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O neoliberalismo e
a arte de lamber papel
O Bear Stearns era um dos cinco maiores
“bancos de investimento” dos EUA. Na verdade, era um conglomerado financeiro com
250 empresas e 15 mil funcionários, todos dedicados à especulação mais
despudorada, até sua quebra, em março de 2008 – e sua compra, pelo JP Morgan,
por um preço inferior ao valor do prédio de sua sede, um horrendo arranha-céu
octogonal encimado por uma gigantesca coroa, com 47 andares, no número 383 da
Avenida Madison.
Porém, até março de 2008, o Bear era
considerado um templo do neoliberalismo. E, sem dúvida, era: um antro de
vigaristas e escroques como poucas vezes se viu, mesmo nesse ramo de escroques e
vigaristas. Mas, de 2005 a 2007, poucos meses antes de quebrar, o Bear Stearns
foi seguidamente escolhido pela “Fortune”, na lista “As Companhias Mais
Admiradas da América”, como “a mais admirada empresa financeira”.
Como o Bear Stearns conseguiu isso? Se o
leitor respondeu que foi apenas vendendo fumaça com preço de platina aos
incautos, errou. Não, leitor, na verdade o Bear era adepto de métodos
verdadeiramente revolucionários de gestão, alguns deles completamente além de
sua época. Em seu livro “Castelo de Cartas” (ed. Best Business, pág. 284),
William D. Cohen revela uma das formidáveis estratégias que fizeram do Bear uma
verdadeira Meca neoliberal.
Trata-se de um memorando do então CEO (chefe
dos executivos) do banco, Alan Greenberg. Na época, Greenberg era o CEO mais bem
pago de Wall Street. Durante vários anos, recebeu entre US$ 15 milhões e US$ 20
milhões por administrar tão bem o Bear Stearns. No dia 18 de abril de 1986, ele
escreveu aos demais executivos sobre o tremendo desperdício de fita durex, que
ameaçava solapar a solidez financeira do Bear:
“A partir de agora, instruam suas
secretárias a lamber apenas o lado esquerdo da aba quando mandarem um envelope.
A razão para isso irá deixá-los impressionados, levando-os a pensar em por que
não tiveram a ideia sozinhos. Se o envelope for aberto com cuidado pelo
destinatário, poderá ser reutilizado e fechado, sem usar durex, por sua
secretária, lambendo o lado direito da aba e o selando. Após todos nós termos
nos acostumado a lamber com precisão, uma ampliação disso será lamber apenas o
terço esquerdo, depois o meio para o lado seguinte da aba, e o lado direito para
a penúltima viagem. Se a pessoa tiver uma língua pequena e boa coordenação
motora, um envelope poderá ser aberto e novamente fechado dez vezes”.
Reparou agora, leitor, por que você ainda não
ganhou US$ 20 milhões para não fazer nada – nada que preste, pelo menos?
Parece que o Civita quer implantar esse
sistema na “Veja” - o Cabeção já se ofereceu para ser o lambedor oficial.
C.L.
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