“Nunca
vi
morte
tão
de
perto
como
na
madrugada
de
hoje”
1.
Antecedentes
2.
Personagens
3.
1º
Plano
Geral
de
Campanha
4.
2º
Plano
Geral
de
Campanha
5.
São
Paulo
em
1924
6.
O
Início
do
Levante
7.
Reação
do
General
Abílio
de
Noronha
8.
A
Disputa
da
Capital
9.
Miguel
Costa
Confronta
Isidoro
10.
Acordo
com
a
Associação
Comercial
e
a
Prefeitura
11.
Chuva
de
Bombas
sobre
São
Paulo
12.
A
Intensificação
do
Bombardeio
13.
A
Morte
de
Joaquim
Távora
14.
Batalhões
Patrióticos
15.
Aviação
Ataca
São
Paulo
16.
Condições
de
Paz
17.
Revoltosos
Derrotam
Tanques
18.
Mais
Destruição
19.
Com
o
Dr.
Carlos
de
Campos
em
Guaiaúna
20.
A
Retirada
Estratégica
21.
Epílogo
1.
Antecedentes
A
marcha
heróica
dos
18
do
Forte,
arremetendo
contra
4.000
mil
soldados
da
força
governista,
encerrara
a
primeira
Revolução
Tenentista
ocorrida
nos
estados
do
Rio
de
Janeiro
e
Mato
Grosso,
em
5
de
julho
de
1922.
Dois
anos
depois,
mais
experientes
e
mais
fortalecidos,
os
tenentes
voltariam
à
carga,
retomando
a
ofensiva.
Desta
vez
o
centro
do
levante
seria
a
cidade
de
São
Paulo.
A
oligarquia
cafeeira
que
assumira
o
controle
da
República,
com
Prudente
de
Moraes,
em
1894,
não
teria
mais
condições
de
exercer
tranqüilamente
o
seu
poder
autocrático.
Seguidamente
contestada
pelos
movimentos
cívico-militares,
seria
apeada
do
poder
em
1930,
levando
de
roldão
o
império
da
fraude
eleitoral,
do
boicote
à
industrialização,
da
manutenção
artificial
dos
lucros
do
café,
da
afrontosa
submissão
aos
interesses
do
imperialismo
inglês.
As
articulações
entre
militares
e
civis,
para
a
Revolução
de
1924,
começaram
no
primeiro
semestre
do
ano
anterior.
Estimulados
pela
adesão
do
ex-presidente
Nilo
Peçanha,
e
empurrados
pela
perseguição
do
recém-empossado
governo
federal,
os
tenentes
tecem
as
malhas
de
uma
vasta
conspiração,
envolvendo
principalmente
os
estados
de
São
Paulo,
Rio
Grande
do
Sul,
Santa
Catarina,
Paraná,
Mato
Grosso,
o
Sul
de
Minas
Gerais
e
o
Rio
de
Janeiro.
Nos
últimos
meses
de
1923,
o
capitão
Joaquim
Távora
assume
de
forma
incansável
o
comando
das
articulações.
Estabelece
contato
com
oficiais
sediados
no
Sul,
e
percorre
todas
as
unidades
do
interior
de
São
Paulo,
Mato
Grosso
e
Rio
de
Janeiro.
Távora
havia
participado
do
levante
de
1922,
no
estado
do
Mato
Grosso.
O
tenente
João
Alberto,
que
o
conhecera
na
prisão,
onde
conviveram
de
julho
a
dezembro
daquele
ano,
assim
o
descreveu:
“Alto
de
porte,
calva
à
mostra,
juntava
o
vigor
físico
à
bravura
moral...
Socialista
ardoroso,
explicava-nos
os
acontecimentos
políticos
à
luz
da
economia.
Já
preparava,
nessa
época,
a
próxima
revolução”.
2.
Personagens
Em
São
Paulo,
Joaquim
Távora
fora
morar
na
casa
do
Tenente
Custódio
de
Oliveira,
do
2º
Grupo
Independente
de
Artilharia
Pesada,
de
Quitaúna.
Transformada
em
autêntico
quartel-general
revolucionário,
a
residência
da
Rua
Vauthier,
número
27,
sediava
as
reuniões
dos
líderes
do
levante.
Freqüentavam-na
o
major
Miguel
Costa,
do
Regimento
de
Cavalaria
da
Polícia
Militar
-
denominada,
na
época,
Força
Pública
Paulista
-,
e
diversos
oficiais
do
Exército
que
serviam
em
unidades
sediadas
em
São
Paulo
como
o
major
Cabral
Velho
(fiscal
do
6o
Regimento
de
Infantaria,
de
Caçapava),
o
capitão
Newton
Estilac
Leal
(chefe
de
material
bélico
da
2ª
Região
Militar),
os
tenentes
Asdrúbal
Gwyer
e
Castro
Afilhado
-
ambos
do
4o
Batalhão
de
Caçadores,
situado
no
bairro
de
Santana.
Outro
aparelho
utilizado
para
discussões
sobre
os
planos
revolucionários
era
a
residência
dos
tenentes
Ricardo
Holl
e
Vítor
César
da
Cunha
Cruz,
na
Travessa
da
Fábrica,
número
6.
A
exemplo
de
Joaquim
Távora,
ambos
haviam
se
transferido
para
São
Paulo.
Outros
militares
que
também
se
encontravam
fora
da
tropa,
em
virtude
dos
processos
judiciais
originados
pelo
levante
de
1922,
tomaram
opção
idêntica,
visando
fortalecer
o
comando
revolucionário.
Entre
eles,
figuram
os
tenentes
Joaquim
Nunes
de
Carvalho,
Otávio
Guimarães,
Eduardo
Gomes,
Juarez
Távora
–
irmão
mais
novo
de
Joaquim
–
e
os
ex-alunos
da
Escola
Militar
de
Realengo,
Emídio
da
Costa
Miranda
e
Diogo
Figueiredo
Moreira
Jr.
A
escolha
de
um
militar
de
alta
patente,
que
assumisse
publicamente
o
comando
das
operações
no
momento
da
deflagração
do
levante,
era
considerada
pelos
revolucionários
um
elemento
estratégico
indispensável
ao
êxito
do
movimento.
Fixaram-se
em
Isidoro
Dias
Lopes,
general
do
Exército,
reformado,
que
mantinha
conversações
com
o
ex-presidente
Nilo
Peçanha,
desde
1923.
3.
1º
Plano
Geral
de
Campanha
O
primeiro
Plano
Geral
de
Campanha,
elaborado
por
Joaquim
Távora,
pretendia
antecipar-se
ao
golpe
preparado
pelo
governo
federal
contra
J.J.
Seabra,
que
procurava
manter
o
controle
sobre
o
governo
da
Bahia
apoiando
Raul
de
Leoni
à
sua
sucessão.
Seabra
era
o
governador
do
estado
–
na
época,
o
termo
era
presidente
do
estado.
Fora
candidato
à
vice-presidência
da
República,
em
1922,
na
chapa
encabeçada
por
Nilo
Peçanha
contra
o
candidato
situacionista
Artur
Bernardes.
A
luta
para
impedir
a
vitória
e,
em
seguida,
a
posse
de
Bernardes,
resultado
de
um
processo
eleitoral
estruturalmente
fraudulento,
fora
o
estopim
da
Revolução
de
1922.
Segundo
o
plano,
o
movimento
deveria
ser
deflagrado
no
dia
28
de
março,
com
início
simultâneo
no
Rio
Grande
do
Sul,
Santa
Catarina,
Paraná,
São
Paulo
e
Sul
de
Minas,
podendo,
em
seguida,
receber
o
apoio
de
elementos
das
guarnições
do
Rio
de
Janeiro,
Mato
Grosso
e
Goiás.
O
núcleo
principal
era
a
cidade
de
São
Paulo.
As
guarnições
do
Exército,
circunvizinhas
da
capital,
em
ação
conjugada
com
elementos
da
Polícia
Militar,
a
tomariam,
enquanto
os
corpos
de
tropa
aquartelados
no
Vale
do
Paraíba,
reforçados
por
elementos
vindos
do
Sul
de
Minas,
avançariam
até
Cruzeiro,
abrindo
as
portas
para
a
invasão
do
Rio
de
Janeiro.
