Mídia de Honduras é instrumento do governo e das empresas para perseguir sindicalistas (II)

(continuação da edição anterior)

LEONARDO SEVERO

Para complicar, a legislação hondurenha limita o espectro de atuação da entidade ao local de trabalho, o mais do que vulnerável Sindicato por empresa, que necessita ter um mínimo de 30 filiados. Para não falar de outros absurdos, vale dizer que tão somente por este "critério" já se nega a maior parte dos trabalhadores o direito à representação, uma vez que parcela significativa das empresas possui menos de 30 empregados.

Além disso, explica Idalmy, "quando as empresas se informam que os trabalhadores estão montando um Sindicato, os encerram numa sala e começam a lhes apresentar listas para que apontem quem está liderando, quem está participando e surgem todo tipo de chantagens e ameaças". "Embora a legislação trabalhista estabeleça o direito à organização, na prática ele é violado pelas próprias autoridades que atuam como base de sustentação do grande capital", acrescentou.

Entre outros ataques do governo aos trabalhadores, a dirigente cita a criação de projetos que vão contra o direito à obtenção de garantias fundamentais estabelecidas no trabalho e os benefícios sociais. "Iniciativas do governo como a lei do emprego temporário são altamente daninhas, pois por meio delas é retirada a estabilidade, não há férias, direito à seguridade social. A pessoa é submetida a um ritmo de trabalho intenso, a baixos salários em longas jornadas por dois, três ou seis meses, e depois sai de mão abanando". "Como temos mais de metade da população desempregada, com famílias recebendo um dólar por dia, em meio à miséria, até por questão de sobrevivência muitas pessoas acabam se submetendo à precarização", disse.

A brutalidade antissindical tem sido uma marca constante da oligarquia do país, denuncia a dirigente, ressaltando que "são inúmeros os companheiros que foram ameaçados e assassinados, como a primeira secretária geral da Confederação dos Trabalhadores de Honduras (CTH), Altagracia Fuentes, que teve seu carro atingido por inúmeros disparos". Altagracia foi executada em junho de 2008 quando lutava pela reintegração de trabalhadores de uma maquiladora coreana em San Pedro Zulia. Também perderam a vida no ataque a dirigente do Sindicato do Instituto Nacional de Formação Profissional (INFOP), Yolanda Virgínia Sánchez e o condutor do veículo, Juan Aceituno.

A partir do golpe orquestrado pela embaixada dos Estados Unidos contra o presidente constitucional Manuel Zelaya em 28 de junho de 2009, a oligarquia retirou qualquer trava para exercer o seu poder político e econômico, avalia. Como se a roda da história tivesse dado marcha à ré, retornando aos tempos em que o país foi transformado em "porta-aviões" ianque. Se no plano externo abastecia com soldados, armas e munições a oposição à revolução sandinista na Nicarágua e o avanço da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) em El Salvador, no plano interno desatava uma feroz repressão com "padrão CIA": torturas, assassinatos e desaparecimentos.

"Depois do golpe foram mortos vários professores, camponeses e lutadores pelos direitos humanos e só tem aumentado a lista de desaparecidos. Esta é a sua forma de agir, esta é a sua forma de intimidar e calar", frisou Idalmy.

Entre tantos exemplos, a dirigente da CUTH citou o assassinato do jornalista Anibal Barrow, raptado e desaparecido em julho deste ano um dia após ter entrevistado em seu programa televisivo o líder sindical Juan Barahona, membro da coordenação da Frente Nacional de Resistência Popular e candidato à vice-presidência da República pelo Partido Liberdade e Refundação na chapa de Xiomara Castro – esposa de Manuel Zelaya.

30 jornalistas assassinados

Não só mataram Anibal a tiros, o cortaram em pedaços, esquartejaram seu corpo e o queimaram. Depois, jogaram numa lagoa para os crocodilos", relatou Idalmy, lembrando que desde o golpe contra Zelaya três dezenas de jornalistas foram assassinados, sem que nenhum dos crimes tenha sido esclarecido. "Reina uma total impunidade, que amplifica as ameaças", assinalou a sindicalista.

"Com os meios de comunicação a serviço do governo, que está a serviço das empresas, a orientação é potencializar os dois partidos tradicionais, principalmente ao Partido Nacional, que está no poder. Eles têm medo de que o Partido Liberdade e Refundação, de Xiomara Castro, possa ganhar as eleições de 24 de novembro. Estão preocupados com a desvantagem que têm na população, mas como têm o controle absoluto da mídia, isso amplia sua tendência de intimidar e matar", alertou.

Idalmy avalia que diante de uma conjuntura tão complexa, a solidariedade internacional jogará um papel decisivo para dar a visibilidade necessária aos crimes que estão sendo praticados contra os lutadores do movimento social hondurenho, contribuindo para inibir os abusos. "Do contrário, a situação vai se agudizar, os assassinatos vão aumentar. Esta é a orientação dada pela oligarquia, e alavancada pela corrupção e parcialidade dos magistrados e deputados. Querem repetir o que nos fizeram nos dias posteriores ao golpe, quando fecharam os sindicatos e passaram a perseguir, demitir e acabar com a vida dos companheiros identificados com a resistência", assinalou Idalmy.

"Matando advogados, jornalistas e juízes o governo tenta intimidar, calar todos os que disponham a defender os direitos humanos", acrescentou a dirigente da Central Geral dos Trabalhadores de Honduras (CGTH), Manuela de Jesus Chavarria, citando o recente assassinato da juíza Mireya Mendoza, de 43 anos, que teve o carro atingido por duas dezenas de balas em El Progresso, no norte do país.

Para Maria del Carmen Reyes, secretária de Assuntos Femininos da CTH, "é urgente deter o derramamento de sangue em que pais ficam sem filhos e filhos ficam sem pais, deixando os lares vazios". "Em Honduras, hoje, reclamar um direito é um delito que se paga com a própria vida", concluiu.

Texto enviado ao HP de San José, Costa Rica


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