A agonia
da especulação
Neste artigo,
parte de um estudo mais amplo sobre a crise mundial, o economista Nilson Araújo de Souza,
presidente do Instituto do Trabalho Dante Pellacani, adverte para os riscos da submissão
da economia real à especulação financeira - a produção mundial não passa de US$ 30
trilhões contra US$ 64 trilhões esterilizados no cassino global. "A política de
espoliação realizada pelas oligarquias financeiras dos principais centros imperiais vem
deixando um rastro de destruição nas economias mais débeis", denuncia Nilson,
alertando que se hoje os países que adotaram o receituário neoliberal vêm sendo
"atingidos pelas sucessivas crises cambiais, financeiras e bursáteis", é
porque "seus governos adotaram programas econômicos que ao gerar déficits externos
e tornar suas economias dependentes do capital especulativo internacional, eliminaram
totalmente suas defesas e se tornaram altamente vulneráveis"
NILSON
ARAÚJO DE SOUZA
A política de
espoliação realizada pelas oligarquias financeiras dos principais centros imperiais vem
deixando um rastro de destruição nas economias mais débeis. Mas isso não garantiu que
as economias dos "três grandes" pudessem se levantar. A economia japonesa
continua mergulhada em profunda crise; a da Alemanha segue às voltas com o processo de
anexação da parte oriental e de "unificação" européia e não consegue
retomar o crescimento; a economia norte-americana, a despeito da campanha apologética
desencadeada pela mídia mundial, continua patinando na decadência e avança rapidamente
para a recessão.
De certa forma, a economia dos EUA foi a que teve
melhor performance neste último período, mas não foi muito diferente das demais. Depois
da recessão de 1990 a 1992, conseguiu crescer 2,2% em 1993, 3,5% em 1994, 2,0% em 1995,
2,4% em 1996 e 3,0% em 1997, conforme dados do FMI. A média anual desses cinco anos foi
de 2,6%, nada diferente da média dos países do G-7 e da OCDE nos últimos quatro anos.
Mas foi o suficiente para desencadear uma campanha na mídia com manchetes do tipo:
"A economia norte-americana entra em seu quinto ano de continuado e pujante
crescimento". "É o novo milagre norte-americano". E o subsecretário do
Tesouro dos EUA, Larry Sammers, por ocasião da cúpula de Denver, que reuniu em 1997 o
"grupo dos sete", completou: "Somos a única superpotência econômica.
Somos a economia mais dinâmica e flexível do mundo". Para eles, estaria se
concretizando a "nova ordem mundial" sob domínio dos EUA, sonhada por Bush em
fins dos anos oitenta.
Crescer a pouco mais de 2% é um crescimento
medíocre. É bem verdade que é uma façanha para um país que vinha há vinte anos
crescendo, ou melhor, vegetando, a uma taxa anual de pouco mais de 1%. Mas, convenhamos,
pular do patamar de 1% para 2% não é nenhum milagre. Lembram-se do "milagre
japonês" de pós-guerra? Crescimento de 10% ao ano. Lembram-se do "milagre
brasileiro"? Crescimento de 10% ao ano. E do atual "milagre chinês"? Duas
décadas crescendo na faixa de 10% ao ano.
O estranho seria se, depois de haverem, desde a
década de oitenta, enxugado os recursos do resto do mundo (espoliando o Terceiro Mundo e
tomando emprestado do mundo desenvolvido) e, nesta década de noventa, terem invadido, com
suas exportações, os mercados da América Latina, os Estados Unidos não houvessem
conseguido sequer esse medíocre crescimento. Suas exportações haviam estagnado durante
quase toda a década de oitenta (em torno de uma cifra média de US$ 225 bilhões por ano
de 1980 a 1987), mas de 1988 em diante passaram a crescer de forma alucinante, até
atingir o montante de US$ 612 bilhões em 1996, quase três vezes mais (FMI, International
Financial - Yearbook, 1995 e 1996; e CEPAL - Washington, Economic Survey of the United
States in 1996), devendo ultrapassar os US$ 800 bilhões em 1998. Esse vertiginoso
crescimento das exportações se deve à combinação da violenta desvalorização do
dólar deflagrada por Reagan (baixou de 250 ienes em 1985 para 80 ienes dez anos depois)
com a pressão pela derrubada das barreiras de outros mercados, particularmente dos
países da América Latina.
Além disso, essa ligeira melhoria se deve à
adoção, pela administração Clinton, de uma política econômica interna que se opõe,
no essencial, à que os cartéis dos EUA, através do "Consenso de Washington",
propugnam para os países da América Latina.
Em lugar da abertura de sua economia para a
entrada de produtos estrangeiros, como pregam para os outros, o que os EUA têm feito é
criar cada vez maiores empecilhos para essa entrada, desde a fixação de cotas até o uso
hipócrita de cláusulas ambientas, sociais, direitos humanos, direitos indígenas, etc.
