sido
antecipado
por
Siqueira
Campos
e
Juarez
Távora,
em
outubro
de
1929
-
acerca
da
compra
de
armamentos
na
Tcheco-Eslováquia.
Para
o
pagamento
desse
material,
no
valor
de
16.000
contos,
o
Rio
Grande
do
Sul
daria
8.000
-
solicitava
à
Minas
a
contribuição
de
6.000
e
à
Paraíba
2.000.
Nessas
conversações
se
reafirmou
que
a
direção
militar
da
insurreição
ficaria
sob
responsabilidade
de
Juarez
Távora,
no
Norte,
do
capitão
Leopoldo
Néri
da
Fonseca,
em
Minas
Gerais,
de
Siqueira
Campos,
em
São
Paulo.
A
cizânia
aberta
pelo
presidente
do
Partido
Republicano
Rio-Grandense,
no
entanto,
inoculara
o
vírus
da
incerteza
no
coração
do
governador
de
Minas.
Este
decide
então
enviar
o
seu
secretário
do
Interior,
Francisco
Campos,
ao
Rio
Grande,
para
parlamentar
com
Borges
de
Medeiros.
Borges
era
osso
duro
de
roer.
Dispunha
ainda
de
considerável
influência.
Muito
próximos
a
ele
se
encontravam
o
comandante
da
poderosa
Brigada
Militar,
coronel
Claudino
Nunes
Pereira,
os
senadores
Paim
Filho
e
Vespúcio
de
Abreu,
os
deputados
federais
Barbosa
Gonçalves,
Domingos
Mascarenhas,
Carlos
Penafiel
e
Lindolfo
Collor.
O
último
havia
adiantado
a
Vargas
seu
ponto
de
vista
sobre
a
via
revolucionária,
em
carta
datada
de
12
de
agosto
de
1929:
“Vencida
a
revolução
estaremos
desmoralizados
e
exaustos.
Vencedora,
quem
terá
vencido?
Nós
ou
os
revolucionários
de
escala?...
Inclino-me,
por
isto,
contra
a
possibilidade
de
levarmos
a
luta
a
extremos
de
violência
material.
Digo
por
isto
para
não
fazer
aqui
uma
explanação
doutrinária
perfeitamente
descabida,
tendente
à
demonstração,
que
está
no
espírito
de
todos
nós,
que
um
mau
governo
é
ainda
preferível
à
vitória
de
uma
insurreição...”.
O
secretário
de
Antônio
Carlos
retornou
do
Rio
Grande
no
dia
27
de
abril.
Não
se
pode
dizer
que
voltara
de
lá
entusiasmado.
10.
Defecção
de
Prestes
No
início
do
mês
de
maio,
um
novo
golpe
atingiria
as
fileiras
da
revolução.
Emídio
Miranda,
que
conseguira
evadir-se
da
prisão,
encontra-se
com
Siqueira
Campos,
em
São
Paulo.
Traz
a
minuta
de
um
manifesto
que
Prestes
redigira.
O
documento
preconizava
o
rompimento
com
a
Aliança
Liberal,
a
partir
da
autocrítica
de
terem
os
tenentes
se
deixado
usar
como
joguetes
das
disputas
interoligárquicas
“apoiadas
e
estimuladas
pelos
dois
grandes
imperialismos
que
nos
escravizam
e
aos
quais
os
politiqueiros
brasileiros
entregam,
de
pés
e
mãos
atadas,
toda
a
Nação”.
Siqueira
comunica-se
com
João
Alberto
e
Miguel
Costa.
No
dia
8,
estão
os
três
em
Buenos
Aires,
a
fim
de
expressarem
ao
velho
companheiro
seu
integral
desacordo
com
a
idéia.
Prestes
permanece
irredutível.
Como
a
quase
totalidade
dos
comunistas
latino-americanos,
na
época,
com
os
quais
passara
a
conviver
em
Buenos
Aires,
sua
compreensão
das
idéias
marxistas
era
precária.
A
estratégia
política
que
julgava
derivar
delas
não
ia
além
de
uma
fantasia
sectária.
Mas
ele
aferrou-se
a
ela.