Às
forças
paulistas
caberia
também
a
missão
de
barrar,
na
costa
Leste
da
Serra
do
Mar,
a
progressão
das
unidades
contra-revolucionárias,
partidas
de
Santos.
A
rebelião
no
Rio
Grande
do
Sul,
Santa
Catarina
e
Paraná
visava,
principalmente,
impedir
que
o
contingente
situado
em
Porto
Alegre
marchasse
contra
São
Paulo
ou
que
o
mesmo
fosse
feito
por
elementos
desembarcados
em
Paranaguá
e
São
Francisco.
O
principal
fator
que
bloqueou
e
adiou
sine
die
a
execução
do
projeto
foi
o
que
Juarez
Távora
denominou,
diplomaticamente,
de
“resistência
passiva
de
um
dos
conspiradores
mais
graduados
e
influentes
entre
as
guarnições
comprometidas”.
Na
verdade,
a
defecção
do
major
Bertoldo
Klinger
O
mês
de
março,
conta
ainda
Juarez,
“findava,
assim,
com
uma
rajada
de
desalentos”.
Klinger
desertara,
Seabra
fora
humilhado
e
forçado
a
abandonar
o
governo
da
Bahia,
um
dia
antes
de
expirar
seu
mandato.
Quase
simultaneamente,
se
apagava
do
cenário
nacional
o
vulto
estimulador
de
Nilo
Peçanha.
Morto
em
31
de
março
de
1924,
Nilo
foi
enterrado
levando
sobre
o
seu
coração
um
dos
pedaços
do
pavilhão
do
Forte
Copacabana,
que
o
tenente
Siqueira
Campos
havia
dividido
em
29
partes
para
que
cada
combatente
pudesse
tê-lo
consigo
no
momento
final
da
luta.
Nilo
não
apoiara
a
insurreição
de
1922,
porém,
logo
no
momento
seguinte,
desdobrou-se
na
defesa
política
e
jurídica
dos
revoltosos,
radicalizando
paulatinamente
suas
posições.
4.
2º
Plano
Geral
de
Campanha
Mas
os
reveses
não
desanimaram
os
tenentes.
Joaquim
Távora
trabalha
com
energia
redobrada.
No
início
do
mês
de
maio,
já
está
pronto
o
novo
plano
para
a
deflagração
do
movimento
revolucionário.
Ao
invés
do
levante
simultâneo
de
unidades
militares
em
diversos
estados,
como
projetado
anteriormente,
a
ação
deveria
iniciar-se
pela
tomada
da
cidade
de
São
Paulo.
As
demais
guarnições
do
Estado
incorporar-se-iam
num
segundo
momento.
As
do
Paraná,
Santa
Catarina,
Rio
Grande
do
Sul
e
Minas
Gerais
só
revelariam
sua
adesão
à
revolução
na
medida
em
que
fossem
enviadas
para
combatê-la.
A
primeira
parte
do
plano,
execução
do
levante
em
São
Paulo,
foi
preparada
em
dois
tempos:
1º
-
assédio
e
assalto
do
bloco
de
quartéis
policiais
da
Luz
(1º,
2º
e
4º
Batalhão
de
Infantaria,
Corpo
Escola,
Cadeia
Pública
e
Regimento
de
Cavalaria
–
este
previamente
comprometido
com
a
revolução).
A
ação
seria
executada
pelo
4º
Batalhão
de
Caçadores
e
pelo
Regimento
de
Cavalaria,
com
apoio
de
fogo
do
2º
Grupo
de
Artilharia
Pesada,
de
Quitaúna.
Isso
conseguido,
ocupar-se-iam
as
estações
ferroviárias,
o
telégrafo
e
a
telefônica.
2º
-
o
assalto
dos
demais
bastiões
da
defesa
governista,
localizados
em
vários
pontos
da
cidade
–
3º
e
5º
Batalhão
de
Infantaria
da
Polícia
Militar,
Corpo
de
Bombeiros,
Secretaria
de
Justiça,
Palácio
do
Estado
e
Quartel-General
da
Guarda
Cívica.
A
ação
seria
realizada
por
patrulhas
do
4º
Regimento
de
Infantaria,
transportadas
de
Quitaúna
para
São
Paulo
em
automóveis.
A
segunda
parte
do
plano,
defesa
e
ampliação
das
posições
conquistadas,
seria
iniciada
antes
do
amanhecer
do
dia
5
de
julho.
O
capitão
Joaquim
Távora
avançaria
com
500
homens,
pela
Estrada
de
Ferro
Central
do
Brasil,
em
direção
a
Barra
do
Piraí
(RJ),
incorporando
durante
a
marcha
os
efetivos
de
unidades
do
Exército
já
comprometidas
com
o
movimento.
Outro
destacamento
seguiria
para
Santos,
através
da
São
Paulo
Railway,
a
fim
de
ocupar
o
Porto.
Se
a
cidade
não
pudesse
ser
ocupada,
os
revolucionários
abririam
trincheiras
na
Serra
do
Mar,
para
barrar
a
progressão
de
tropas
vindas
do
litoral
contra
São
Paulo.
Esperava-se
que
uma
vez
ocupada
a
capital
paulista,
bloqueado
um
ataque
governista
mediante
desembarque
de
tropas
em
Santos,
e
aberto
o
Vale
do
Paraíba
à
ofensiva
das
tropas
revolucionárias
sobre
o
Rio,
seria
quase
certa
a
adesão
das
unidades
do
Exército
enviadas
de
outras
guarnições
para
combatê-las.
Concluído
o
plano,
Joaquim
Távora
dirigiu-se
ao
Rio,
para
apresentá-lo
ao
general
Isidoro.
Este
aceitou-o
sem
ressalvas.
A
data
da
deflagração
do
movimento
foi
fixada
inicialmente
para
o
dia
28
de
maio,
depois
26
de
junho
e,
finalmente,
zero
hora
de
5
de
julho
de
1924.
5.
São
Paulo
em
1924
Embora
a
escolha
de
São
Paulo
como
centro
do
levante
tenha
se
dado
principalmente
pela
avaliação
da
correlação
de
forças
no
terreno
militar,
o
ambiente
de
descontentamento
que
predominava
entre
os
700
mil
habitantes
da
cidade
não
escapava
à
percepção
dos
revolucionários.
Três
questões
políticas
galvanizavam
as
atenções,
no
primeiro
semestre
daquele
ano.
A
truculência
empregada
por
Washington
Luís,
para
fazer
de
Carlos
de
Campos
seu
sucessor
no
governo
do
estado.
As
greves
operárias
provocadas
pela
carestia,
ocorrida
em
função
da
alta
artificial
dos
preços
do
café.
Os
objetivos
da
Missão
Inglesa
que,
antecipando
as
do
FMI,
promovia,
com
o
beneplácito
do
governo,
minuciosa
inspeção
na
economia
nacional.
A
ação
de
Washington
Luís
forçando
o
PRP
(Partido
Republicano
Paulista)
a
recuar
da
indicação
da
candidatura
do
senador
Álvaro
de
Carvalho,
primeiro
para
o
governo
e
depois
para
o
senado,
provocara,
em
22
de
janeiro,
o
desligamento
de
Altino
Arantes,
governador
no
período
1916-1920,
e
o
surgimento
do
grupo
dissidente
denominado
Os
Coligados,
do
qual
se
aproxima
Júlio
de
Mesquita,
com
seu
jornal
O
Estado
de
São
Paulo.
No
final
do
mês
de
janeiro
tem
início
também
uma
greve
na
maior
indústria
têxtil
da
cidade,
o
Cotonifício
Rodolfo
Crespi.
Pressionados
pela
carestia,
os
trabalhadores
reivindicam
40%
de
reajuste
salarial.
A
paralisação
se
alastra
por
todo
o
setor,
envolvendo
12.000
operários
durante
várias
semanas.
Violências,
perseguições,
prisões,
deportações
e
um
aumento
de
10%
são
o
resultado
do
movimento.
Porém
a
discussão
sobre
as
causas
e
soluções
para
o
problema
da
carestia
não
cessam
com
o
seu
encerramento.
