| A agonia da especulação global (II)
Dando continuidade ao
artigo publicado na edição anterior, o economista Nilson Araújo de Souza, presidente do
Instituto do Trabalho Dante Pellacani, demonstra que "a recessão se generalizará a
partir dos EUA, cuja economia é, na verdade, o epicentro da crise", "pois além
de terem os maiores déficits externos e a maior dívida externa do mundo, para completar,
converteram-se de maiores investidores estrangeiros do mundo em maiores recebedores de
investimentos estrangeiros". "O tombo da economia norte-americana levará,
inevitavelmente, à bancarrota da economia mundial. Se chegarem a aumentar suas taxas de
juros, como decorrência de uma provável retirada de capitais japoneses, os EUA
enxugarão capitais do mundo inteiro, além de forçar os demais países a também
aumentar seus juros, a fim de não perder capitais. O resultado será a redução da
produção em todo o mundo", adverte Nilson. Segundo o economista, "o
fortalecimento dos Estados nacionais é um instrumento decisivo para a construção da
nova etapa do desenvolvimento", que "só não interessa aos parasitas que
dominam o capital financeiro especulativo dos países centrais, que querem dominar o mundo
a partir de seus próprios Estados nacionais"
Nilson Araújo de
Souza
A brutal
desvalorização desses ativos financeiros, que pode ocorrer a qualquer momento, será a
vingança da economia real. Mas será uma vitória de Pirro. Incapaz de seguir sustentando
o parasitismo ciclópico característico da especulação global, isto é, incapaz de
seguir fornecendo os recursos que alimentam essa especulação, os limites, cada vez mais
estreitos, da economia real forçarão uma gigantesca desvalorização dos ativos
financeiros, mas essa pulverização da riqueza acabará por devastar mais ainda a
economia real, como ocorreu em 1929. A pulverização da riqueza financeira, que já deu
seus primeiros passos (só em julho e agosto de 1998, segundo a revista The Economist, o
valor das ações, no mundo todo, já havia caído o correspondente a US$ 4 trilhões,
cinco vezes o PIB brasileiro), destruirá da noite para o dia riquezas incomensuráveis
que foram acumuladas nesses anos de parasitismo especulativo, mas, ao devastar a economia
real e, portanto, o emprego, prejudicará, sobretudo, às massas trabalhadoras. Essas,
ademais, terão enormes prejuízos porque, com a privatização dos sistemas
previdenciários, foram lançadas nos braços de fundos privados de pensão, que também
entraram na ciranda financeira (detêm US$ 6,5 trilhões dos recursos envolvidos na
especulação internacional) e serão engolfados pelo furacão que varrerá a
especulação. Os problemas sociais, que já são graves, em face do desemprego e do corte
dos direitos sociais, ficarão ainda mais dramáticos.
Aliás, repetindo o que ocorreu em 1929, um outro
sintoma de que uma violenta e nova recessão já bate às portas da economia
norte-americana é a explosão de fusões - a maior da história - que ocorre atualmente
no país: em 1997, os negócios de fusão montaram em US$ 957 bilhões, equivalentes a 12%
do PIB e a todas as fusões realizadas de 1980 a 1990; os negócios em 1991 haviam sido de
US$ 138 bilhões, apenas 2% do PIB. Com base nos quatro primeiros meses de 1998, estima-se
que chegarão a 20% do PIB no ano. Neste século, as grandes crises nos EUA têm sido
sempre precedidas por uma onda de fusões industriais, comerciais e bancárias. A onda do
começo do século deu origem ao crash de 1904; a da década de vinte resultou na grande
depressão de 1929; no bojo da onda dos anos sessenta, nasceu a recessão da década de
setenta; a da segunda metade dos oitenta originou a recessão deflagrada em 1990.
Não é difícil perceber porque o
recrudescimento das fusões antecedem as crises. As fusões são a forma como se manifesta
a centralização dos capitais, isto é, a redistribuição dos capitais existentes entre
os capitais maiores. Não significam, portanto, acumulação de capital, crescimento da
massa de capitais. É diferente da concentração, em que os capitais crescem pela
acumulação do excedente econômico, ou seja, pela conversão de lucro em novo capital.
Ora, a briga dos grandes grupos econômicos para abocanhar os demais se intensifica
precisamente quando o mercado total pára de crescer, deflagrando a luta por um mercado
cada vez mais estreito. E isso ocorre precisamente na mudança do auge da economia para a
crise. A situação é mais grave nestes tempos de decadência do imperialismo, em que o
capital financeiro dos países centrais só conseguia crescer à custa do arrocho salarial
de seus próprios trabalhadores e da devastação da capacidade produtiva e, por
decorrência, do mercado dos países da periferia.
A economia norte-americana está no fio da
navalha. Qualquer mudança de sinal da política monetária, comandada pelo Federal
Reserve, pode precipitar uma crise sem precedentes. O desastre de 1929 foi precedido pela
decisão do Fed de subir, a partir de meados de 1928, a taxa de desconto e, em
consequência, as taxas de juros, o que provocou o estouro da bolha especulativa em
outubro de 1929. A cautela atual do Fed, que, em outras circunstâncias, já teria elevado
os juros, revela claramente seu temor em provocar uma grave recessão no país. Mas a
situação é tão delicada que, mesmo sem adotar qualquer medida, meras advertências de
seu presidente têm provocado fortes abalos nas bolsas, como ocorreu a partir do final de
julho de 1998.