Depois
de
uma
penosa
discussão
que
varou
a
noite,
o
máximo
que
conseguiram
obter
dele
foi
o
adiamento
da
publicação
do
manifesto,
por
um
mês,
e
o
compromisso
de
transferir
recursos
financeiros
que
estavam
sob
sua
guarda.
João
Alberto
e
Siqueira
Campos,
ainda
insones
e
não
refeitos
do
golpe,
embarcaram
à
1h55,
do
dia
10
de
maio,
no
monomotor
Laté
28,
número
914,
da
companhia
francesa
Aeropostale,
com
capacidade
para
cinco
passageiros.
O
vôo
faria
escalas
em
Montevidéu,
Porto
Alegre,
Santos
e
Rio
de
Janeiro.
O
avião
viera
de
Santiago
–
Chile
-
e
atrasara
sua
chegada
em
mais
de
oito
horas.
Voar
sobre
o
Prata,
no
escuro
e
com
más
condições
de
tempo,
não
era
o
que
recomendava
a
prudência.
A
três
quilômetros
de
Montevidéu,
o
avião
perdeu
altitude
e
mergulhou
nas
águas
geladas.
João
Alberto
fez
um
pungente
relato
do
episódio:
`Despertei
com
um
golpe
na
cabeça.
O
avião
boiava
na
água,
agitado
pelas
ondas
que
contra
ele
se
quebravam...
Antes
de
deixarmos
o
pouco
que
restava
do
nosso
‘Laté
28’
lembrei-me
de
que
trazia
comigo
cerca
de
dez
contos,
que
Prestes
me
havia
dado...
Pedi
a
Siqueira
que
os
guardasse,
pois
tinha
maiores
possibilidades
de
chegar
à
terra
do
que
eu.
Siqueira
protestou,
dizendo
que
iríamos
vencer
juntos
mais
aquela
parada...
Eu
não
era
grande
nadador...
Mal
havia
recuperado
a
calma
(talvez
decorridos
uns
dez
minutos
de
nado),
ouvi,
perto
de
mim,
o
grito
angustiante
de
Siqueira.
‘Espera
João!’
Voltei-me
ainda
em
tempo
de
o
ver,
a
um
metro
de
mim,
ser
tragado
por
uma
onda.
Desapareceu
sem
estender
um
braço
para
pedir
auxílio....
Veio
então
o
desespero.
Nadei
violentamente,
com
todas
as
minhas
forças,
na
direção
das
luzes
da
cidade.
Tinha
a
impressão
de
que
Siqueira
fora
vitimado
por
um
peixe...
Ele
era
um
grande
nadador...
Jamais
poderia
eu
supor
naquele
momento
que
o
vitimara
um
ataque
de
angina,
conforme
foi
constatado,
mais
tarde,
pela
autópsia....A
idéia
de
que
um
peixe
investira
contra
Siqueira
não
me
deixava
um
instante.
Sentia-o
a
perseguir-me...
Parecia
que
tudo
estava
acabado
e
chegara
também
a
minha
vez.
Mas
uma
onda
bateu-me
em
cheio
no
rosto...
Era
preciso
agir
com
calma,
nadar
com
método,
economizar
energia
e,
sobretudo,
não
pensar
em
peixes.
Se
houvesse
tubarões
eu
não
tinha
como
me
defender...
O
importante
era
nadar,
até
alcançar
aquelas
luzinhas
esbatidas
pela
cerração
que
baixava
cada
vez
mais.
João
Alberto
conseguiu
chegar
a
Montevidéu.
Havia
sido
o
único
sobrevivente
do
trágico
acidente.
Prestes
acompanhou
os
trabalhos
para
o
resgate
do
corpo
daquele
que
fora
o
seu
amigo
mais
próximo.
Velou-o
por
duas
semanas,
até
o
dia
24
de
maio,
quando
o
corpo
embalsamado
foi
embarcado
num
navio
francês,
com
destino
ao
Rio
de
Janeiro.
No
dia
29
de
maio,
o
Diário
da
Noite
estampava
em
suas
páginas
o
documento
Prestes.
11.