No
dia
29
de
junho,
ultrapassando
as
piores
expectativas
dos
que
desde
a
sua
chegada,
em
dezembro
de
1923,
denunciavam
a
humilhante
ingerência,
a
Missão
Inglesa
publica
um
relatório
no
qual
recomenda
a
privatização
do
Banco
do
Brasil,
do
Lloyd
e
da
Estrada
de
Ferro
Central
do
Brasil,
ou
seja,
de
todas
as
estatais
dos
anos
20.
Para
renegociar
a
dívida
e
conceder
novos
empréstimos,
a
missão
cobrava
também
do
governo
um
rígido
arrocho
fiscal
e
medidas
que
favorecessem
o
ingresso
de
capitais
externos,
considerados
indispensáveis
ao
desenvolvimento
do
país
–
antigo
filme
que
viria
a
ser
reprisado
inúmeras
vezes,
sempre
apresentado
como
a
última
palavra
em
matéria
de
modernidade.
6.
O
Início
do
Levante
Um
atraso
de
doze
horas
na
chegada
do
general
Isidoro
impediu
que
a
segunda
parte
do
levante
transcorresse
conforme
o
plano
estabelecido.
Porém,
a
primeira
-
a
mais
importante
–,
embora
só
iniciada
por
volta
das
cinco
horas
da
manhã,
estava
praticamente
concluída,
sem
incidentes,
em
pouco
mais
de
quarenta
minutos,
ao
clarear
do
dia
5.
Isidoro
havia
se
comprometido
a
chegar,
em
São
Paulo,
na
manhã
do
dia
4.
O
local
marcado
para
o
encontro
era
a
estação
da
Luz.
No
entanto,
na
última
hora,
decidiu
saltar
na
estação
do
Brás,
provocando
os
desencontros
e
atrasos
que
prejudicariam
a
execução
das
operações.
Só
às
três
e
meia
da
manhã,
Joaquim
Távora
consegue
chegar
ao
4º
Batalhão
de
Caçadores,
de
Santana,
encontrando
a
tropa
já
rebelada
pelo
trabalho
de
persuasão
realizado
pelo
capitão
Newton
Estilac
e
os
tenentes
Asdrúbal
Gwyer
e
Castro
Afilhado.
Uma
hora
depois,
armada
e
municiada,
a
força
marchou
reunida
até
a
Ponte
Pequena,
onde
se
separaram
as
diversas
patrulhas
de
assalto
aos
quartéis
da
Luz.
Às
cinco
horas
da
manhã
completou-se
o
cerco
dessas
casernas.
O
Regimento
de
Cavalaria,
comandado
pelo
major
Miguel
Costa,
foi
o
primeiro
a
soar
o
toque
de
formatura,
sinal
de
adesão
à
causa
revolucionária.
Enquanto
isso,
Índio
do
Brasil
e
Castro
Afilhado
penetram
no
4º
Batalhão
de
Infantaria;
Estilac
Leal
e
Thales
Marcondes
no
2º;
Eduardo
Gomes
e
João
Batista
Nitrini
no
1º;
Asdrúbal
Gwyer
e
Arlindo
de
Oliveira
no
Corpo
Escola.
Sem
que
tenha
sido
preciso
o
disparo
de
um
só
tiro,
a
bandeira
da
revolução
tremulava
triunfante
sobre
o
principal
reduto
governista.
No
entanto,
seis
núcleos
da
defesa
governamental
–
3º
e
5º
Batalhão
de
Infantaria
da
Polícia
Militar,
Corpo
de
Bombeiros,
Guarda
Cívica,
Secretaria
da
Justiça
e
Palácio
do
Estado
–
não
puderam
ser
atacados
em
virtude
do
desencontro
entre
as
forças
do
tenente
Juarez
Távora
e
o
tenente
Custódio
de
Oliveira,
o
que
retardou
a
tomada
do
4º
Regimento
de
Infantaria,
de
Quitaúna,
base
de
onde
partiriam
tais
ataques.
Assim,
ao
amanhecer
os
revolucionários
ainda
não
haviam
logrado
apoderar-se
da
cidade.
Mas
seus
efetivos
contavam
1.500
homens,
100
automáticas,
2
milhões
e
500
mil
cartuchos
e
as
baterias
do
Grupo
de
Artilharia
Pesada
de
Quitaúna,
ocupando
posição
no
Campo
de
Marte.
O
efetivo
do
governo
não
chegava
a
1.000
homens,
sem
artilharia
e
sem
cavalaria.
7.
Reação
do
General
Abílio
de
Noronha
Alertado
da
eclosão
do
movimento
pelo
Capitão
Grimualdo
Fávila,
o
general
Abílio
de
Noronha,
comandante
da
2ª
Região
Militar,
que
passara
a
noite
no
Hotel
Esplanada,
participando
dos
festejos
do
Independence
Day,
promovidos
pelo
consulado
norte-americano,
dirigiu-se,
na
manhã
do
dia
5,
ainda
insone,
ao
recém-sublevado
quartel
do
4º
Batalhão
de
Caçadores.
Como
os
oficiais
revolucionários
haviam
se
deslocado
para
o
Centro,
não
foi
difícil
ao
general
retomar
o
quartel.
Com
os
elementos
que
lá
encontrou
organizou
uma
força
e
marchou
rumo
aos
quartéis
da
Luz.
Chegando
ao
4º
Batalhão
de
Infantaria,
cuja
maior
parte
da
tropa
também
já
se
encontrava
em
missões
fora
do
quartel,
tomou-o
e
reintegrou
no
comando
os
oficiais
que
haviam
sido
presos
pelos
revolucionários.
Dali
seguiu
para
o
Corpo
Escola,
onde
tentou
fazer
o
mesmo,
mas
foi
barrado
pelo
capitão
Joaquim
Távora
que
lhe
deu
voz
de
prisão.
Houve
troca
de
palavras
ásperas
que
só
cessou
com
a
chegada
providencial
do
general
Isidoro
e
do
coronel
João
Francisco,
a
cuja
ordem
de
prisão
acabaram
se
submetendo
o
general
Abílio
e
os
oficiais
de
seu
séqüito.
Aí
terminou
a
ação
contra-revolucionária
do
comandante
da
2ª
Região
Militar,
mas
não
os
seus
efeitos.
Desconhecendo
o
que
ocorrera
no
4º
Batalhão
de
Infantaria,
para
lá
se
dirige
Joaquim
Távora,
seguido
dos
tenentes
Juarez
Távora,
Castro
Afilhado
e
do
capitão
Índio
do
Brasil.
São
presos
e
sumariamente
condenados
à
morte
por
fuzilamento,
pelo
secretário
de
Justiça
Bento
Bueno.
Mas
acabam
libertados
na
tarde
do
dia
10,
após
o
abandono
da
cidade
pelas
tropas
do
governo.
Na
mesma
ocasião
foi
libertada
a
aviadora
Anésia
Pinheiro
Machado,
também
detida
na
unidade
por
haver
lançado
flores
e
panfletos
sobre
a
cidade
no
início
da
rebelião.
Com
a
prisão
de
Joaquim
Távora,
a
estratégica
descida
do
Vale
do
Paraíba,
em
direção
a
Barra
do
Piraí,
que
deveria
iniciar-se
na
manhã
do
dia
5,
sob
seu
comando,
foi
sendo
adiada
e
acabou
suspensa.
O
prolongamento
da
luta
pelo
controle
da
capital
provocaria
outras
alterações
nos
planos
revolucionários.
8.
A
Disputa
da
Capital
Na
noite
de
5
de
julho
começa
a
definir-se
a
linha
de
contato
das
tropas
adversárias.
No
Centro,
as
estações
da
Luz
e
Sorocabana,
sob
comando
do
tenente
João
Cabanas,
da
Polícia
Militar;
o
hotel
Terminus
sob
o
comando
de
Estilac
Leal;
a
estação
do
Brás
sob
o
comando
do
tenente
Arlindo
de
Oliveira;
a
da
Cantareira
comandada
pelo
tenente
Eduardo
Gomes;
e,
no
flanco
esquerdo,
o
4º
Batalhão
de
Caçadores,
retomado
pelo
tenente
Gwyer
de
Azevedo.
