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Entrevista com Jean-Bertrand
Aristide:
“O que está em
jogo no Haiti é a dignidade de todo o povo ou a dependência servil” (1)
A entrevista que
hoje começamos a publicar apareceu originalmente na revista “London Review of
Books”, em fevereiro de 2007. Apesar da data, ela é, até hoje, a mais extensa e
mais reveladora entrevista do presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide. O
entrevistador não foi um jornalista, mas o filósofo canadense Peter Hallward – o
que é visível na forma de suas perguntas, que mantivemos na íntegra – e
realizada em Pretoria, África do Sul, onde Aristide encontra-se asilado desde o
golpe de Estado patrocinado pelos EUA – e, em verdade, executado por tropas
norte-americanas, que invadiram o Haiti em 2004.
Jean-Bertrand
Aristide é a figura central da história do Haiti após o fim da alucinada
ditadura dos Duvalier e seus tonton macoutes, como, de resto, da vida política
atual do país. Se é lícito assim expressarmo-nos, sua ausência é a presença mais
marcante da vida do país. Há seis anos, o retorno de Aristide é a principal
questão política que mobiliza o povo haitiano.
Formado em
filosofia e psicologia, Aristide foi um padre salesiano até 1988, quando sua
adesão à Teologia da Libertação e ao lema “lapè nan tèt, lapè nan vant” (em
créole: “não há paz na mente, se não há paz na barriga”) fez com que os
superiores da ordem tornassem impossível sua permanência. Mas continuou um
católico romano e adepto da não-violência no mesmo sentido de Gandhi.
Em 1990,
candidato a presidente pela Frente Nacional pela Mudança e Democracia, foi
eleito com 67% dos votos. Posteriormente, fundou o partido Fanmi Lavalas. Em
créole, a palavra “fanmi” significa “família” e “lavalas” pode ser traduzido
como “avalanche”, “dilúvio”, mas também “todos juntos”.
A história de
Aristide após essa eleição é mais conhecida: o golpe de Estado em 1991, sua
volta ao Haiti e à presidência, em 1994, e, depois do primeiro mandato de René
Préval, sua vitória na eleição de 2000 com 92% dos votos e o golpe de Estado de
2004, com a invasão das tropas norte-americanas, a perseguição, inclusive
assassinatos e torturas, dos partidários de Aristide e a subsequente proibição
do Fanmi Lavalas de concorrer às eleições.
O fato é que a
volta de Aristide ao Haiti é a condição política mais importante para que aquele
país encontre, com a unidade de seu povo, a paz baseada na justiça. A situação
atual, sobretudo depois do terremoto de janeiro, tornou mais urgente ainda que
essa condição política seja cumprida.
C.L.
O Haiti é um país profundamente dividido e
você tem sido sempre um personagem profundamente conflituoso. Para a maioria dos
numerosos observadores simpatizantes dos anos 90 era fácil entender essa divisão
mais ou menos em função de critérios de classe: você foi demonizado pelos ricos
e idolatrado pelos pobres. Então, as coisas começaram a ficar mais complicadas.
Certos ou errados, ao final da década, muitos dos que originalmente o apoiavam
passaram a ficar mais céticos e seu segundo governo (2001 - 2004), do início ao
fim, foi implacavelmente perseguido por acusações de violência e corrupção.
Apesar de, em todas as medidas possíveis, você permanecer folgadamente como o
político mais confiável e popular entre o eleitorado haitiano, parece que você
tem perdido muito do apoio que gozava entre partes da classe política, dos
trabalhadores, ativistas, intelectuais e outras, tanto no país como no exterior.
Muitas de minhas questões referem-se a essas acusações, especialmente a de que,
com o passar do tempo, você fez concessões ou abandonou muitos de seus ideais
originais. Para começar, gostaria de retornarmos brevemente a um território
familiar e perguntar sobre o processo que o conduziu ao poder em 1990. O final
dos anos 80 foi um período muito reacionário na política mundial, especialmente
na América Latina. Como você explica a considerável força e resistência do
movimento popular contra a ditadura no Haiti, movimento que passou a ser
conhecido como “Lavalas” – palavra que em creóle significa “inundação”, ou
“avalanche”, assim como “multidão”, ou “todos juntos”? Como você explica que,
apesar das circunstâncias, e certamente contra os interesses dos EUA, dos
militares e de todo o poder que dominava o Haiti, você conseguiu vencer as
eleições de 1990?
Jean-Bertrand
Aristide
- Grande parte do trabalho já tinha sido feito por pessoas antes de mim.