Manifesto
de
Vargas
Pressionado
a
reconhecer
a
legitimidade
do
pleito
e
encerrar
o
questionamento
do
seu
resultado,
Getúlio
Vargas
rompe
o
silêncio
de
dois
meses
e
publica,
no
dia
31
de
maio,
o
manifesto
À
Nação
Brasileira.
Com
a
habilidade
necessária
a
quem
não
se
encontrava
ainda
em
condições
de
deflagrar
a
insurreição,
Vargas
mantém
a
bússola
orientada
nessa
direção,
ao
afirmar
que
o
governo
negara-se
a
fornecer-lhe
as
condições
para
que
se
considerasse
derrotado,
mas
que
esse
julgamento,
na
verdade,
não
cabia
a
ele,
e
sim
ao
povo.
“Por
intermédio
de
procuradores
tentei
examinar
os
trabalhos
de
reconhecimentos
para
que
pudesse
conscientemente
confessar
de
público
a
minha
derrota,
se
dela
me
convencesse.
Negaram-me
vista.
Não
me
assiste
o
direito
de
julgar
por
causa
própria.
Como
candidato,
devo
acatar
a
decisão
dos
poderes
competentes
instituídos
para
a
apuração
e
o
reconhecimento
das
eleições.
Não
se
confunda
este
escrúpulo
com
deserção...
Tratando-se
de
uma
campanha
de
feição
nitidamente
popular,
como
a
que
apoiou
a
minha
candidatura,
cabe
ao
povo
manifestar-se
se
está
ou
não
de
acordo
com
o
seu
encerramento”.
O
manifesto
conclui
denunciando
os
“atos
de
prepotência
praticados
contra
a
Paraíba
e
Minas
Gerais”
-
pelos
mesmos
poderes
competentes
que
proclamaram
a
vitória
de
Júlio
Prestes.
Define
essas
ações
como
“a
mais
deplorável
incompreensão
do
momento
histórico”:
“Punem-se
dessa
forma
sumária,
com
a
truculência
dos
reconhecimentos,
dois
estados
da
Federação,
que
não
supunham
constituir
delito,
num
país
republicano,
pleitear
desassombradamente
a
vitória
nas
urnas
em
favor
dos
candidatos
de
suas
preferências”.
Sob
orientação
de
Washington
Luís,
a
maioria
governista
no
Congresso
promovera
a
degola
nas
bancadas
de
Minas
e
da
Paraíba.
A
bancada
do
Partido
Republicano
Mineiro
sofreu
um
corte
de
14
deputados,
sendo
diplomados
em
seus
lugares
os
candidatos
da
Concentração
Conservadora
que
apoiara
Júlio
Prestes.
O
partido
perdeu
também
a
presidência
de
todas
as
comissões
que
detinha
na
Câmara.
Na
Paraíba,
nenhum
dos
candidatos
apoiados
por
João
Pessoa
foi
diplomado.
O
objetivo
do
golpe
era
legitimar
a
ação
de
Suassuna
e
José
Pereira
que,
a
26
de
fevereiro,
havia
proclamado
o
Estado
Livre
de
Princesa,
preparando
o
caminho
para
uma
intervenção
federal
destinada
a
depor
o
governador
João
Pessoa
e
seus
aliados
políticos.
12.
Volta
por
Cima
O
manifesto
de
Vargas
e
as
grandes
manifestações
no
Rio
de
Janeiro
e
São
Paulo,
nos
dias
4
e
5
de
junho,
que
vêm
render
a
última
homenagem
ao
herói
do
Forte
Copacabana,
contrabalançam
os
reveses
e
dão
novo
alento
à
revolução,
até
que,
a
17
de
junho,
tem
início
uma
fatídica
troca
de
telegramas
entre
Francisco
Campos
e
Osvaldo
Aranha:
17
de
junho
–
“Movimento
inteiramente
sem
articulação
e
preparado
com
deficiência...
Presidente
(de
Minas)
igualmente
inclinado
pensar
toda
a
conveniência
de
João
Pessoa
pedir
intervenção
ao
estado,
certo
presidente
da
Republica
proceder
com
correção”.
(Francisco
Campos)
19
de
junho
–
“Se
governo
Minas
prefere
desistir
luta
armada,
deve
dizê-lo
francamente,
pois
acataremos
sua
opinião.