Os
dias
6
e
7
são
marcados
por
intensos
combates.
Forças
federais
penetram
na
cidade
visando
um
contra-ataque.
Três
dessas
unidades
aderem
à
revolução:
o
2º
Grupo
de
Artilharia
da
Montanha,
vindo
de
Jundiaí,
o
6º
Regimento
de
Infantaria,
de
Caçapava,
sob
o
comando
do
major
Cabral
Velho,
e
uma
companhia
do
5º
Regimento
de
Infantaria,
de
Lorena,
sob
o
comando
do
tenente
Azhaury
de
Sá
Brito
e
Sousa.
O
efetivo
que
passa
para
o
lado
dos
revoltosos,
com
essas
adesões,
é
superior
aos
reforços
governistas
chegados
de
Santos
e
Pirassununga
–
400
marinheiros,
com
uma
seção
de
canhões
Armstrong,
75;
o
3º
Grupo
de
Artilharia
de
Costa,
com
uma
bateria
Krupp,
75;
e
200
homens
do
2º
Regimento
de
Cavalaria
Divisionária.
Essas
forças
realizam
um
bombardeio
de
pouca
eficácia
sobre
o
quartel-general
das
forças
revolucionárias,
instalado
na
região
da
Luz,
e
tentam
um
avanço
ao
longo
do
Tamanduateí.
A
ação
é
repelida.
Seus
executores
são
forçados
a
entrincheirar-se
na
usina
da
Light,
da
Rua
Paula
Sousa.
Os
ataques
dos
revoltosos
ao
Palácio
dos
Campos
Elísios,
onde
o
governador
Carlos
de
Campos
mantinha
a
sede
do
governo,
foram
todos
rechaçados,
nos
dias
5
e
6
de
julho.
Porém,
durante
a
madrugada
do
dia
7,
os
rebeldes
penetram
silenciosamente
nos
palacetes
abandonados
pelos
moradores,
nas
imediações
do
Palácio.
A
partir
de
posições
bem
protegidas,
nos
forros
dos
telhados,
desatam
intensa
fuzilaria
sobre
as
forças
governistas.
Pegas
de
surpresa,
as
tropas
abandonam
as
barricadas
em
atropelo
e
são
obrigadas
a
permanecer
acuadas,
dentro
do
prédio.
O
governador
decide
então
transferir-se,
sigilosamente,
para
a
Secretaria
da
Justiça,
no
Largo
do
Tesouro.
Mas
o
edifício,
devido
a
sua
posição
elevada,
se
constituía
num
excelente
alvo
para
a
artilharia
revolucionária
que,
mesmo
sem
conhecimento
de
tão
ilustre
presença,
atacou-o
com
rara
eficácia.
Carlos
de
Campos,
quase
atingido
pelas
granadas,
decide,
então,
retirar-se
com
seus
auxiliares
imediatos
para
a
localidade
de
Mogi
das
Cruzes
e
dali
para
Guaiaúna
–
nas
proximidades
da
estação
de
Vila
Matilde,
situada,
na
época,
nos
limites
da
capital.
A
fuga
foi
efetuada
no
dia
8
de
julho.
Os
revolucionários,
porém,
só
tomaram
conhecimento
do
fato
na
manhã
seguinte.
9.
Miguel
Costa
Confronta
Isidoro
A
luta
ininterrupta
travada
dia
e
noite
dentro
da
capital
paulista,
desde
o
amanhecer
de
5
de
julho,
se
constitui
num
verdadeiro
teste
para
os
nervos
dos
dois
adversários.
Desconhecendo
a
fuga
do
governador,
o
general
Isidoro,
na
noite
do
dia
8,
comunica
sua
decisão
de
abandonar
a
cidade
e
concentrar
as
tropas
revolucionárias
em
Jundiaí.
Para
lá
deveriam
marchar
também
o
4º
Regimento
de
Artilharia
da
Montanha,
de
Itu,
e
o
5º
Batalhão
de
Caçadores,
guarnições
que
haviam
aderido
à
revolução
e
estavam
aquarteladas
em
Rio
Claro.
O
major
Miguel
Costa
se
insurge
contra
a
decisão.
Não
vê
sentido
numa
retirada
quando
as
possibilidades
de
vitória
ainda
eram
promissoras.
Não
aceita
que
se
deixe
para
trás,
na
prisão,
sob
ameaça
de
execução
sumária,
o
principal
organizador
do
movimento,
o
capitão
Joaquim
Távora.
Considera
que
a
retirada
naquele
momento
seria
um
golpe
fatal
no
moral
das
tropas
e
provocaria
a
desagregação
das
forças
revolucionárias.
Declara
que
as
unidades
da
Polícia
Militar,
sob
seu
comando,
não
acatariam
a
ordem
e
prosseguiriam
em
suas
posições,
dentro
da
cidade.
Isidoro
retira-se
do
quartel-general
abalado,
mas
mantendo
a
decisão
de
promover
a
retirada
na
manhã
do
dia
seguinte.
Miguel
Costa
foi
o
primeiro
a
tomar
conhecimento
da
fuga
de
Carlos
de
Campos
e
do
conseqüente
colapso
das
forças
governistas,
ocorrido
na
madrugada
do
dia
9.
Prontamente
pediu
ao
tenente
Simas
Enéas,
assistente
de
Isidoro,
que
fosse
procurá-lo
para
que
se
reconciliassem.
A
divergência
estava
superada.
São
Paulo
fora
conquistada.
10.
Acordo
com
a
Associação
Comercial
e
a
Prefeitura
Os
dias
9
e
10
de
julho
transcorrem
em
relativa
tranqüilidade.
As
forças
revolucionárias
contêm
rapidamente
a
onda
de
saques
iniciada
com
a
fuga
das
autoridades
governamentais
e
realizam
entendimentos
com
a
Associação
Comercial
e
a
Prefeitura
de
São
Paulo.
A
Associação
Comercial,
presidida
por
José
Carlos
de
Macedo
Soares,
representava
os
grandes
industriais
e
comerciantes
paulistas.
No
dia
7
de
julho,
havia
publicado
manifesto
de
apoio
a
Carlos
de
Campos,
que
conclui
com
as
seguintes
palavras:
“A
Associação
Comercial
de
São
Paulo
aconselha
às
classes
conservadoras
que
acompanhem
com
a
máxima
simpatia
e
apoio
a
heróica
resistência
que
vem
desenvolvendo
o
governo
do
Estado.
E
se
mantenham
confiantes
na
ação
resoluta
do
presidente
Carlos
de
Campos”.
Mas,
considerando
a
retirada
do
governador
para
Guaiaúna
e
a
impossibilidade
das
empresas
das
ditas
classes
conservadoras
seguirem
o
mesmo
caminho,
acharam
estas
prudente
reconhecer
a
situação
de
fato,
criada
pela
conquista
revolucionária
da
cidade.
As
principais
decisões
que
emergiram
dessas
conversações
foram
a
manutenção
do
prefeito
Firmino
Pinto
no
cargo
e
a
assinatura
do
Ato
2424,
criando
a
Guarda
Municipal
–
uma
força
desarmada,
organizada
pela
Prefeitura,
destacada
para
apoiar
o
policiamento
da
cidade.
Em
boletim
datado
do
dia
10,
o
doutor
Firmino
Pinto,
prefeito
da
capital,
apresenta
o
seu
ponto
de
vista
sobre
a
questão:
“O
prefeito
de
São
Paulo,
diante
da
situação
de
fato,
de
ter
sido
tomada
a
cidade
pelas
forças
revolucionárias,
foi
pessoalmente
à
presença
de
seu
chefe
responsabilizá-lo
pelo
serviço
de
policiamento
e
abastecimento
desta
capital.
Tendo
o
chefe
dos
revolucionários
declarado
que
não
embaraçaria
a
atuação
da
autoridade
municipal,
o
prefeito
continuará
no
seu
posto
a
tomar
as
providências
que
se
tornem
necessárias”.