No momento atual, 67 produtos brasileiros estão afetados por essas limitações. E assim
é que, enquanto de 1989 a 1996 se destruíram 34,2% dos empregos industriais brasileiros
(dados do IBGE), estima-se que de 1992 a 1997 se criaram 12 milhões de novos empregos nos
EUA. Graças a isso, os EUA são o único país em que, nesse mar de desemprego que se
alastra pelo mundo, houve uma queda da taxa de desemprego: baixou da faixa de 7% da força
de trabalho no começo do governo Clinton para 4,5% em maio de 1998, enquanto na União
Européia aumentava de 5,6% em 1980 para 11,4% em 1996 e no Japão subia de 2% para 3,5%
(OCDE, Economic Outlook, nº 60, dez. 1996), havendo superado os 4% oficiais em 1998 (há
indicações de que o desemprego real no Japão é mais do que o dobro do oficial).
A queda do desemprego nos EUA mostra que o
desemprego que assola o mundo não se deve a qualquer avanço tecnológico, pois, mesmo
vivendo um crescimento econômico medíocre, os EUA conseguiram baixar seus níveis de
desocupação.
Em lugar de cortar os gastos públicos, como os
EUA forçam os outros a fazerem, o que o governo Clinton fez, ao iniciar seu mandato, foi
baixar um pacote de investimentos de US$ 1 trilhão, alavancado pelo setor público: os
gastos públicos permanecerem na faixa de 32% do PIB, mas foram reorientados para
investimentos produtivos, o que contribuiu para a elevação da taxa de investimento
(investimento em relação ao PIB) de 15% em 1992 para 17% em 1995. Alguma melhora, mas,
certamente, um nível ainda muito baixo, se considerarmos que os "milagres"
japonês e brasileiro contaram com taxas de 25% a 30%.
Houve quem se apressasse em atribuir esse
"crescimento" dos EUA a uma suposta revolução tecnológica, que estaria
melhorando a produtividade de sua economia e dando, portanto, base para um crescimento
duradouro e sustentado. Se isso fosse verdade, não estaria diminuindo o desemprego, pois
crescer a cerca de míseros 2% ao ano como decorrência de um substancial progresso
técnico e, ainda assim, gerar novos empregos é algo impossível de ocorrer, a não ser
que estivesse havendo uma significativa redução da jornada de trabalho, coisa que, como
se sabe, não está acontecendo. Já demonstramos antes, com base em estudo de dois
famosos economistas norte-americanos, que os incrementos de produtividade nos anos noventa
são tão ridículos quanto os verificados nas décadas de setenta e de oitenta. Esse
estudo é reforçado por um outro, de Doug Henwood, editor do boletim Left Business
Observer, em que se demonstra que o PIB por empregado nos EUA fica em 12º lugar entre 14
países estudados.
Na verdade, o fundamento dessa insignificante
melhora da economia norte-americana tem sido um fundamento falso, que não conseguiu se
sustentar por muito tempo: é o endividamento público e externo dos EUA e o aumento da
pilhagem do Terceiro Mundo.
O endividamento, isto é, a antecipação de
renda futura para financiar o presente, está chegando ao seu limite. Havendo iniciado na
época de Reagan, levou não apenas a que os EUA se transformassem nos maiores devedores
líquidos do mundo, mas a que essa dívida passasse a crescer de forma alucinada e
descontrolada: de uma dívida pública de US$ 1,6 trilhão em 1985, já chegara a US$ 5,2
trilhões em 1996, equivalentes a quase 70% do PIB do país; nesse ano, a dívida externa
líquida já ultrapassava US$ 1 trilhão e vinha crescendo de 15% a 20% ao ano (o conjunto
dos compromissos externos chegava a US$ 4 trilhões). Todos se lembram da enorme confusão
que houve em 1997 entre o executivo e o Congresso, por ocasião da votação do
orçamento, quando se tratava de elevar o limite de endividamento. Depois de várias
paralisações da administração do país, Clinton teve que aceitar a redução dos
gastos públicos, sobretudo os sociais, para ver autorizada a ampliação desse limite. A
prosseguir o corte de gastos públicos, elimina-se a principal alavanca adotada no
período recente para tentar recuperar a economia.
Mas o problema maior é a dificuldade crescente
de financiar os deficits interno e externo provocados pelos juros decorrentes desse
endividamento. Esses financiamentos têm origem basicamente externa, sobretudo no Japão
(30% dos títulos do Tesouro dos EUA estão em mãos japonesas), mas também na Alemanha.
A Alemanha, atolada nas próprias dificuldades (o desemprego acaba de bater novo recorde,
atingindo 4,8 milhões de trabalhadores) e nas dificuldades do processo de anexação da
parte oriental e de "unificação" européia, deverá concentrar, cada vez mais
em sua própria economia e na Europa, os recursos de que dispõe.
