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Gafe de Lula?
GILSON
CARONI FILHO*
O “incidente diplomático” provocado pela decisão da delegação de não incluir
na agenda de Lula uma visita ao túmulo do criador do movimento sionista
precisa ser visto na exata dimensão de seu significado político. E não há
dúvidas quanto ao acerto da recusa a um convite feito de última hora.
Afinal, o que propõe o sionismo e quais suas implicações para a paz na
região conflagrada? Haveria compatibilidade entre a carga simbólica do
evento e uma posterior encontro com autoridades palestinas?
O jornalismo de programa entrou em ação: censurou os elogios do presidente
israelense a Lula, dando destaque a uma suposta gafe, uma recusa inusitada a
um ato supostamente protocolar. Comprou a descortesia da extrema-direita de
Israel como justa indignação frente a uma diplomacia desastrada. A operação
“ tempestade no cerrado”, denunciada pelo jornalista Mauro Carrara,
desconhece fronteiras e senso de medida.
Como já registrei, em artigo escrito com o economista Carlos Eduardo
Martins, a incompatibilidade entre sionismo e diálogo democrático não é um
dado conjuntural, mas fato de origem. A premissa de Theodor Herzl é que os
judeus não podem se fiar na “opinião pública mundial” ou na “comunidade das
nações”, que sempre assistiram impassíveis às incontáveis perseguições
sofridas pelo seu povo através dos séculos. Os judeus teriam que assegurar
sua sobrevivência, como povo e como indivíduos, por seus próprios meios. O
que só seria possível com o estabelecimento de seu Estado nacional soberano,
para o que Herzl indica a Palestina (então sob domínio turco), local do
último Reino de Israel.
É bom lembrar que Herzl foi um ativo militante do movimento sionista na
Europa, além de conduzir negociações com a Turquia e o Egito. A ideologia
territoralista é excludente. Em momento algum ela advoga pública e
explicitamente o extermínio ou a expulsão violenta dos palestinos
não-judeus. Mas deixa claro, em seus diários, que eles deveriam ser
“persuadidos a se retirarem” por meios econômicos, como o confisco de suas
terras e outras propriedades, e a recusa em lhes dar emprego. Ou seja, em
instância final, Israel deveria ser o lar exclusivamente dos judeus – e
inclusiva e idealmente de todos os judeus do mundo, que só ali teriam
assegurada sua sobrevivência.
Herzl tampouco define fronteiras específicas para o Estado judeu,
referindo-se genericamente à “Palestina”. Mas, da mesma forma, antevê o
caráter necessariamente expansionista de tal Estado, até mesmo para acomodar
a desejada imigração em massa. É significativo que, nos documentos oficiais
do governo israelense, o território de Israel englobe hoje toda a Palestina,
Gaza, Cisjordânia e Golan incluídas.
Embora haja quem afirme que “a origem do Estado de Israel não está na
religião”, é óbvio que as propostas de Herzl estão imbuídas da visão toráica
de “povo escolhido” (à exclusão de todos os demais) e de “destino manifesto”
– de resto não diferentes da professada pelos proponentes do PNAC, Plano
para um Novo Século Americano, que norteou o “bushismo” nos Estados Unidos –
a começar pela escolha da “Terra Prometida” para lar do Estado de Israel.
Mas o discurso herzliano parece totalmente laico (o que foi desprezado pela
“esquerda sionista”, que acedeu em criar Israel como um Estado confessional,
vide a Estrela de David em sua bandeira). E seus objetivos, estritamente
materiais: terra e poder. Quer seu criador estivesse consciente delas ou
não, as implicações da ideologia sionista são inescapáveis. E o jornalista
inglês Daniel Finkelstein as explicita: “Assim, quando se pede a Israel que
respeite a opinião mundial e confie na comunidade internacional, não se está
compreendendo o ponto fundamental. A própria idéia de Israel é uma rejeição
dessa opção. Israel só existe porque os judeus não se sentem seguros como
tutelados da opinião mundial.”
Daí se depreende inevitavelmente que quaisquer “negociações” ou “acordos”
não têm valor para Israel, que os usará, se conveniente, assim como os
ignorará se e quando, a seu exclusivo juízo, forem necessários para sua
segurança. Finkelstein continua sua explanação sem se dar conta de que
explicita o que a propaganda sionista tenta ocultar: “Israel entregará suas
armas quando os judeus estiverem em segurança, mas não o fará enquanto não
estiverem.” E só a Israel compete dizer se a “segurança” foi alcançada ou
não, bem como até onde o Grande Israel terá que se estender até então.
Mas o sionismo não recorreu à comunidade internacional, representada pela
ONU, para formalizar a partilha da Palestina e a criação do Estado de
Israel? Sim, mas por mero oportunismo, valendo-se da “consciência culpada”
dos gentios face ao Holocausto e explorando as tensões geopolíticas entre as
antigas potências coloniais européias, Inglaterra (já detentora do “mandato
palestino”) e França à frente, Estados Unidos e União Soviética, além da
divisão entre os países árabes. E só o fez por constatar que o caminho da
violência e do terrorismo não levaria à consecução de seus objetivos.
Portanto, por sua própria origem e seu cerne ideológico, o Estado de Israel
se definiu como uma nação que despreza a opinião mundial, não reconhece a
comunidade internacional e ignora quaisquer decisões colegiadas que não lhe
pareçam convenientes. A “ gafe” de Lula demonstra uma inequívoca compreensão
do tabuleiro geopolítico do Oriente Médio. Que outras sejam cometidas.
* Professor de Sociologia
das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro,
colaborador do Hora do Povo e do Observatório da Imprensa e colunista da
Carta Maior. |