No
mesmo
dia,
os
jornais
publicam
com
destaque
o
Comunicado
dos
Chefes
do
Movimento
Revolucionário,
sinal
de
que
a
imprensa
também
mudara
o
tom
em
relação
ao
levante.
11.
Chuva
de
Bombas
sobre
São
Paulo
Mas
a
paz
terminaria
no
dia
seguinte,
11
de
julho,
quando
os
700.000
habitantes
de
São
Paulo
assistem
estarrecidos
o
início
do
capítulo
mais
negro
da
história
da
cidade.
Os
bairros
do
Brás,
Belenzinho,
Mooca
e
o
Centro
começavam
a
sofrer
tremendo
bombardeio.
Seguidamente
os
obuses
e
granadas
de
vários
calibres
varavam
casas
pobres,
matando,
ferindo,
destruindo,
apavorando.
Os
moradores
dessas
zonas
atingidas,
acometidos
de
pânico,
juntavam
o
que
podiam
e
se
retiravam
sem
rumo
certo,
invadindo
outros
bairros
em
busca
de
abrigo
e
socorro.
Francisca
Spinelli,
moradora
de
um
dos
bairros
atingidos,
em
carta
à
amiga
Leopoldina
Ferreira,
de
Piracicaba,
revela
a
angústia
e
a
perplexidade
da
população
frente
à
violência
do
choque:
“Nunca
vi
a
morte
tão
de
perto
como
na
madrugada
de
hoje...
As
balas
passam
sobre
as
nossas
cabeças
assobiando
terrivelmente.
Espera-se
a
todo
momento
ser-se
vítima
de
uma
dessas
monstruosas
granadas.
Já
morreram
diversas
pessoas
aqui
na
rua
e
aqui
ficam,
sem
o
auxílio
de
ninguém...
Temos
nos
escondido
no
porão”...
A
ação
causa
centenas
de
baixas
civis
e
nenhuma
baixa
militar.
Há
uma
multidão
de
feridos
e
desabrigados.
A
Associação
Comercial
lança
um
dramático
apelo:
“O
canhoneio
de
ontem,
tendo
alarmado
a
população
desta
capital,
determinou
o
êxodo
dos
moradores...
fazendo
com
que
dezenas
de
milhares
de
pessoas
abandonassem
seus
lares...
A
Associação
Comercial
de
São
Paulo
pede
aos
habitantes
desta
generosa
cidade
que
recebam
em
suas
casas,
na
medida
de
suas
forças,
as
mulheres
velhos
e
crianças
desamparadas”.
O
arcebispo
Metropolitano
D.
Duarte
Leopoldo
da
Silva
mandou
franquear
igrejas,
cedeu
conventos,
escolas,
casas
e
paróquias,
para
a
abertura
de
hospitais.
No
próprio
dia
12,
é
criada
uma
comissão
para
pedir
a
intervenção
do
governo
federal
a
fim
de
cessar
o
bombardeio.
A
comissão
é
composta
pelo
arcebispo
D.
Duarte;
o
prefeito
Firmino
Pinto;
o
presidente
da
Liga
Nacionalista,
Vergueiro
Steidel;
o
diretor
do
jornal
O
Estado
de
São
Paulo,
Júlio
Mesquita;
e
José
Carlos
de
Macedo
Soares.
Prontamente
telegrafam
ao
Ilustre
Presidente
da
República,
dr.
Artur
Bernardes:
“Pedimos
V.
Excia.
intervenção
caridosa
para
fazer
cessar
bombardeio
contra
inerme
cidade
de
São
Paulo,
uma
vez
que
as
forças
revolucionárias
se
comprometem
a
não
usar
seus
canhões
em
prejuízo
da
cidade.
A
comissão
não
tem
intuito
algum
político,
mas
exclusivamente
a
compaixão
pela
população
paulista”.
A
resposta
vem
assinada
pelo
ministro
da
Guerra,
general
Setembrino
de
Carvalho,
diz:
”...não
é
possível
assumir
nenhum
compromisso
nesse
sentido.
Não
podemos
fazer
a
guerra
tolhidos
do
dever
de
não
nos
servirmos
da
artilharia
contra
o
inimigo...
Os
danos
materiais
podem
ser
facilmente
reparados,
mormente
quando
se
trata
de
uma
cidade
servida
pela
fecunda
atividade
de
um
povo
laborioso.
Mas
os
prejuízos
morais,
esses
não
são
suscetíveis
de
reparação”.
Carlos
de
Campos,
em
mensagem
à
Câmara
de
Deputados,
é
ainda
mais
explícito
e
enfático:
“Estou
certo
de
que
São
Paulo
prefere
ver
destruída
sua
formosa
capital
antes
que
destruída
a
legalidade
no
Brasil!”.
Na
verdade,
a
oligarquia
cafeeira,
ao
concluir
que
iria
perder
a
sua
capital
para
os
revolucionários,
decidiu
sacrificá-la.
Ao
mesmo
tempo
em
que
comandou
a
retirada
de
Carlos
de
Campos,
fez
gestões
junto
ao
governo
federal
para
que
o
bombardeio
fosse
iniciado
imediatamente.
Washington
Luís
e
o
vice-governador,
coronel
Fernando
Prestes,
bancavam
o
jogo
nos
bastidores.
Carlos
de
Campos,
ex-líder
do
governo
na
Câmara
Federal,
havia
sido
o
principal
articulador
da
candidatura
Bernardes.
Washington
Luís
foi
quem
garantiu
a
sua
posse
na
presidência
da
República,
em
1922,
quando
o
próprio
Epitácio
Pessoa
pregava
“a
desistência
do
Bernardes”
como
“solução”
para
a
crise.
Este
não
se
encontrava
em
condições
de
negar-lhes
nada.
O
bombardeio
prossegue
quase
ininterruptamente,
à
razão
de
130
disparos
por
hora.
As
descrições
encontradas
em
relatos
da
época
são
impressionantes:
“No
Cemitério
Municipal,
onde
centenas
de
pessoas
vagam
como
zumbis
a
procura
de
desaparecidos,
64
corpos
não
identificados
aguardam
os
coveiros,
para
serem
enterrados
em
covas
rasas.
Cerca
de
200
mortos
anônimos
se
amontoam
também
numa
baixada
do
Cemitério
do
Araxá
a
espera
de
sepultamento...
Alguns
corpos,
há
mais
de
24
horas
insepultos,
são
enterrados
sem
as
formalidades
legais
até
mesmo
em
terrenos
descampados.
Muitas
famílias
sepultam
os
seus
mortos
em
quintais”.
Nova
tentativa
de
suspender
o
bombardeio,
feita
no
dia
seguinte,
13
de
julho,
por
uma
delegação
dos
representantes
diplomáticos
sediados
em
São
Paulo,
também
não
obteve
êxito.
A
noite
é
de
grandes
incêndios.
Labaredas
com
mais
de
dez
metros
de
altura
devoram
a
fábrica
de
biscoitos
Duchen,
na
Mooca.
As
chamas
destroem
também
o
Fórum
Criminal,
três
casas
na
rua
Tabatinguera,
a
companhia
Duprat,
os
armazéns
de
Nazareth
Teixeira
e
da
Companhia
de
Comércio
e
Navegação.
No
dia
14
os
bairros
mais
atingidos
são
Campos
Elísios,
Vila
Buarque,
Vila
Mariana,
Aclimação
e
Liberdade.
No
dia
15,
o
Teatro
Olympia,
na
avenida
Rangel
Pestana,
que
servia
de
abrigo
para
dezenas
de
famílias
que
haviam
perdido
suas
casas
foi
duramente
atingido.
As
colunas,
teto
e
paredes
desabaram
sobre
seus
ocupantes,
em
sua
maioria,
mulheres,
velhos
e
crianças
–
30
mortos
e
80
feridos
em
estado
grave.
O
escritor
e
compositor
Cornélio
Pires,
mestre
da
poesia
caipira,
registrou
em
sua
Moda
da
Revolução
o
ambiente
de
desolação
provocado
pelo
bombardeio
da
cidade:
Quando
cheguei
em
São
Paulo
O
que
cortou
meu
coração
Eu
vi
a
bandeira
de
guerra
La
na
torre
da
estação
Encontrava
gente
morto
Por
meio
dos
quarterão
Dava
pena
e
dava
dó
Ai,
era
só
judiação
12.