O caso do Japão é mais grave. A economia
norte-americana é, hoje, umbilicalmente ligada à economia japonesa. O Japão vem, há
décadas, obtendo enormes superávits comerciais com os EUA, e usa esses recursos para
financiar os deficits externo e público desse país. Ou seja, o Japão obtém nos
próprios EUA os recursos que usa para financiá-los. No período recente, tentou obter
também nos chamados países emergentes da Ásia, para onde passou a vender 44% de suas
exportações mundiais. Mas, depois que entrou em crise, foi com muita sede ao pote e
terminou arrastando as economias desses países. Portanto, quebrar o Japão, como tratou
de fazer a estratégia deflagrada por Reagan, pode significar a quebra dos próprios EUA.
E o Japão parece ter ido a nocaute. Sua difícil
situação, que se arrasta desde a quebra dos mercados imobiliários em 1989 e a queda da
Bolsa de Tóquio em janeiro de 1990, não apresenta o menor sinal de melhora. Nos últimos
três anos, vários esforços têm sido feitos para levantar sua economia, mas de nada
adiantaram. Buscando retomar sua antiga capacidade de competir no mercado internacional,
desvalorizou o iene em relação ao dólar: de 80 ienes por dólar em abril de 1995,
chegou-se a 146 no final do primeiro semestre de 1998. Para realizar essa política, o
governo japonês enviou, em julho de 1995, missão aos EUA, chefiada por Eisuke Skakibara,
do Ministério das Finanças; para que o governo norte-americano aceitasse a
desvalorização do iene - o que quer dizer a valorização do dólar, que prejudicaria
suas exportações -, ofereceu em contrapartida a garantia de que as instituições
japonesas evitariam vender de forma desordenada os títulos do Tesouro dos EUA que tinham
em suas carteiras. Depois desse acordo, Skakibara recebeu o apelido de Mr. Yen. Na
tentativa de alavancar os investimentos, jogaram-se os juros na lona (baixaram de 6% ao
ano em 1990 para 0,5% em 1995, nível que vem mantendo) e adotaram-se vários programas de
investimentos públicos e de corte de impostos das empresas, a fim de incentivá-las a
aumentar seus investimentos. Até o primeiro semestre de 1998, já se haviam gasto US$ 250
bilhões com vistas a salvar os bancos da bancarrota, os quais, além disso, começaram a
levar de volta os recursos aplicados nos países da região. Com esses pacotes, o governo
japonês, em lugar de dar dinheiro de graça aos bancos, como se fez no Brasil, adquiria
deles novas emissões de ações preferenciais e títulos secundários a fim de contribuir
para a sua recapitalização. Essas medidas cobraram seu preço: o déficit público já
havia aumentado de 0,3% do PIB em 1991 para 7,7% em 1995 (cf. OCDE, Études Économiques:
Japon, nov. 1995). Para financiar esse déficit, o governo japonês endividou-se como
nunca: sua dívida pública já equivale ao PIB, superando, em termos relativos, a dívida
pública dos EUA, que corresponde a 70% do PIB.
Por outro lado, com o objetivo de fazer caixa, os
investidores japoneses começaram a vender seus ativos no exterior, particularmente
edifícios, hotéis e shoppings centers nos EUA. E, mais recentemente, começaram a buscar
de volta os recursos que aplicaram nas economias asiáticas.
Só de crédito podre estima-se que os bancos
japoneses tenham junto aos "tigres" recursos da ordem de US$ 120 bilhões, US$
23 bilhões dos quais na Indonésia. Foi o repatriamento de parte dessas aplicações que
provocou a "crise asiática" deflagrada no segundo semestre de 1997. De um lado,
o Japão enfraqueceu as economias desses países ao forçar o ingresso de produtos
japoneses em seus mercados internos, gerando, em consequência, deficits em suas contas
correntes e tornando vulneráveis suas contas externas. A desvalorização do iene em
relação ao dólar, ao melhorar a capacidade competitiva das empresas japonesas no
mercado internacional, debilitou mais ainda essas economias, pois, além de invadir seus
próprios mercados, as desbancou do mercado norte-americano. De outro, quando teve sua
crise aprofundada, o Japão levou de volta os recursos que havia injetado nesses países
para cobrir os referidos déficits, o que deflagrou a queda das bolsas e a fuga de
capitais, provocando a desvalorização de suas moedas. Fica claro, então, que os
empréstimos concedidos pelo FMI a esses países, da ordem de US$ 100 bilhões, depois da
crise de 1997, foram, em último instância, para ajudar o Japão, na medida em que
permitiram o "repatriamento" de seus capitais aplicados na região.