Urge
resposta
franca”.
(Osvaldo
Aranha)
21
de
junho
–
“Balanceada
situação,
presidente
é
de
parecer
adoção
como
diretiva
exclusiva
ação
política
sobre
base
aliança
três
estados,
agora
e
no
futuro
governo”.
(Francisco
Campos)
23
de
junho
–
“Nosso
pensamento
única
solução
ante
cegueira,
brutalidade
governo
e
corrupção
política
geral
ser
ação
saneadora
movimento
armado...
Minas
responsabilizado
desistência.
Rio
Grande
submete-se
império
circunstâncias,
determinando
cessação
preparativos.
Meu
pensamento
situação
pior
que
dos
negros
que
sofreram
escravidão
com
menos
ridículo”.
(Osvaldo
Aranha)
Sem
o
apoio
do
governador
de
Minas,
as
chances
de
vitória
do
levante
eram
remotas.
A
única
porta
que
Antônio
Carlos
deixara
aberta
para
a
aceitação
da
luta
armada
era
a
de
uma
eventual
deposição
do
governador
da
Paraíba,
na
qual
ele
antecipadamente
declarava
não
acreditar.
De
Minas,
Virgílio
Melo
Franco
ainda
telegrafa
a
Aranha,
procurando
relativizar
as
conseqüências
do
recuo
do
chefe.
“23
de
junho
-
Único
chefe
vacilante
é
o
próprio
presidente.
Minha
convicção
porém
se
Rio
Grande
exigir
cumprimento
compromisso
ele
próprio
não
falhará”.
(Virgílio)
Osvaldo
Aranha
explode:
“24
de
junho
-
Minha
convicção
você
e
eu
vitimas
mistificação
vergonhosa.
Estou
farto
dessa
comédia,
impossível
continuar
sob
direção
chefe
tão
fraco
que
desanima
próprios
soldados.
Minha
disposição
inabalável
abandonar
definitivamente
vida
política”.
(Osvaldo
Aranha)
Comunicado
por
Aranha
de
sua
intenção,
o
coronel
João
Alberto,
conforme
relato
de
Juarez
Távora,
“endereçou
carta
aos
seus
companheiros
renunciando
a
liderança
militar
do
movimento
e
indicando-me
para
nela
substituí-lo”.
João
Alberto
havia
assumido
a
função
após
a
defecção
de
Prestes
e
a
morte
de
Siqueira
Campos,
com
muitas
dúvidas
sobre
a
sua
capacidade
de
exercê-la
efetivamente.
A
27
de
junho,
Osvaldo
Aranha
deixou
a
secretaria
de
Interior
e
Justiça.
João
Alberto
já
havia
se
retirado
para
Buenos
Aires.
A
disposição
de
Juarez
não
era
mais
animadora.
Ele
relata:
Desalentado,
no
dia
5
de
julho,
enviei
carta
circular
aos
meus
companheiros
militares
de
conspiração
no
Norte
do
país
comunicando-lhes
as
más
notícias
que
acabava
de
receber
do
Sul,
e
minha
intenção
conseqüente
de
interromper,
por
tempo
indeterminado,
a
missão
revolucionária
de
que
fora
incumbido
junto
a
eles...
Estava
decidido...
a
entregar-me
às
autoridades
militares
para
saldar
velhas
e
novas
contas
com
a
justiça...
escrevi
à
minha
prima
Nair,
comunicando-lhe
aquela
minha
decisão
e
indagando-lhe
se
me
aceitaria
como
seu
noivo,
mesmo
diante
da
precária
perspectiva
de
só
podermos
nos
avistarmos,
nos
próximos
anos,
no
confinamento
de
uma
prisão”.
As
reservas
da
revolução
não
tardaram
a
se
movimentar.
O
abalo
durou
poucos
dias.
Juarez
revela
que
“a
partir
de
meados
de
julho”
recebeu
“notícias
mais
animadoras,
resultantes
de
entendimentos
havidos
entre
Osvaldo
Aranha
e
os
elementos
militares
então
liderados
por
Estilac
Leal”,
o
que
o
levou
a
desistir
do
intento
anunciado
e
retomar
o
trabalho
conspiratório.