A
Intensificação
do
Bombardeio
A
situação
era
terrível,
mas
ainda
iria
piorar.
Em
15
de
julho,
trazida
do
Rio
de
Janeiro,
entra
em
ação
uma
arma
mais
mortífera:
os
canhões
de
155
milímetros.
Até
então
a
cidade
havia
sido
alvejada
por
baterias
de
75
e
105
milímetros.
O
capitão
Correia
Lima,
comandante
da
2ª
Bateria,
recebendo
Carlos
de
Campos
em
visita
às
tropas
estacionadas
nas
proximidades
da
estação
de
Vila
Matilde,
ordenou
ao
municiador
que
abrisse
a
culatra
do
canhão
e
lhe
mostrasse
uma
granada.
Isto
feito,
ponderou:
Excelência,
essa
granada
tem
um
raio
de
ação
de
600
metros.
Isso
quer
dizer
que
duas
pessoas,
distantes
1200
metros,
uma
da
outra,
poderiam
ser
mortas
por
estilhaços
de
uma
única
granada.
Numa
ocasião
como
esta,
sobre
São
Paulo,
o
melhor
uso
desta
bateria
é
ficar
silenciosa.
A
resposta
de
Carlos
de
Campos:
Destrua-se
São
Paulo,
mas
fique
impoluto
o
princípio
da
autoridade.
Nos
dias
que
se
seguiram,
aquelas
baterias
não
cessaram
de
despejar
sua
carga
arrasadora
sobre
a
cidade.
O
jornalista
Paulo
Duarte,
testemunha
ocular
dos
fatos,
observa
que
“as
granadas
caíam
a
esmo”:
“O
bombardeio
durava
dias
e
noites
sem
cessar;
a
Santa
Casa
se
enchia
de
mulheres
e
crianças,
os
cemitérios
pejavam-se
de
cadáveres
e
as
fileiras
revolucionárias
não
perdiam
um
só
homem.
A
conclusão
que
se
impunha
era
estarrecedora,
porém
incontestável:
“...
a
artilharia
governista
atirava
sobre
a
cidade
em
geral,
sem
ponto
certo”.
O
alvo
era
a
própria
cidade.
A
finíssima
e
liberalíssima
oligarquia
cafeeira
paulista
praticava,
contra
sua
capital
rebelada,
o
cruel,
desumano
e
covarde
bombardeio
terrificante
-
ação
tipificada
como
crime
de
guerra,
perante
a
Convenção
de
Haia
de
1917.
13.
A
Morte
de
Joaquim
Távora
Na
noite
do
dia
14,
um
contingente
governista,
partindo
do
Ipiranga,
consegue
atravessar
os
bairros
de
Aclimação
e
Vila
Mariana,
em
caminhões
e
automóveis,
e
acaba
por
entrincheirar-se
naquelas
redondezas,
retomando
e
ocupando
o
5º
Batalhão
de
Infantaria
da
Polícia
Militar,
na
rua
Vergueiro;
os
largos
do
Paraíso
e
da
Guanabara;
o
convento
Santo
Agostinho;
e,
na
Brigadeiro
Luís
Antônio,
o
convento
Imaculada
Conceição.
Desde
o
início
do
levante,
as
forças
governistas
não
haviam
conseguido
qualquer
penetração,
digna
de
nota,
nas
defesas
revolucionárias.
Esta
era
a
primeira
vez
que
isso
acontecia.
Reverter
a
situação
tornou-se,
então,
uma
questão
vital,
a
fim
de
que
o
precedente
criado
não
minasse
o
moral
das
tropas.
O
contra-ataque
é
comandado
pelo
capitão
Joaquim
Távora.
Depois
de
intensos
combates,
na
manhã
do
dia
16
os
revoltosos
já
haviam
retomado
o
controle
da
área.
A
bandeira
revolucionária
voltava
a
tremular
no
5º
Batalhão
de
Infantaria
da
Polícia
Militar.
Porém,
saiu-lhes
cara
a
vitória.
Com
indignação
contida,
um
relato
da
época
conta
como
o
capitão
Joaquim
Távora
tombou
na
luta
pela
retomada
do
5º
Batalhão.
“Vendo
que
a
resistência
era
inútil,
os
legalistas
acenaram
o
lenço
branco.
Aproximou-se
do
quartel
um
pelotão
de
rebeldes
comandados
por
Joaquim
Távora.
Os
defensores
da
lei,
com
flagrante
deslealdade,
atiraram
sobre
aquele
oficial,
atingindo-o
em
cheio
no
peito.
O
capitão
Távora
dois
dias
depois,
falecia
no
Hospital
Militar”.
14.
Batalhões
Patrióticos
Ao
mesmo
tempo
em
que
Joaquim
Távora
recebia
no
próprio
peito
a
demonstração
do
tipo
de
“princípios
morais”
pelos
quais
a
oligarquia
revelava
tamanho
zelo,
o
comando
revolucionário
abre
inscrições
para
o
voluntariado
e
convoca
a
população.
O
resultado
entusiasma
os
tenentes.
O
jornal
A
Plebe,
porta
voz
do
movimento
anarquista,
divulga
um
manifesto
de
apoio
aos
revoltosos
–
Moção
dos
Militantes
Operários
ao
Comitê
das
Forças
Revolucionárias.
Ainda
que
considerando
imprecisos
e
limitados
os
objetivos
do
levante,
os
anarquistas
não
tinham
como
deixar
de
acompanhar
a
onda
de
adesão
das
classes
populares,
especialmente
da
classe
operária,
que
só
fazia
aumentar
a
cada
granada
disparada
contra
a
cidade.
Alguns
comícios
já
haviam
se
realizado,
a
exemplo
do
ocorrido
no
Largo
do
Arouche,
cuja
convocatória
é
representativa
do
clima
que
tomava
conta
de
São
Paulo:
”...
o
comício
será
de
protesto
contra
o
bombardeio
da
cidade
–
atentado
de
inaudita
ousadia,
perpetrado
por
aqueles
que
se
dizem
defensores
da
ordem
e
da
legalidade.
Falará
sobre
o
acontecimento
o
dr.
Lindolfo
Barbosa
Lima,
fazendo-se
ouvir
outros
oradores”.
Com
a
abertura
para
o
recrutamento
de
voluntários,
o
apoio
da
população
expresso
em
manifestações
e
outros
gestos
de
simpatia,
como
as
refeições
servidas
aos
combatentes
nas
trincheiras,
poderia
expressar-se
de
forma
superior.
Os
voluntários
foram
organizados
em
Batalhões
Patrióticos.
A
afluência
de
imigrantes
veteranos
da
1ª
Guerra
Mundial,
muitos
sem
saber
o
português,
foi
grande,
o
que
levou
os
revolucionários
a
criarem
três
batalhões
estrangeiros,
organizados
de
acordo
com
as
afinidades
de
idioma.
O
batalhão
húngaro,
instalado
na
rua
Tiradentes,
número
15,
inicialmente
se
responsabilizou
pelo
policiamento
da
cidade.
Dos
122
combatentes
alistados,
13
eram
oficiais
com
experiência
em
campos
de
batalha.
No
número
88
da
avenida
Liberdade,
foi
instalado
o
Batalhão
Patriótico
da
Colônia
Alemã,
sob
o
comando
de
João
Joaquim
Tuchen.
O
batalhão
italiano,
composto
basicamente
de
anarquistas,
tem
em
Lamberti
Sorrentino,
redator
do
jornal
Il
Piccolo,
um
de
seus
principais
líderes.
O
processo
de
adesão
popular
cresceu
ininterruptamente.
Até
a
véspera
da
retirada,
encontravam-se
panfletos
com
este
teor:
“Ao
proletariado
em
geral!
Convida-se
o
proletariado
para
uma
reunião
neste
Sábado,
26
do
corrente,
a
rua
Wenceslau
Brás,
19,
às
14h,
onde
ficará
definitivamente
assentado
o
seu
concurso
moral
e
material
em
favor
da
Revolução
que
ora
sacode
este
Estado
ao
caminho
de
um
amanhã
de
mais
liberdade,
justiça
e
bem-estar
para
as
classes
oprimidas.