Mas as dificuldades da economia japonesa
continuaram. Só nos seis meses seguintes à "crise asiática" de outubro de
1997, o governo japonês baixou seis pacotes destinados a reanimar a economia, reforçando
as medidas anteriores (em abril de 1998, baixou mais um de US$ 150 bilhões), mas a crise
continuou. Desde o fim de 1997, foram à bancarrota a quarta maior corretora do país, a
centenária Yamaichi; a corretora Sanyo, que estava entre as dez maiores; o 10º maior
banco, o Hokkaido Sanyo; o Tokuyo City Bank. Enquanto isso, o Tokyo-Mitsubishi, o maior do
país e até recentemente do mundo, anunciava perdas de US$ 7,7 bilhões, e dezenas de
bancos ficavam pendurados no redesconto do BC japonês. O conjunto dos bancos japoneses
fechou o ano fiscal de 1997 (terminado em março de 1998) com prejuízo de US$ 31,3
bilhões.
Segundo a maior agência de pesquisa econômica
do Japão, a Teikoku Data Bank, o ano fiscal de 1997 foi o pior de toda a história do
país. O PIB caiu relativamente pouco (0,7%), mas cerca de 17 mil empresas faliram,
deixando uma dívida de US$ 113,7 bilhões, superando em 64,5% o montante de 1996. A
projeção para 1998 é mais dramática ainda: o PIB, depois de cair 1,5% no último
trimestre de 1997, caiu 5,3% no primeiro trimestre de 1998 e mais 3,5% no segundo
trimestre, relativamente ao mesmo período do ano anterior. A produção industrial de
maio de 1997 a maio de 1998 teve uma queda dramática - 11,2% -, enquanto a produção de
automóveis no primeiro semestre de 1998 despencou 10,5% em relação a igual período do
ano anterior, segundo dados da Associação Japonesa de Fabricantes de Automóveis. Num
país que, em face do tradicional acordo de estabilidade e da pujança econômica
anterior, os índices de desemprego tendiam a zero, o índice oficial chegou a 4,3% em
maio de 1998, num total de cerca de 3 milhões de desempregados, o maior índice do
pós-guerra. Na faixa etária de 15 a 24 anos, a taxa chegou a 9,1%. Os sindicatos
denunciam que muita gente teve seus salários cortados e fica em casa sem trabalhar,
desvirtuando o índice oficial. Os desempregados reais seriam mais que o dobro dos
computados nas estatísticas oficiais, sem contar os milhares de decasseguis brasileiros
que estão sendo forçados a retornar ao Brasil por haverem perdido o "emprego".
O aumento dos suicídios tem sido indicado como uma das consequências mais dramáticas
desse quadro de dificuldades: de acordo com a Agência da Polícia Nacional,
registraram-se em 1997 24.392 mortes por suicídio, sendo que 3.556 delas claramente por
motivos econômicos.
O problema é que o buraco é mais embaixo. O
fundamental é que, sendo uma economia altamente vulnerável externamente, na medida em
que depende de mercados externos para vender seus produtos e de fontes externas de
matérias-primas para abastecer sua indústria, o Japão não conseguiu resistir à
ofensiva da "era Reagan", tendo em seu flanco, além disso, a pujante economia
chinesa, que começou a ocupar parte de seu mercado mundial. Não há melhor exemplo dessa
vulnerabilidade externa do que a repercussão da valorização do iene nas taxas de lucro
interna. Conforme levantamento do Ministério da Indústria e do Comércio do Japão
(MITI), de maio de 1994, cada aumento de um iene por dólar custava à indústria
automobilística japonesa uma queda de 15% nos lucros (antes dos impostos), sendo de 9% a
queda na indústria eletrônica. A Tokyo Motors anunciou, em abril de 1993, perda de 6
bilhões de ienes pela mesma elevação do iene e a Sony Corporation, em abril de 1996, 5
bilhões de ienes (cf. Melin, Luiz Eduardo, O Enquadramento do Iene, In: Tavares, M.C. e
Fiori, José Luís, Poder e dinheiro, já citado, p.378)
O problema, em última análise, é que,
dependendo intrinsecamente do mercado internacional para sobreviver, o Japão não conta
com um Estado suficientemente forte para bancar esse jogo mundial. Isso ficou evidente no
caso da crise bursátil e financeira dos "tigres asiáticos". Foi necessária a
intervenção do FMI, braço direto do governo norte-americano, e desse próprio governo,
para garantir o repatriamento de parte dos capitais japoneses. E por que os EUA, depois de
haverem jogado para quebrar o Japão, tentaram ajudá-lo nessa hora de dificuldades? O
próprio presidente dos EUA, Bill Clinton, deu a razão no discurso que fez no Congresso
no começo de 1998. Ao contrário do brutamontes do Reagan, Clinton percebeu que, se o
Japão caísse, levaria os EUA de roldão.