João
Alberto,
porém,
só
voltaria
a
ação
em
14
de
agosto.
A
liderança
militar
das
operações
seria
assumida,
em
setembro,
pelo
tenente-coronel
Góis
Monteiro
–
oficial
que
comandava
a
guarnição
de
São
Luís
Gonzaga
das
Missões,
e
não
participara
das
Revoluções
de
1922
e
1924.
Sua
adesão
foi
obtida
no
mês
de
agosto,
após
o
dr.
Borges
de
Medeiros
haver
decidido,
finalmente,
curvar-se
à
vontade
da
maioria.
13.
Assassinato
de
João
Pessoa
No
dia
26
de
julho,
João
Pessoa
se
encontrava
em
Recife.
Há
exatos
cinco
meses,
ele
enfrentava
os
bandos
de
jagunços
e
cangaceiros
que
comandados
pelo
ex-governador
João
Suassuna
e
pelo
deputado
José
Pereira
haviam
transformado
o
município
sertanejo
de
Princesa
em
“estado
livre”.
Logo
no
início
do
conflito,
o
Ministro
da
Guerra
respondera
ao
pedido
de
permissão
do
governo
da
Paraíba
para
a
importação
de
100.000
cartuchos
necessários
ao
aparelhamento
de
sua
polícia,
impondo
condições
destinadas
a
inviabilizá-la.
João
Pessoa
denunciaria
a
manobra
tornando
público
o
seguinte
telegrama:
“Essa
exigência,
revele-me
Vossa
Excelência,
é,
bem
sei,
um
embaraço
que
cria
para,
privado
dos
recursos
de
defesa,
seja
eu
forçado
a
entregar
o
estado
a
facínoras
e
salteadores
profissionais
da
espécie
de
Tocha,
Sinhô,
Salviano,
Caixa
de
Fóeforos,
Asa
preta,
Mocinho,
Bode,
Luís
Triângulo,
Possidônio,
Mourão,
José
Fausto,
Augusto
Antas,
José
Soares,
Manoel
Virgolino,
João
Mourão
e
outros,
a
fina
flor
do
cangaço
recrutado
por
José
Pereira”.
Após
as
eleições,
a
maioria
governista
no
Congresso
negou-se
a
diplomar
os
candidatos
apoiados
pelo
governador,
proclamando
como
vitoriosos
os
seus
rivais.
Depois
de
amarrar
as
mãos
do
governo
e
estimular
a
desordem
no
estado,
o
dr.
Washington
Luís
passara
a
ameaçar
a
Paraíba
com
uma
intervenção,
para
restabelecer
a
ordem
pública.
A
atitude
do
governo
federal
havia
produzido
profunda
repulsa
na
opinião
pública
que
apoiava
com
crescente
admiração
a
resistência
de
João
Pessoa.
Armas
e
munições
obtidas
através
de
contribuição
popular
eram
enviadas
ao
pequeno
mas
valente
estado
nordestino
–
conforme
era
carinhosamente
chamado.
Em
Recife,
João
Pessoa
visitou
o
Diário
da
Manhã,
avistando-se
com
seus
correligionários
aliancistas,
Carlos
e
Caio
de
Lima
Cavalcanti.
Em
companhia
do
último,
saiu
para
tomar
sorvete
na
Confeitaria
Glória.
Ali,
às
17h,
foi
baleado
de
surpresa
e
à
queima-roupa
por
três
tiros
desferidos
pelo
advogado
João
Dantas,
que
foi
dominado,
em
seguida,
pelo
motorista
do
governador
assassinado.
Aliado
de
Suassuna
e
José
Pereira,
João
Dantas
já
havia
sido
processado
por
crime
de
morte,
ocorrido
em
função
de
conflitos
coronelísticos
na
cidade
de
Mamanguape,
durante
o
governo
de
Sólon
de
Lucena.
Pouco
antes
de
transferir-se
para
Olinda,
em
Pernambuco,
a
polícia
paraibana
havia
apreendido
em
sua
residência
vários
rifles
e
farta
munição
destinadas
ao
abastecimento
dos
cangaceiros
de
Princesa.