(O
Comitê
Operário)”
O
caipira
retratado
por
Cornélio
Pires,
na
Moda
da
Revolução,
que
inicialmente
se
mostra
consternado,
melancólico,
com
a
destruição
observada
em
sua
chegada
à
cidade,
já
na
quinta
estrofe
aparece
mergulhado
na
luta,
de
armas
e
bagagens:
Nós
tinha
um
42
Que
atirava
noite
e
dia
Cada
tiro
que
ele
dava
Era
mineiro
que
caía
E
tinha
um
metralhador
Que
encangaiava
com
pontaria
Os
mineiro
com
os
baiano
Ai,
c`os
paulista
não
podia
15.
Condições
de
Paz
Desde
o
início
dos
bombardeios,
os
representantes
dos
industriais
e
comerciantes
apelavam
ao
general
Abílio
de
Noronha,
preso
pelos
revoltosos
no
primeiro
dia
do
levante,
para
que
aceitasse
a
incumbência
de
negociar
com
o
governo
federal
uma
solução
para
o
conflito.
Noronha,
que
até
a
rebelião
era
o
comandante
da
2ª
Região
e
tinha
alto
prestígio
na
cúpula
militar,
pede
que
os
revolucionários
formalizem
em
carta
as
suas
condições.
Em
17
de
julho,
o
general
Isidoro
encaminha
a
carta
estabelecendo
a
condição
básica:
“Entrega
imediata
do
governo
da
União
a
um
Governo
Provisório
composto
de
nomes
nacionais
de
reconhecida
probidade
e
da
confiança
dos
revolucionários.
Exemplo:
Dr.
Wenceslau
Brás”.
A
carta
afirma
ainda
que:
o
“Governo
Provisório
convocará
uma
Constituinte,
quando
julgar
oportuno”.
E
reafirma
o
compromisso
com
o
“voto
secreto”
e
a
“educação
pública”,
bandeiras
que
sintetizavam
as
mudanças
mais
urgentes
pelas
quais
os
revolucionários
se
batiam.
Alegando
não
poder
dirigir-se
ao
presidente
da
República
para
solicitar
a
sua
renúncia,
o
general
Abílio
de
Noronha
recua
da
atribuição,
mas
a
carta
se
transforma
numa
espécie
de
plataforma
revolucionária.
É
impressa,
distribuída
aos
jornais
e
à
população,
obtendo
ampla
repercussão.
16.
Aviação
Ataca
São
Paulo
A
22
de
julho
já
era
insuportável
a
atmosfera
em
São
Paulo.
O
canhoneio
sistemático
espalhava
pânico
e
desespero
entre
a
população
civil.
Cerca
de
15
mil
pessoas
deixavam
a
cidade
diariamente.
Mais
de
150
mil
já
a
haviam
abandonado.
Esse
número
chegaria
a
300
mil,
quase
a
metade
da
população
de
São
Paulo,
na
época.
Naquele
dia
fora
atingida
mais
uma
das
grandes
fábricas
paulistas,
o
Cotonifício
Rodolfo
Crespi,
estabelecimento
têxtil
dos
mais
bem
montados
da
América
do
Sul.
O
povo
olhava
angustiado
os
rolos
de
fumaça
que
enegreciam
o
céu.
Chamas
colossais
podiam
ser
vistas
a
quilômetros
de
distância.
Os
revolucionários
respondem
com
ousadia,
estreando
seu
trem
blindado.
Produzido
nas
oficinas
da
São
Paulo
Railway,
o
invento
se
constituía
de
uma
locomotiva
entre
dois
vagões
de
carga
revestidos
com
paredes
duplas
de
madeira
recheadas
de
areia,
para
amortecer
as
balas
e
proteger
os
soldados
em
seu
interior.
O
vagão
da
frente
transportava
um
reforçado
limpa-trilhos
e
uma
metralhadora
pesada,
no
teto,
dentro
de
uma
torre
de
ferro.
A
60
quilômetros
por
hora,
o
trem
partiu
da
Luz
em
direção
a
estação
de
Vila
Matilde,
onde
surpreendeu
as
forças
governistas
com
um
ataque
relâmpago
e
retirou-se
ileso.
Às
três
horas
da
tarde,
aviões
se
aproximam
de
São
Paulo,
voando
a
baixa
altitude.
A
cidade
sofre
o
seu
primeiro
ataque
aéreo.
Cinco
bombas
de
60
quilos
explodem
nas
ruas,
destruindo
casas
e
edifícios.
17.
Revoltosos
Derrotam
Tanques
Em
23
de
julho,
pela
primeira
vez
tanques
irrompem
no
Belenzinho,
produzindo
um
princípio
de
pânico
nas
forças
revolucionárias.
Equipados
com
canhões,
automáticas
e
blindagem
de
22
milímetros,
os
Renault
F-17
eram
imunes
ao
fogo
de
fuzis
e
metralhadoras.
Nem
as
tropas
do
Exército,
nem
as
da
Polícia
Militar
tinham
experiência
em
combatê-los.
O
comando
revolucionário
age
com
presteza
e
mobiliza
os
três
batalhões
estrangeiros
contra
os
tanques.
Para
veteranos
da
1ª
Guerra
Mundial,
tanques
não
eram
novidade.
Depois
de
cavarem
fossos
de
dois
metros
de
profundidade,
para
barrar
a
progressão
dos
veículos,
verificam
que
eles
haviam
avançado
sem
apoio
de
infantaria,
erro
que
já
custara
muitas
perdas
nos
campos
europeus.
Então
os
batalhões
estrangeiros
envolveram
os
blindados,
passando
a
atacá-los
pela
retaguarda.
Alguns
alemães
chegaram
a
trepar
nos
tanques,
com
o
intuito
de
abrir
as
escotilhas
e
matar
seus
ocupantes.
Quase
capturaram
dois.
A
ofensiva,
que
prometia
mudar
o
curso
da
batalha
em
questão
de
horas,
por
pouco
não
se
transformou
num
pesadelo
para
as
forças
governistas.
Os
tanques
se
retiraram
rapidamente
do
teatro
de
operações
e
não
mais
voltaram
a
ser
utilizados.
18.
Mais
Destruição
Na
madrugada
do
mesmo
dia,
densas
colunas
de
fumaça
brotavam
do
depósito
de
inflamáveis
Mercansul
e
da
fábrica
de
bebidas
Antártica.
Em
função
dos
incêndios
sucessivos,
o
comando
revolucionário
põe
em
liberdade
todos
os
bombeiros
dispostos
a
prestar
serviços
profissionais.
O
Quartel-General
do
Corpo
de
Bombeiros
tinha
sido
um
dos
bastiões
da
defesa
governista
nos
primeiros
dias
do
levante.
Muitos
dos
carros
de
bombeiros
haviam
sido
levados
pelas
tropas
legalistas
para
Guaiúna,
em
sua
retirada.
A
fim
de
reavê-los,
a
Associação
Comercial
envia
carta
ao
general
Eduardo
Sócrates,
comandante
das
forças
que
efetuavam
a
operação
de
cerco
e
aniquilamento
da
cidade.
O
material
nada
tinha
de
bélico.
Mesmo
assim
a
espera
pela
resposta
é
longa
e
inútil.
A
destruição
prossegue
de
forma
sistemática.
O
número
de
indústrias
e
estabelecimentos
comerciais
atingidos,
entre
os
quais
as
Oficinas
Duprat,
Motores
Morelli,
S/A
Scarpa,
Matarazzo,
Magasins
Generaux,
Reickman
&
Cia,
Ernesto
de
Castro,
Moinhos
Gamba,
ultrapassa
a
uma
centena.
Até
o
fim
do
conflito,
a
quantidade
de
prédios
destruídos
chegaria
à
casa
de
dois
mil.
No
dia
26,
panfletos
ameaçadores
são
lançados
por
aviões,
trazem
a
assinatura
do
ministro
da
Guerra,
general
Setembrino
de
Carvalho:
“Faço
à
nobre
população
de
São
Paulo
apelo
para
que
abandone
a
cidade...
