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Serra diz que ser médico do HC não é bom negócio
Para o médico Davi de Lacerda, conselho do governador reflete descaso
com rede pública
O governador de São Paulo, através de seu secretário de Comunicação,
reagiu raivosamente ao relato do médico Davi de Lacerda, em artigo no
jornal “Folha de S. Paulo”, sobre seu encontro com Serra no coquetel que
se seguiu à apresentação de um balé.
O médico havia escrito que “contei ao governador que sou médico, que
fiz graduação na USP, pesquisas em Harvard, residência em dermatologia
no hospital Johns Hopkins (EUA) e especialização em cirurgia
dermatológica em Paris. Contei também que há cinco dias fora contratado
como médico concursado do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina
da USP. Ele sorriu e me deu parabéns. Ao agradecê-los, muito
constrangido, informei-o de meu espanto ao descobrir que o salário-base
para o médico do HC era de R$ 414 mensais para uma carga horária de 20
horas semanais. O governador buscou me consolar dizendo que eu não
ganharia só isso. Respondi que estava ciente das gratificações e que,
mesmo assim, meu salário bruto seria de R$ 1.500. Informei-o ainda de
que o custo para manter meu consultório fechado durante as horas em que
estarei no HC é o triplo do valor que receberei do Estado. Àquela
altura, quando já não mais sorríamos, pedi sua opinião. O
governador me aconselhou a deixar o HC, dizendo que o HC não é um bom
negócio para mim” (grifo nosso).
Diante desse conselho, dado por alguém que fazia propaganda de que havia
sido “o melhor ministro da Saúde do mundo” e que é o responsável pela
instituição pública em que trabalha, Davi de Lacerda comentou que
“seu conteúdo [do conselho de Serra] reflete o descaso do Estado com os
médicos da rede pública de saúde e com o futuro de uma instituição cujas
contribuições assistenciais e para a pesquisa e educação médica são
inigualáveis em todo o território nacional. A maioria dos médicos
concursados do HC (….) se distinguem pela admirável formação acadêmica e
excelência dentro de suas especialidades. Quase todos são profissionais
humanitários, muito trabalhadores e que se dedicam aos seus pacientes de
forma exemplar. Grande parte deles detém habilidades e notório saber
valorizados além das fronteiras da instituição e do país. Quase nunca
fazem greve e freqüentemente acumulam tarefas para que o hospital
funcione. Muitos fazem pesquisas inovadoras, publicam artigos
científicos e constantemente levam trabalho para casa. São médicos tão
apaixonados pelo que fazem que não se deram conta de que poderiam entrar
em um péssimo negócio. Com tantas qualidades, seria esperado que os
médicos do HC fossem pelo menos remunerados adequadamente”.
A carta do secretário de comunicação de Serra ao jornal, depois de
confirmar a conversa, diz que o médico é “gabola”, “mentiroso”,
“exibicionista”, “falso” e “desinformado”. Além de dizer que
ele “mentiu” em relação ao salário, que seria de R$ 1.946,00, e
que ele “subestimou em cerca de 10 vezes o salário horário que
recebe”, diz que o médico quis “desmerecer o trabalho médico no
Hospital das Clínicas de São Paulo” e que teria afirmado que
“somente os néscios ali permanecem”.
Sobre as duas últimas imputações, como se pode comprovar pelo texto que
transcrevemos, o mentiroso é o preposto que respondeu por Serra. Sobre o
salário, o médico Davi de Lacerda, também em carta ao jornal, esclareceu
que “o salário-base que consta da minha carteira de trabalho é de R$
414,30. Lá também constam as gratificações, que somam R$ 1.169,75.
Jamais fui informado de que ganharia R$ 1.946, o que não mudaria
significativamente a situação. Esperava que o governador fosse
sensibilizado pelos baixos salários pagos aos médicos do HC. O seu
conselho não me agradou e não tenho intenção de segui-lo, mas continuo
esperando que os médicos do Estado sejam respeitados e remunerados
dignamente”.
Médicos do HC confirmaram as informações do Dr. Davi de Lacerda. |