A
alegação
de
que
o
crime
fora
cometido
por
razões
de
ordem
pessoal
não
convenceu
a
população.
A
versão
patrocinada
pela
imprensa
governista
procurava
reduzir
o
assassino
à
condição
de
vítima,
ao
sustentar
que
ele
apenas
reagira
ao
fato
da
polícia
haver
divulgado
cartas
amorosas
apreendidas
na
busca
realizada
em
sua
residência.
Isso
só
fazia
aumentar
a
ira
do
povo,
revoltado
com
a
manobra
pela
qual
se
pretendia
fazer
de
João
Pessoa
o
responsável
por
seu
próprio
assassinato.
Em
Recife,
o
desabafo
do
juiz
de
direito,
dr.
Cunha
Melo,
no
velório
do
mártir,
correu
de
boca
em
boca
até
chegar
às
páginas
dos
jornais:
“Vivo
não
te
venceram.
Morto
não
te
vencerão!”
Juarez
Távora,
que
se
encontrava
na
capital
da
Paraíba,
descreve
o
impacto
inicial
causado
pelo
crime:
“Ao
cair
da
noite,
pude
pressentir,
no
porão
em
que
me
encontrava,
a
fúria
ululante
do
povo,
a
agitar-se,
enraivecido
pelas
ruas.
Dentro
de
poucas
horas
a
cidade
se
transformara
num
pandemônio
de
ódios
e
desesperos
desaçaimados.
Não
demorou
muito
para
que
o
clarão
dos
incêndios
imprimisse
tons
trágicos
à
iluminação
da
capital...”.
A
informação
chegou
a
Porto
Alegre
no
momento
em
que
Osvaldo
Aranha
estava
sendo
homenageado
num
banquete.
Ele
não
se
faz
de
rogado:
Já
que
outros
não
podem
manter
a
ordem
republicana,
frente
aos
desmandos
do
Catete,
a
nós,
rio-grandenses,
cabe
fazê-lo”.
No
distrito
federal,
Lindolfo
Collor
assume
a
tribuna
da
Câmara
para
dizer:
“Caim,
o
que
fizeste
do
teu
irmão?
Presidente
da
República,
o
que
fizeste
do
presidente
da
Paraíba?”.
14.
Preparativos
Finais
O
enterro
de
João
Pessoa,
realizado
no
Rio
de
Janeiro,
foi
acompanhado
por
uma
enorme
multidão
em
ambiente
de
intensa
comoção.
A
capital
da
Paraíba
logo
recebeu
o
seu
nome.
O
estado
ganhou
nova
bandeira,
na
qual
se
inscrevia
o
dístico
NEGO,
evocando
a
altivez
com
que
o
seu
pranteado
filho
respondera
às
pressões
da
poderosa
oligarquia
paulista
para
que
ele
aderisse
à
candidatura
de
Júlio
Prestes.
Tais
acontecimentos
ampliaram
o
isolamento
do
governo.
Em
agosto,
Antônio
Carlos
e
Borges
de
Medeiros
incorporam-se
às
hostes
revolucionárias.
A
11
de
setembro,
Osvaldo
Aranha
deu
por
encerrados
os
preparativos,
entregando
a
Vargas
a
responsabilidade
de
fixar
a
data
para
a
deflagração
do
movimento.
Lindolfo
Collor
é
enviado
ao
Rio
de
Janeiro
para
parlamentar
com
os
generais
Tasso
Fragoso,
Alfredo
Malan
d'Angrogne
e
Andrade
Neves.
A
missão
é
de
amaciamento.
Tratava-se
de
fazer
chegar
aos
altos
mandos
militares
a
idéia
de
que
resistir
à
revolução
seria
uma
atitude
inútil
e
insensata.
Em
25
de
setembro,
Vargas
apresenta
a
Aranha
a
data
escolhida.
A
3
de
outubro,
a
revolução,
com
ramificações
em
todos
os
estados
do
país,
explodiria
principalmente
no
Rio
Grande
do
Sul,
Paraná,
Minas
Gerais,
Paraíba
e
Pernambuco,
convergindo
sobre
São
Paulo,
Bahia
e
Rio
de
Janeiro,
onde
se
esperava
encontrar
maior
resistência.