É
esta
uma
dura
necessidade
que
urge
aceitar
como
imperiosa...
Espero
que
todos
atendam
a
esse
apelo
para
se
pouparem
aos
efeitos
das
operações
que
dentro
de
poucos
dias
serão
executadas”.
19.
Com
o
Dr.
Carlos
de
Campos
em
Guaiaúna
No
dia
seguinte,
o
jornalista
Paulo
Duarte
parte
para
Guaiaúna
levando
cartas
do
presidente
da
Associação
Comercial,
José
Carlos
de
Macedo
Soares,
para
Carlos
de
Campos
e
o
general
Eduardo
Sócrates:
“...
o
aniquilamento
do
poder
industrial
do
Estado
de
São
Paulo
prossegue
todos
os
dias,
pelo
efeito
destruidor
das
granadas
e
pelas
chamas
devoradoras
de
pavorosos
incêndios...
O
ânimo
da
fiel
e
leal
população
de
São
Paulo
está
abatido,
mas
compara
com
azedume
o
tratamento
generoso
que
tem
recebido
dos
revolucionários
com
a
desumanidade
inútil
de
ininterrupto
bombardeio”.
A
carta
solicita
uma
trégua
de
48
horas,
“para
que
o
general
Abílio
de
Noronha
possa
parlamentar
ainda
hoje
com
V.
Excia”,
uma
vez
que
os
revolucionários
haviam
se
disposto
negociar
a
paz
em
troca
de
uma
anistia
ampla
aos
participantes
dos
levantes
de
1924
e
1922.
O
próprio
portador
lavrou
para
a
história,
com
indisfarçável
ironia,
o
insólito
encontro
que
manteve
com
o
Dr.
Carlos
de
Campos:
“Com
toda
a
pachorra
esperei
que
o
sr.
Governador
do
Estado
engraxasse
as
botas,
e,
em
sua
companhia,
dei
entrada
depois
no
carro
da
Central,
ambulante
quartel-general
das
forças
legais,
sede
provisória
do
governo
de
São
Paulo...
Confortavelmente
instalado
numa
das
macias
poltronas
do
majestoso
carro...
disse
qual
era
a
minha
missão
e
entreguei
a
carta
que
trouxera...
Ao
meio
da
carta,
já
o
amável
governador
não
pode
mais
esconder
sua
irritação,
dizendo:
-
Isso
não
são
palavras
de
amigo!
E
ao
fim
da
leitura:
-
Absolutamente!
Aos
revoltosos
nada!
Nós
iremos
até
o
fim...
Eles
aguardem
as
conseqüências...
-
Mas
Dr
Carlos
de
Campos
(aventurei),
se
V.Excia
conhecesse
a
atual
situação
da
cidade...
-
Não
será
pior
que
a
minha
aqui.
Tive
a
ousadia
de
lamber
com
um
olhar
tímido
o
ambiente
confortável
do
carro
salão...
-
Vocês,
(retrucou
S.
Excia,
ainda
agitado)
parece
que
estão
fazendo
causa
comum
com
os
revoltosos...
Em
vista
dos
termos
desta
carta
vou
mandar
aumentar
os
bombardeios.
A
granada
será
a
resposta!”
20.
A
Retirada
Estratégica
Às
22h
do
dia
28,
surpreendendo
as
tropas
governistas
com
uma
manobra
ousada
e
precisa,
as
forças
revolucionárias
empreendem
uma
retirada
estratégica
pelo
eixo
ferroviário
São
Paulo-Campinas-Bauru.
São
treze
composições
ferroviárias,
com
quatorze
a
dezesseis
vagões,
cada
uma
delas,
conduzindo
homens
e
material
bélico.
Toda
a
tropa,
seis
baterias
de
artilharia
com
seus
acessórios
e
munição,
duzentos
cavalos,
metralhadoras
pesadas,
equipamento
de
infantaria
e
cavalaria,
viaturas,
tudo
foi
embarcado
com
incrível
rapidez,
sem
dar
tempo
ao
inimigo
de
compreender
o
que
estava
acontecendo.
Os
trens
correram
com
um
sincronismo
tal
que
não
houve
o
menor
embaraço
nas
linhas
dentro
de
um
espaço
de
tempo
de
vinte
e
quatro
horas.
No
derradeiro
manifesto
dirigido
à
população
da
cidade,
os
revolucionários
agradecem
o
apoio
recebido:
“Assim,
pois,
no
desejo
de
poupar
São
Paulo
de
uma
destruição
desoladora,
grosseira
e
infame...
vamos
mudar
a
nossa
frente
de
trabalho
e
a
sede
governamental.
Avante
paulista,
que
a
hora
da
liberdade
se
aproxima!
Deus
vos
pague
o
conforto
e
o
ânimo
que
nos
transmitistes”.
Durante
o
dia
29
concentraram-se
na
cidade
de
Bauru.
Somavam
3.500
homens,
entre
soldados
do
Exército,
Polícia
Militar
e
voluntários
civis,
que
passaram
a
se
organizar
em
três
brigadas,
um
regimento
de
cavalaria
e
um
regimento
misto
de
artilharia.
Posteriormente
se
dirigirão
ao
Paraná,
onde
mantêm
a
luta
por
vários
meses,
até
que,
em
maio
do
ano
seguinte,
com
as
fileiras
engrossadas
por
tropas
gaúchas,
levantadas
em
outubro
pelo
capitão
Luís
Carlos
Prestes
e
os
tenentes
Siqueira
Campos
e
João
Alberto,
iniciam
a
longa
jornada
de
25
mil
quilômetros,
através
de
dez
estados,
ao
longo
de
dois
anos,
sem
serem
derrotados
em
nenhuma
das
batalhas
travadas.
21.
Epílogo
Nos
dias
em
que
São
Paulo
esteve
sob
direção
das
forças
revolucionárias,
as
baixas
militares
provocadas
pelos
bombardeios
foram
irrelevantes.
Porém
as
vítimas
civis
atingiram
proporções
trágicas.
Dos
700
mil
habitantes
da
capital,
300
mil
a
abandonaram,
refugiando-se
no
interior.
O
relatório
preliminar,
apresentado
pelo
prefeito
Firmino
Pinto,
registra
500
mortos,
5.000
feridos,
1.182
prédios
destruídos,
entre
os
quais
103
estabelecimentos
comerciais
e
industriais.
Porém
considera
parciais
os
dados
levantados
e
estima
que
numa
apuração
completa
os
números
obtidos
seriam
muito
superiores.
No
caso
das
edificações
atingidas,
chega
a
admitir
“mais
de
1.800”:
“A
Inspetoria
Geral
de
Fiscalização
procedeu
a
um
penoso
trabalho
de
exame...
dos
prédios
danificados...
e
apurou
devidamente
verificados
1.182.
Por
inspeção
posterior
pode-se
asseverar
que
esse
número
vai
a
mais
de
1.800”.
No
entanto,
com
a
consolidação
do
controle
da
cidade
pelas
forças
contra-revolucionárias,
a
apuração
das
baixas
produzidas
pelo
bombardeio
foi
bloqueada
e
abandonada,
confirmando
o
preceito
de
que
o
interesse
dos
criminosos
é
sempre
o
de
ocultar
a
extensão
de
seus
delitos.
Dois
anos
e
meio
mais
tarde,
a
oligarquia
cafeeira
paulista
guindaria
Washington
Luís
à
presidência
da
República.
O
coronel
Fernando
Prestes
também
não
seria
esquecido.
Seu
filho,
Júlio
Prestes,
o
Dr.
Julinho,
assumiria
o
governo
do
estado
de
São
Paulo.
Carlos
de
Campos
deixaria
a
cena
mais
cedo,
falecendo
antes
da
conclusão
do
mandato,
em
abril
de
1927.
Quando
a
Revolução
de
30
os
varreu
do
mapa,
Julio
Prestes,
mercê
da
habitual
fraude
que
marcava
o
processo
eleitoral,
estava
a
pique
de
suceder
Washington
Luís
na
presidência
da
República.
SÉRGIO
RUBENS
DE
ARAÚJO
TORRES