Isso tem a ver com a dinâmica da especulação
financeira internacional. Em primeiro lugar, cabe registrar que as montanhas de dinheiro
injetadas na economia japonesa não estão promovendo sua reanimação porque, a despeito
dos juros próximos a zero, esse dinheiro não está sendo canalizado para a produção ou
o consumo. A população, ao ter sua renda líquida aumentada em face da redução dos
impostos, em lugar de melhorar seu consumo, prefere destinar essa renda extra à
poupança, dada a ausência de um sistema público de previdência e à insegurança em
relação ao futuro provocada pela crise. Isso fica claro quando se sabe que o
seguro-desemprego no Japão só beneficia os trabalhadores acima de 45 anos e com mais de
10 anos de serviço, e que menos de 5% do gasto público são destinados à assistência
social e médica (cf. Newsweek, 20.12.93). Assim, essa poupança familiar, ao invés de
ser canalizada para o investimento produtivo, é sugada pela especulação. As empresas e
bancos, por sua vez, preferem desviar esses recursos extras para a especulação
financeira internacional, que paga juros dez, vinte, cinquenta vezes mais altos do que os
oferecidos atualmente no Japão. Segundo dados da Investment Trust Association, só os
ativos dos fundos mútuos japoneses aplicados no exterior cresceram 47% de maio de 1997 a
maio de 1998. É essa fuga em massa de capitais que está provocando uma desvalorização
do iene além dos níveis desejados pelo governo japonês.
Injetar dinheiro na economia japonesa a essa
altura, ao invés de ajudar sua recuperação, como ocorreria em outras épocas em que a
produção predominava sobre a especulação, significa, na realidade, jogar dinheiro no
buraco sem fundo, no verdadeiro buraco negro, em que se converteu a especulação
financeira global. Isso que está ocorrendo no Japão é a exacerbação de uma situação
mais geral que caracteriza a economia capitalista "moderna". Trata-se da
crescente preponderância da especulação financeira sobre a economia real, ou seja,
sobre a produção, o emprego, a renda, o consumo, o investimento. A produção mundial
não passa de US$ 30 trilhões contra quase US$ 64 trilhões circulando na especulação
financeira. Essa base tão estreita da economia real não pode seguir sustentando por
muito tempo a farra especulativa que a escorcha cada vez mais. É como o rabo balançar o
cachorro.
O Japão foi levado a isso, como examinamos
anteriormente, pela política de juros altos e de endividamento iniciada por Reagan, que
passou a ter os bancos japoneses como os principais financiadores. De um lado, os títulos
da dívida pública norte-americana passaram a constituir a principal base de alavancagem
da especulação global e, de outro, os superávits comerciais e os bancos japoneses se
converterem nos principais provedores dos recursos que alimentam essa especulação. Essa
situação se agravou depois da emergência da crise japonesa no início desta década.
Com recursos expulsos da produção, em face das crescentes dificuldades de vender suas
mercadorias no mercado internacional, o Japão deu o salto no escuro de campeão da
produção mundial para campeão da especulação.
Quando a farra especulativa começa a baixar a
poeira, porque não encontra mais contrapartida na economia real (pois, afinal, quem
produz valor e excedente para alimentar a especulação é a economia real), como já
começou a ocorrer nos velhos e nos novos "tigres asiáticos" (índice elaborado
pela Morgan Stanley International revela que, de julho de 1997 a agosto de 1998,
perderam-se, nos chamados mercados emergentes, todos os ganhos especulativos acumulados
nos últimos sete anos), e no próprio Japão - onde o índice Nikkey já havia caído, em
agosto de 1998, para apenas 36% do nível a que havia chegado em seu momento mais febril
-, surge a ameaça de insolvência, isto é, os créditos literalmente apodrecem. A banca
japonesa já está quebrada: o governo admitiu, em fins de 1997, a existência de
créditos podres no montante de US$ 630 bilhões, mas setores do mercado financeiro
estimam que podem chegar a US$ 1 trilhão, cifra que é confirmada pelo subsecretário do
Tesouro norte-americano, Lawrence Summers. A revista "Fortune" vai mais longe e
afirma que o rombo chega a 25% do PIB japonês, o que equivale a cerca de US$ 1,5
trilhão. Na sua avaliação, 14 dos 21 maiores bancos japoneses "estão mais mortos
que vivos, já que dispõem de mais dívida incobrável do que capital social".
Os problemas começaram a emergir a partir do
Japão porque o outrora poderoso tigre asiático não passa de um tigre de papel. É como
se fora o "elo débil" da cadeia imperialista. Mas, a partir daí, tendem a
generalizar-se para o conjunto do mundo capitalista. O chamado crash global das bolsas,
ocorrido no segundo semestre de 1997, não passou de um sintoma de uma crise mais profunda
que está por vir. Com dificuldades financeiras crescentes, a tendência é o Japão, como
fez com os "tigres", tentar levar de volta as imensas massas de capitais
aplicados no mercado financeiro norte-americano, deflagrando um processo selvagem de venda
de títulos desse país, o que inviabilizaria o financiamento de seus deficits gêmeos. É
bom lembrar que já existe precedente disso no crash de 1987 da Bolsa de Nova York. Para
tentar financiar esses deficits, o governo dos EUA não teria outra alternativa senão dar
um choque de juros, levando-os para a estratosfera, o que aprofundaria ainda mais as
atuais tendências recessivas e arrastaria para o buraco o conjunto da economia mundial.