Refiro-me a pessoas como o padre Antonio Adrien e seus companheiros, e Padre
Jean Marie Vincent, que foi assassinado em 1994. Eles haviam desenvolvido uma
visão teológica progressista que refletia as esperanças e expectativas do povo
haitiano. Já em 1979, eu estava trabalhando no contexto da Teologia da
Libertação. Há uma frase em particular que ficou marcada em minha mente e que
pode ajudar a resumir meu entendimento da situação naquela época. Você deve
lembrar-se de que a Conferência de Puebla aconteceu no México, em 1979, e
naquele tempo muitos teólogos da libertação estavam trabalhando sob severas
restrições, ameaçados e impedidos de participar. O slogan ao qual estou me
referindo dizia algo como “si el pueblo no va a Puebla, Puebla se quedara sin
pueblo” – se o povo não vai a Puebla, Puebla ficará sem povo.
Em outras palavras,
o povo é para mim o próprio centro de nossa luta. Não se trata de lutar pelo
povo, em nome do povo, à distância do povo; é o povo, ele mesmo, que está
lutando. Trata-se de lutar com o povo e no meio do povo. Isso leva a um segundo
princípio teológico, que Sobrinho, Boff e outros entenderam muito bem. A
teologia da libertação somente pode ser uma etapa de um processo mais
abrangente. Esta etapa, na qual nós temos que começar falando em nome dos pobres
e oprimidos, tem fim assim que eles comecem a falar com sua própria voz e com
suas próprias palavras. O povo começa a assumir seu próprio lugar na cena
pública. A teologia da libertação dá lugar, então, à libertação da teologia. O
processo completo leva-nos longe do paternalismo, de toda noção de um “saber”
que poderia vir a conduzir o povo e resolver seus problemas. Os padres que eram
inspirados pela teologia da libertação naquele tempo entendiam que nosso papel
era acompanhar o povo, e não tomar o lugar dele.
No Haiti, a
emergência do povo como força pública organizada, como consciência coletiva já
tinha começado nos anos oitenta, e, por volta de 1986, essa força era forte o
suficiente para afastar a ditadura Duvalier do poder. Foi um movimento da base
popular, e não um projeto piramidal, dirigido por um único líder ou uma só
organização. Também não foi apenas um movimento político. Ele tomou forma,
sobretudo através da construção de numerosas pequenas comunidades eclesiais de
base, ou “ti legliz”, por todo o país. Foram essas comunidades que desempenharam
um papel histórico decisivo. Quando fui eleito presidente, não se tratava
somente de um cargo estritamente político, da eleição de um político, de um
partido político convencional. Não! Tratava-se da expressão de um grande
movimento popular, da mobilização do povo como um todo. Pela primeira vez o
Palácio Nacional tornou-se um lugar não só de políticos profissionais, mas para
o povo, ele mesmo. O simples fato de permitir-se a pessoas comuns entrarem no
palácio, o simples fato de serem bem vindas pessoas das camadas mais pobres da
sociedade haitiana no coração central do poder tradicional – isto já foi um
gesto profundamente transformador.
Você hesitou
por algum tempo antes de aceitar colocar-se como candidato naquelas eleições de
1990. Você estava perfeitamente consciente de como, considerando-se as relações
das forças existentes, a participação nas eleições poderia enfraquecer ou
dividir o movimento. Olhando para trás agora, você ainda pensa que foi a coisa
certa a fazer? Haveria alguma alternativa viável àquela de seguir a via
parlamentar?
Aristide
- Eu sou inclinado a pensar a história como um processo de cristalização de
diferentes tipos de variáveis. Algumas delas são conhecidas, outras não. As
variáveis que nós conhecíamos e entendíamos naquele tempo eram bastante claras.
Nós tínhamos uma idéia do que éramos capazes e também sabíamos que aqueles que
buscavam manter o status quo tinham inúmeros meios à disposição. Eles tinham
toda sorte de estratégias e mecanismos – militares, econômicos, políticos... –
para desorganizar qualquer movimento que desafiasse sua continuidade no poder.
Mas nós não podíamos saber exatamente como eles se serviriam destes meios. Eles
mesmos não poderiam saber. Estavam acompanhando atentamente a forma como o povo
lutava para inventar modos de organizar a si mesmo, modos de promover
efetivamente este desafio. Isso é o que eu penso acerca de variáveis
desconhecidas: o movimento popular estava em processo de ser inventado e
desenvolvido, sob pressão, no campo de batalha, e não havia meios de saber de
antemão que contra-ataque eles iriam provocar.
Agora, dado o
equilíbrio desses dois tipos de variáveis, eu não podia voltar atrás. Não recuei
em nada. Em 1990, fui convocado por outros no movimento a aceitar a cruz que
tinha caído sobre mim. Foi nesses termos que o Padre Adrien descreveu isso e foi
assim que eu entendi: eu deveria aceitar o fardo daquela cruz. “Você está no
caminho do Calvário”, ele disse, e eu sabia que ele estava certo. Quando recusei
isso, no início, Monsenhor Willy Romélus, em quem eu depositava muita confiança,
como conselheiro, insistiu que eu não tinha escolha. “Sua vida não pertence mais
a você”, ele disse, “Você a ofereceu em sacrifício ao povo. E agora que uma
missão concreta se apresenta a você, agora que você se encontra frente a essa
convocação especial, de seguir Jesus e carregar sua cruz, reflita cuidadosamente
antes de voltar atrás”. Isto era o que eu sabia, e sabia muito bem, então. Foi
uma espécie de caminho do Calvário. E assim que decidi, aceitei este caminho tal
como ele seria, sem ilusões, sem enganar-me a mim mesmo. Nós sabíamos
perfeitamente bem que não seríamos capazes de mudar tudo, que não seríamos
capazes de corrigir cada injustiça, que iríamos trabalhar sob severas
restrições, e assim por diante.
