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Desventura em Paraty: a campanha de Fernando Henrique para Serra na Flip
Há algumas semanas,
quando a Flip tornou Fernando Henrique a principal figura de Paraty, ao
escolhê-lo para elogiar Gilberto Freyre, pensamos em escrever algo sobre esse
episódio da campanha serrista. Porém, até o antigo organizador da Flip,
Marcelino Freire, recusou-se a comparecer, declarando que “não entendo a
presença do ex-presidente abrindo os trabalhos da Festa. Logo ele, que nunca
gostou do Freyre. Em ano de eleição?”.
Portanto, era pouco
provável que o velho charlatão enganasse alguém, apesar do esforço do Ali Kamel
e do Otavinho em promovê-lo. Além disso – e mais importante - tudo o que o sr.
José Serra não queria era ter o seu antigo mentor como cabo eleitoral. Por isso,
deixamos a Flip para depois. Afinal, já dizia Bonaparte, jamais interrompa o seu
inimigo quando ele estiver cometendo um erro...
Mas a escritora
Márcia Denser teve toda razão em observar que “os organizadores da Flip foram
extremamente coerentes ao escolher FHC (...) tal escolha é a cara desse,
digamos, evento, reunido em torno duma espécie de gueto (literalmente) elitista,
alienado. Globalizado? Não propriamente globalizado, mas apátrida, já que o
dinheiro não tem mãe, muito menos língua mãe, tampouco pátria mãe. A Flip não
festeja absolutamente a Literatura nem os escritores e muito menos o autor
brasileiro, mas exclusivamente o mercado editorial, a literatura mercantilizada.
E apátrida. Ou seja, a barbárie".
Aliás, desde que
João Ubaldo Ribeiro, há seis anos, recusou-se a servir de atração em Paraty, a
Flip foi reduzida publicamente ao que ela sempre foi: esse gueto apátrida, onde
autores medíocres e reacionaríssimos de outras bandas são alardeados como
gênios, às custas do dinheiro público, desviado através da renúncia fiscal
estabelecida pela Lei Rouanet (este ano, o Itaú descarregou 75% de sua cota da
Rouanet na Flip - apesar de ser um happening dos monopólios editoriais, 63% do
dinheiro gasto na Flip de 2010 é público. V. Bruno Huberman, "Flip: a gota d’água",
Carta Capital, 06/08/2010).
Não faltam
depoimentos de quem esteve lá - Marcelo Mirisola, convidado para a Flip de 2006,
descreveu o público presente como “as madames de Higienópolis [que] deixam de ir
às compras na Oscar Freire para estudar Schoppenhauer na Casa do Saber”. Ainda
que não concordemos com suas opiniões nem sobre Stalin nem sobre Jorge Amado nem
sobre Paraty, Mirisola está entre aqueles escritores atuais que têm o grande
mérito de saber escrever. Deve ser por isso que a “Folha” do Otavinho o detesta.
Mas, se é verdade
que Fernando Henrique é a cara desse evento apátrida, chamá-lo para homenagear
Gilberto Freyre é equivalente a convidar o falecido Leopoldo Heitor para
celebrar a memória de Dana de Teffé. A diferença é que Freyre sobreviveu às
tentativas de eliminação perpetradas por Fernando Henrique e cia. - e, apesar
dos pesares, é um autor mais importante do que todos eles.
Gilberto Freyre
sempre foi acusado de embalar o escravismo em papel de presente. Não é uma
acusação destituída de fundamento, quando escreveu, por exemplo, que a monarquia
foi “um período em que (…) a dignidade humana foi respeitada pelos homens de
governo: às vezes magnificamente respeitada. Tradição que empalideceria na
República: na atual ainda mais do que na primeira". Note-se que isso foi escrito
em 1944, em prefácio a um livro de Oliveira Lima, onde Freyre se esmera em
elogiar o que de pior havia nesse historiador da República Velha – quando
poderia ter escolhido outro caminho, pois Oliveira Lima é autor de um livro
importante, “D. João VI no Brasil”, em que expôs as contraditórias relações
desse rei de Portugal com a Inglaterra.
Entretanto, para
Freyre, pelo menos a escravidão existiu – e, seguindo Nabuco, foi o trabalho
escravo que construiu as bases do país. Para Fernando Henrique, ao contrário, a
escravidão somente existiu como suposta prova de que o Brasil é um país
geneticamente atrasado, habitado e construído por atrasados mentais, pois ela
não teve como fundamento nenhuma carência econômica.
Veja-se o seu livro
"Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional". Nele, a escravidão no Sul
somente existiu devido à burrice dos produtores de charque, que eram
"irracionais" (sic), mantendo um regime econômico que prejudicava a eles mesmos.
Aliás, segundo Fernando Henrique, o escravismo (não apenas no Rio Grande do Sul,
mas em geral) não tem como objetivo "imediato" o ganho material do senhor de
escravos, mas o "controle da mão de obra como um verdadeiro faux frais da
produção (...) no intuito e com o resultado de manter a autoridade no trabalho"
[NOTA: "Faux frais da produção" é uma expressão usada por Marx para designar as
despesas na produção que não acrescentam valor ao produto].
Por pouco Fernando
Henrique não diz que o objetivo do senhor de escravos era gastar com os escravos
e não ganhar com eles - embora, não se sabe o que se poderia gastar que não
fosse ganho. Não é à toa que ele chama o escravismo de "regime de desperdício" –
uma expressão, aliás, que poderia ser usada para o feudalismo ou para o
capitalismo monopolista atual, sem que isso definisse nada.
É perda de tempo
analisar essa fraude. Um senhor de escravos, um dos Taunay, em 1839, já havia
escrito, em seu “Manual do Agricultor”: “Os pretos não se compram para se ter o
gosto de os sustentar e de os ver folgar, mas sim para tirar do seu trabalho os
meios de subsistir e lucrar” (cit. Leonardo Monasterio, “A economia da
escravidão no Brasil meridional”, História e Economia, Vol. 1, nº 1, 2005).
Mais interessante é
por que Fernando Henrique operou esse vaudeville pseudo-intelectual. Já nessa
época (1962) toda a sua argumentação é derivada de uma suposta superioridade
estrangeira sobre o Brasil (nesse caso, a superioridade da produção de charque
uruguaia – pode parecer estranho que ele tenha se fixado nesse pequeno país
vizinho como paradigma de superioridade, mas isso apenas demonstra que o básico
nesse energúmeno sempre foi o rancor pelo Brasil; a “superioridade estrangeira”,
seja dos EUA ou até mesmo do Uruguai, é consequência desse ressentimento).
Naturalmente, isso é
antagônico a tudo o que Freyre escreveu em "Casa Grande & Senzala".
A única identidade
que existe entre Freyre e Fernando Henrique, naturalmente, é aquela vaidade
alucinada que tornou, ambos, palhaços no circo da reação. Mesmo assim, o
primeiro era mais divertido – e mais inofensivo, o que não é pouca virtude entre
aqueles que Dante colocou no nono círculo do Inferno.
CARLOS
LOPES |