Não é necessário nem que o Japão consiga efetivamente levar os recursos. Basta
ameaçar de fazê-lo que os EUA terão que elevar seus juros na tentativa de segurar esses
recursos. Tem razão Clinton: se deixado sozinho, o Japão cai, mas levará consigo a
economia norte-americana e o resto do mundo.
No entanto, se o esforço que pretende realizar o
governo dos EUA para ajudar o Japão a se levantar se circunscrever aos poucos bilhões de
dólares (US$ 6 bilhões) que seu banco central dispendeu em junho de 1998 para tentar
sustentar o iene, que estava em queda livre, é certo que a economia japonesa continuará
despencando. Na verdade, atolados como estão até o pescoço em dívidas incontroláveis,
não se pode esperar que os EUA façam nada substancialmente diferente disso. Além disso,
nada garante que o governo e os conglomerados japoneses venham a aceitar as condições
impostas pelos EUA, como ficou claro na reunião do G-7 de fins de junho de 1998:
redução das exportações, isto é, abertura de espaço no mercado mundial para os
cartéis norte-americanos, e desnacionalização de seu sistema bancário, quer dizer,
entrega de parte dele para os bancos norte-americanos. Depois de quebrar o Japão, a
oligarquia financeira dos EUA pretende dominar sua economia.
Arrastado pelo Japão, está caindo o conjunto da
Ásia, à exceção da China. No rastro da crise financeira, cambial e bursátil,
provocada pelo "repatriamento" dos capitais japoneses, os países da região
mergulharam em profunda recessão desde o último trimestre de 1997. E, nos onze meses que
se seguiram ao início da crise, em julho de 1997, o desemprego dobrou no conjunto da
Ásia, passando de 22 milhões de trabalhadores desempregados para 43,6 milhões, sendo
que chegou a triplicar na Indonésia e na Coréia do Sul. Ao despencarem rumo ao
despenhadeiro, esses países, por sua vez, contribuem para agravar mais ainda a situação
da economia japonesa, na medida em que, sendo o principal mercado externo do Japão,
diminuem suas compras desse país: nos primeiros cinco meses de 1998, caíram 37,3%. É
uma situação semelhante à do afogado que busca se salvar segurando em outro afogado.
Isso significa que o fato de que tenham voltado a ter superávits comerciais não quer
dizer que a desvalorização de suas moedas já tenha repercutido no aumento de suas
exportações, mas que, devido à profunda recessão em que estão mergulhados, reduziram
drasticamente suas importações.
Nesse quadro, ainda que seja feito um esforço
internacional mais sério para levantar a economia da região, nada garante que seja bem
sucedido. Mesmo que fosse, a crise já se espalhou para todos os países
"emergentes" - isto é, os países cujos governos abraçaram o ideário
neoliberal e que hoje seriam mais propriamente "submergentes" ou em estado de
emergência. A situação da Rússia é de verdadeira catástrofe. Segundo o ex-ministro
de Ieltsin e candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais, o ultraneoliberal
Grigori Yavlinski, "o PIB é 50% inferior ao que era dez anos atrás, sob o
comunismo". Na verdade, ele está subestimando a situação, pois, se considerarmos
apenas o período posterior à desagregação da URSS, em 1991, a queda chegou a 67%. Em
consequência, a expectativa de vida para homens "caiu para níveis quenianos: de 65
para 58 anos", de acordo com a conservadora revista "The Economist", que
completa: "(O aumento da mortalidade) significa que, a cada mês, morrem mais de 20
mil russos, que, sob o comunismo, poderiam ter contado com uma vida mais longa".
Além disso, dados do Banco Mundial revelam que "32 milhões de pessoas estavam
situadas, em 1996, abaixo da linha de pobreza, enquanto muitos outros lares experimentavam
insegurança financeira por causa de atraso de pagamentos de salários e pensões por
parte do poder público".
E esse quadro dramático não tem nada a ver com
qualquer herança do socialismo, como querem fazer crer alguns ideólogos mais extremados
do neoliberalismo. Na verdade, é resultado direto da desagregação do socialismo e da
construção de uma economia máfio-capitalista, comandada pela máfia e grupos
estrangeiros, particularmente da Alemanha. E quem diz isso é o Banco Mundial. Segundo
ele, dez anos de "reformas" provocaram "profundas mudanças na
Rússia", sendo que "mais de 70% do PIB é agora gerado no setor privado",
situação semelhante a qualquer país capitalista. Nesse processo, além da
expropriação selvagem do patrimônio público por esses grupos mafiosos e estrangeiros,
o país foi submetido a verdadeiro saque: estima-se que já foram levados do país entre
US$ 300 bilhões e US$ 500 bilhões desde a queda da URSS. Soma-se a isso um
importacionismo desvairado - importam-se 50 % dos produtos agrícolas consumidos
internamente e cerca de 80% dos bens vendidos nas prateleiras dos supermercados -, que
está devastando a economia interna. Donde decorre a demissão em massa - o índice
oficial de desemprego é de 10,5% da força de trabalho, mas os sindicatos estimam que já
existem mais de 20 milhões de trabalhadores desempregados - e a queda das receitas
governamentais e a deterioração das finanças públicas: o deficit público é de 7,5%
do PIB.