Suponha que eu
dissesse não, que não aceitasse ser candidato, como as pessoas iriam reagir?
Entendo agora o eco de certas vozes que perguntavam: “Vamos ver agora se você
tem a coragem de tomar essa decisão. Vamos ver agora se você não passa de um
covarde para aceitar essa tarefa. Você, que tem proferido os mais belos sermões,
o que vai fazer agora? Vai nos abandonar, ou vai assumir essa responsabilidade
de modo que juntos possamos seguir em frente?” E eu pensei sobre isso. Qual a
melhor maneira de colocar em prática a mensagem do evangelho? O que eu deveria
fazer? Eu lembro como respondi a essa questão, quando, alguns dias antes da
eleição de 1990, fui a uma manifestação pelas vítimas do massacre da Viela de
Vaillant, no qual vinte pessoas foram mortas pelos Macoutes, no dia das eleições
canceladas de 1987. Um estudante me perguntou: “Padre, o senhor pensa que poderá
mudar sozinho essa situação tão corrupta e injusta?” E eu, em resposta,
disse-lhe: “Para chover, é necessária uma, ou muitas gotas de chuva? Para uma
inundação, basta um fiozinho de água, ou a torrente de um rio?” E eu agradeci a
ele por me dar a chance de apresentar nossa missão coletiva na forma dessa
metáfora: não será sozinhos, como gotas de chuva, que você e eu conseguiremos
mudar essa situação, mas juntos, como uma inundação ou uma torrente, “lavalassement”,
que iremos transformá-la, saná-la, sem ilusão de que isso será fácil ou rápido.
Então, haveria
alternativas? Acho que não. No entanto, estou seguro de que havia uma
oportunidade histórica, e de que nós demos uma resposta histórica, uma resposta
que transformou a situação, um passo na direção certa. Naturalmente, fazendo
isso, provocamos uma reação. Nossos oponentes responderam com um golpe de
estado. Primeiro, a tentativa de golpe de estado de Roger Lafontant, em janeiro
de 1991, e, como ele falhou, o golpe de 30 de setembro de 1991. Nossos oponentes
tinham sempre meios desproporcionalmente poderosos de reprimir o movimento
popular. Nenhuma simples ação ou decisão poderia mudar isso. O que importa é que
nós tínhamos dado um passo adiante, um passo na direção certa, seguido de outros
passos. O processo que começou naquele época ainda é forte, apesar de tudo,
ainda é forte, e eu estou convencido de que ele virá somente a se fortalecer, e
que, no fim, ele irá prevalecer.
O golpe de
setembro de 1991 aconteceu apesar do fato de as políticas concretas que você
aplicou, quando estava no poder, terem sido muito moderadas, muito prudentes.
Teria sido um golpe inevitável, então? Apesar do que você fez ou não fez,
bastaria que a simples presença de alguém como você no Palácio Presidencial
fosse inaceitável para a elite haitiana? E, neste caso, o que mais poderia ser
possível fazer para prever e resistir aos violentos contra-ataques?
Aristide
- Bom, essa é uma boa questão. Eu entendo a situação do seguinte modo: o que
aconteceu em setembro de 1991 aconteceu também em fevereiro de 2004 e poderia
facilmente ocorrer novamente no futuro, sempre que a oligarquia que controla os
meios de repressão venha a empregá-los para manter uma versão oca de democracia.
Essa é sua obsessão: manter uma situação que poderia ser chamada de democrática,
mas que, de fato, consiste em uma democracia importada e superficial, controlada
de cima para baixo. Eles têm sido capazes de manter essa situação por um longo
tempo. O Haiti é independente há 200 anos, mas nós agora vivemos num país onde
um por cento da população controla mais que a metade da riqueza. Para a elite,
trata-se de estarmos nós contra eles, de procurar um modo de preservar as
desigualdades massivas que afetam cada faceta da sociedade haitiana. Nós estamos
submetidos a uma espécie de apartheid. Mesmo depois de 1804, a elite tem feito o
possível para manter as massas à margem, no outro lado dos muros que protegem
seus privilégios. É a isso que nós somos contra. É a isso que qualquer
democracia genuína é contra. A elite fará tudo que puder para certificar-se de
que controla um presidente fantoche, que controla um parlamento fantoche. Ela
fará o que for preciso para proteger o sistema de exploração do qual seu poder
depende. A sua questão deve ser colocada em relação a esse contexto histórico,
em relação a essa profunda e considerável permanência.
Continua na próxima edição. |