15.
Colunas
Avançadas
4
e
5
de
outubro.
Vargas
registra
em
seu
diário:
“...
continuam
chegando
notícias
do
avanço
de
nossas
tropas
de
vanguarda
–
leste,
centro
e
oeste
de
Santa
Catarina...
As
notícias
do
Paraná
determinaram-nos
a
acelerar
a
remessa
de
tropas
selecionadas
para
aquela
zona,
a
fim
não
só
de
amparar
os
companheiros,
como
de
apressar
o
desfecho
da
ação
que
se
desenhava
evidente,
pelo
choque
com
as
governo
neste
estado
ou
São
Paulo.
João
Alberto
seguiu,
levando
pequena
força
da
capital
e
recebendo
vários
contingentes
em
sua
passagem
ao
longo
da
via
férrea.
Houve
grande
entusiasmo
no
embarque.Seguiram
cerca
de
quinhentos
homens...”.
Assim
que
a
revolta
eclodiu,
o
território
de
Santa
Catarina
foi
invadido
em
três
pontos
pelos
destacamentos
ligeiros
comandados
por
Miguel
Costa,
pelo
general
maragato
Felipe
Portinho
e
por
Trifino
Correia.
O
primeiro,
seguindo
pela
estrada
de
ferro
Rio
Grande
do
Sul
–
São
Paulo,
havia
transposto
o
rio
Uruguai
em
Marcelino
Ramos
e
depois
de
choques
com
a
Polícia
Militar
de
Santa
Catarina
seguia,
rumo
a
Porto
União
da
Vitória,
na
fronteira
do
Paraná.
O
segundo
transpusera
a
fronteira
gaúcha
na
Serra
de
Erechim
e
incorporara-se
ao
primeiro,
seguindo
para
o
mesmo
destino.
O
terceiro
marchava
pelo
litoral,
sobre
Bragança,
depois
de
haver
ocupado
a
cidade
de
Tubarão.
No
dia
5,
irrompe
a
insurreição
na
capital
paranaense.
O
coronel
Tourinho
e
o
capitão
Amorety
Osório
sublevam
o
9º
Regimento
de
Artilharia
Montada,
de
Curitiba.
Em
seguida
telefonam
ao
governador
Afonso
Camargo
aconselhando-o
a
não
resistir,
pois
iriam
marchar
sobre
o
quartel
da
Polícia
Militar.
Camargo
ordenou
ao
comandante
que
depusesse
armas,
evadindo-se
em
seguida
para
Bom
Jesus
do
Iguape,
São
Paulo.
O
15º
Batalhão
de
Infantaria,
o
5º
Regimento
de
Cavalaria
Divisionária,
ambos
de
Curitiba,
e
o
13º
Regimento
de
Infantaria,
de
Ponta
Grossa,
também
se
integram
à
revolução.
O
coronel
Mário
Tourinho
assume
o
governo
do
estado.
No
mesmo
dia,
parte
do
Rio
Grande
do
Sul
o
primeiro
destacamento
pesado,
composto
por
tropas
das
três
armas,
com
um
efetivo
de
2.800
homens,
sob
o
comando
do
tenente
Alcides
Etchegoyen,
comissionado
no
posto
de
coronel.
João
Alberto,
designado
delegado
militar
da
revolução
nos
estados
de
Santa
Catarina
e
Paraná,
partiria
também
no
dia
5,
acompanhado
pelo
mineiro
Virgílio
Mello
Franco.
As
colunas
avançadas
progridem
aceleradamente.
Penetram
no
Paraná,
onde
recebem
a
adesão
do
1º
Regimento
de
Infantaria
de
Porto
União
e
do
5º
Batalhão
de
Infantaria
de
Palmas.
As
tropas
governistas
de
maior
expressão
permanecem
na
defensiva,
fixadas
na
ilha
de
Florianópolis.
A
6
de
outubro,
Vargas
escreveria:
“Começo
a
fazer
meus
preparativos
a
fim
de
seguir
para
o
teatro
de
operações,
no
Paraná.
Desejo
fazê-lo
porque
esse
é