Para cobrir esses rombos, o governo russo
recorreu cada vez mais ao capital especulativo internacional, principalmente o alemão: a
dívida externa, antes dos empréstimos recentes bancados pelo FMI, já havia atingido a
cifra de US$ 130 bilhões, sendo que cerca de US$ 30 bilhões vencem no curto prazo. Mas,
com a deterioração das contas externas e públicas, a permanência do dinheiro desses
agiotas no país era apenas questão de tempo. A qualquer momento, poderiam debandar. O
desastre seria inevitável. A partir do primeiro semestre de 1998, os capitais
especulativos, com medo de perder tudo, começaram a fugir do país, fazendo despencar a
bolsa de valores e pulverizando as reservas cambiais. Na vã tentativa de segurar esses
capitais e de conseguir recursos para pagar a dívida de curto prazo, a reação do
governo consistiu em jogar os juros na estratosfera - em agosto de 1998, a taxa básica
havia chegado a 250% ao ano - e submeter-se à humilhação de ajoelhar-se de pires na
mão perante o FMI. No entanto, apesar do desembolso de um pacote inicial de US$ 9,2
bilhões e parte de um novo empréstimo de US$ 22,6 bilhões, não foi possível impedir a
dèbâcle: ainda em agosto, o governo decretou a moratória das dívidas públicas,
bloqueou a conversão da moeda e deixou o rublo flutuar livremente; em menos de três
semanas, ele já havia desvalorizado em 63%, fazendo a inflação explodir, já que a
maioria dos produtos consumidos no país têm origem externa. É mais lenha na fogueira da
crise mundial.
Havia a expectativa de que a economia européia,
que já vive o drama do desemprego, não fosse muito atingida por essa onda de quebra nas
bolsas e de fuga de capitais, já que, como exigência para a criação da nova moeda, o
euro, havia realizado uma prévia e programada correção cambial. E, de fato, num
primeiro momento, conseguiu escapar do pânico que invadiu várias áreas do planeta. Mas
isso não durou muito. Os capitais já começaram a fugir das bolsas européias e elas já
começaram a cair. Com a libra em alta cotação, o Banco da Inglaterra elevou as taxas de
juros para impedir a fuga de capitais. O resultado foi a desaceleração da economia, que
crescera 2,5% no primeiro trimestre de 1998, mas apenas a metade disso no segundo
trimestre. Na Europa continental, de onde se dizia que reiniciara um crescimento
sustentado, ocorreu o mesmo: o crescimento do PIB caiu de 3,2% no primeiro trimestre para
1,5% no segundo (BusinessWeek, "Prepare-se para a desaceleração").
Com a pradaria seca, o incêndio também se
espalha pela América Latina. Depois de uma década de experimentos neoliberais, os
países da região, além de terem sofrido a devastação da indústria e do emprego,
foram expostos a um grau de vulnerabilidade externa nunca visto antes. Se considerarmos
apenas o déficit em transações correntes das contas externas (sem contar a
amortização de dívida), em 1998 o índice já havia superado 4% do PIB no Brasil,
Argentina, México e Venezuela e estava na faixa dos 6% no Chile, Peru e Colômbia
(Consensus Forecasts, LCA). Graças a esse rombo, o endividamento externo e interno desses
países chegou a níveis siderais. Foi em situação semelhante que os "tigres
asiáticos" foram afundados no vendaval do estouro da especulação global.
O México, em face de sua subordinação mais
escancarada aos EUA, através do NAFTA, foi o primeiro a quebrar, em fins de 1994. Os
demais países da região foram, sucessivamente, sacudidos pelas crises do México, da
Ásia e da Rússia, e seus respectivos governos, na tentativa de fugir de suas
responsabilidades, têm atribuído esses abalos à chamada globalização. Ora, se um
cidadão estivesse com seu sistema imunológico bem defendido, muito dificilmente ele
seria atingido por uma epidemia. Os países da América Latina vêm sendo atingidos pelas
sucessivas crises cambiais, financeiras e bursáteis, originadas em outras áreas, porque
seus governos adotaram programas econômicos que, ao gerar deficits externos e tornar suas
economias dependentes do capital especulativo internacional, eliminaram totalmente suas
defesas e se tornaram altamente vulneráveis a "epidemias" especulativas
externas.
Tem razão o economista do MIT, Paul Krugman,
quando, em recente artigo publicado na revista "Fortune", afirmou que a China
vem conseguindo escapar da crise porque, apesar de situar-se em meio à catástrofe da
Ásia, está com seu sistema imunológico melhor defendido, na medida em que tem
superávit externo, em lugar de deficit, e em que bloqueia a conversão da moeda local, o
yuan, em moeda externa, isto é, não mergulhou na moda neoliberal da desregulamentação
do mercado cambial.
Os países latino-americanos - inclusive o
México, apesar do "socorro" que recebeu na crise de 1994/95 -, dado o grau de
vulnerabilidade externa que já atingiram, serão inevitavelmente engolfados pelo furacão
da quebra do cassino global que toma conta do mundo. As sacudidas anteriores apenas
anunciam a grave crise que já desponta no horizonte. Todos teremos saudades da crise da
dívida que, no começo dos anos oitenta, preparou a "década perdida",
submetendo a região a um longo período de estagnação, desemprego, miséria e fome.
Conseguirão atravessar melhor esse quadro de dificuldades aqueles países cujos governos
venham a tomar consciência da gravidade da situação e primeiro começarem a adotar
medidas que protejam suas economias desse vendaval que inunda o planeta.
Há quem espere que os centros imperiais reunidos
no G-7, preocupados com as repercussões dessas crises na "periferia", possam
adotar um esforço extraordinário, além do que já foi feito no México, na Ásia e na
Rússia, para enfrentar esses "focos" de crise. Mas, mesmo que isso pudesse
ocorrer e se conseguisse empurrar a crise desses países para a frente, ainda assim a
crise global se imporá, mais cedo ou mais tarde. Pois, acabará por ser deflagrada ali
onde foram gestadas todas as condições para a sua emergência: a economia dos EUA. O
incontrolável endividamento desse país, usado para financiar os deficits gêmeos e
manter sua economia a tona, é também a base da especulação financeira global e nos
próprios EUA.
Ao denunciar, no primeiro semestre de 1997, a
"exuberância irracional" das bolsas de seu país, o presidente do Fed (banco
central norte-americano), Alan Greenpan, estava constatando o esgotamento desse processo
de especulação. E nunca houve tanta especulação financeira naquele país como agora, a
ponto de a conservadora revista inglesa The Economist haver advertido, em fins de abril,
em matéria de capa, que "a economia de bolha da América" está na iminência
de estourar.
Apesar da "crise asiática", o índice
Dow Jones, da Bolsa de Nova York, continuou valorizando-se até meados de 1998: cresceu
22,6% em 1997 e mais 15% de janeiro a abril de 1998. Na verdade, ela foi até favorecida
pela crise na Ásia, pois boa parte dos capitais que fugiram de lá se refugiaram no
mercado financeiro norte-americano. Mas o melhor indicador do nível a que chegou a
especulação nos EUA nos é revelado pela revista inglesa: "o índice Standard &
Poor das ações das 500 maiores empresas teve um retorno real de 825% desde 1982, o
começo desta ascensão do mercado, acima mesmo dos 730% de ganhos reais durante a bolha
de 1920". Vejam bem: o nível de especulação atual é superior ao que, ao explodir,
deu origem à Grande Depressão de 1929. E a especulação já começa a generalizar-se
para outros setores, particularmente o imobiliário. Em 1997, diz a matéria, "os
aluguéis comerciais subiram 20% ou mais em São Francisco, Boston e Dallas". E, em
Nova York, foram oferecidos "US$ 180 pelo pé quadrado para construção, duas vezes
o preço pago por um local semelhante seis meses atrás, perto da Times Square". Os
serviços também vêm sofrendo fortes aumentos de preços. Completa o jornal The New York
Times que, nos restaurantes da Manhattan, cobram-se hoje US$ 4 mil por uma garrafa de
vinho que custava US$ 1.500 quatro anos atrás. É especulação para agiota algum botar
defeito. A pressão inflacionária daí derivada só vem sendo contida porque a
valorização do dólar vem permitindo o barateamento dos produtos importados, mas à
custa do agravamento das contas externas - a balança comercial de maio deste ano teve o
maior déficit desde 1992 -, precisamente num momento em que crescem as dificuldades para
financiar esse rombo.
Essa "bolha especulativa" chegou a seu
limite porque chegou ao limite a capacidade de financiamento do crescente endividamento
público e externo norte-americano. De um lado, pelo agravamento da crise de seus
principais financiadores, os banqueiros japoneses, e, de outro, porque, com a tendência
à queda estrutural de sua taxa de lucro, a economia real norte-americana tem cada vez
maior dificuldade de alimentar esse nível de especulação. Como, por exemplo, garantir
recursos para bancar a estupenda valorização das ações na bolsa se os lucros obtidos
no processo produtivo estão em queda e a poupança familiar praticamente desapareceu?
Segundo dados do Departamento de Comércio dos EUA, os lucros das empresas caíram 2,4% no
quarto trimestre de 1997 e mais 2,2% no primeiro trimestre de 1998. A poupança das
famílias, por sua vez, que era de 3,9 % de suas rendas em 1996, caiu em 1997 para
insignificantes 2,1% - o menor índice desde a Grande Depressão de 1929.
|