Não é por mera coincidência que o clima de
euforia que vinha predominando na mídia (a matéria da The Economist foi uma exceção)
reproduzia o mesmo clima que precedeu a quebra da bolsa de Nova York em 1929. Em junho
daquele ano, escreveu a revista Forbes: "Nos últimos cinco anos temos estado numa
nova era industrial neste país. Estamos progredindo industrial e economicamente não só
muito rapidamente, mas numa escala perfeitamente heróica".
Para agravar a situação da economia
norte-americana, vem ocorrendo no período recente um enorme processo de valorização do
dólar em relação às principais moedas do mundo, particularmente em relação às
moedas européias e asiáticas. A valorização perante o iene, nos últimos três anos,
chegou a ser de 82,5%, passando de 80 ienes por dólar no primeiro semestre de 1995 para
146 em junho de 1998. Em relação a várias moedas da Ásia, à exceção da chinesa, o
dólar teve esse nível de valorização em menos de um ano, a partir de agosto de 1997.
Esse processo não decorreu de uma decisão unilateral do governo norte-americano. No caso
da Europa, seus governos decidiram conscientemente desvalorizar suas moedas, como forma de
melhorar suas contas externas e favorecer a unificação. A Ásia, por sua vez, teve de
realizar uma desvalorização desordenada, no bojo da crise financeira e cambial que a vem
atormentando. O barateamento dos produtos importados pelos EUA e o encarecimento dos
produtos exportados, decorrentes da valorização do dólar, tendem a aumentar, ainda
mais, o deficit comercial desse país, estimando-se que pode superar os US$ 300 bilhões
por ano. E, com isso, aumenta a necessidade de financiamento externo do país, justamente
num momento em que as fontes estão secando.
Vê-se que os EUA viraram um império
sui-generis: maiores déficits externos e maior dívida externa do mundo e, para completar
o quadro, converteram-se de maiores investidores estrangeiros do mundo em maiores
recebedores de investimentos estrangeiros. Em 1996, havia no país um estoque líquido de
investimentos estrangeiros diretos (descontados os investimentos que tinham no exterior)
de US$ 870,5 bilhões (ONU - CEPAL, Economic Survey of the United States in 1996,
Washington). Isso significa que, além da obrigação de remeter juros para o pagamento de
uma gigantesca dívida externa, os EUA passaram a ter que remeter também lucros e
dividendos para as matrizes das empresas estrangeiras instaladas no país. Em face do
enorme peso das transnacionais norte-americanas no resto do mundo e das maiores taxas de
lucros que elas obtêm, comparadas com as que as de outros países recebem na economia
norte-americana, esse balanço ainda é positivo (a conta que reúne o pagamento de juros,
lucros e dividendos ainda tinha um saldo positivo de míseros US$ 3 bilhões em 1996), mas
a tendência é se tornar rapidamente negativo, em face do vertiginoso crescimento da
dívida, que resultará dos gigantescos déficits comerciais.
Ironia do destino! Um país imperialista passando
a viver o mesmo drama que tem caracterizado os países dependentes: vulnerabilidade e
sangria externas. Não há melhor sinal do que esse para o fato de que o imperialismo
norte-americano atingiu sua fase terminal, como ocorreu no final da Antiguidade com o
Império Romano e, no final da Idade Média, com o poderoso Império dos Habsburgos, que
chegou a dominar quase toda a Europa, as Américas e partes da Ásia e da África.
E a realidade mais uma vez se encarrega de
enterrar as ilusões daqueles que, baseados em circunstâncias do momento (o curto
crescimento do período Reagan, o baixo crescimento do período Clinton ou a derrocada da
URSS e do Japão), passaram a propugnar que os EUA estavam fadados a liderar uma nova
ordem mundial, já que haviam retomado a iniciativa. Bem que tentaram, mas as
contradições dessa fase parasitária e apodrecida do imperialismo são mais fortes do
que a vontade dos chefes e apaniguados do império.
O tombo da economia norte-americana levará,
inevitavelmente, à bancarrota da economia mundial. Se chegarem a aumentar suas taxas de
juros, como decorrência de uma provável retirada dos capitais japoneses, os EUA
enxugarão capitais do mundo inteiro, além de forçar os demais países a também
aumentar seus juros, a fim de não perder capitais. O resultado será a redução da
produção em todo o mundo. Esse aumento dos juros, ademais, deteriorará mais ainda a
situação dos países endividados, não apenas porque vai piorar suas contas externas,
sobrecarregadas de juros, mas também porque, como todos eles, em face das políticas
neoliberais, se encontram com enormes déficits externos, dependendo, por isso, de
capitais especulativos externos para financiar esses déficits, serão levados à
insolvência se esses capitais fugirem para os EUA. Por outro lado, com a deflagração de
uma recessão no principal mercado do mundo, o norte-americano, tornar-se-á ainda mais
difícil a situação dos demais países, que passaram a depender, em grande medida, desse
mercado. Mesmo sem que o Fed haja elevado os juros, a recessão já começou a se insinuar
nos EUA, como consequência da queda das taxas de lucro das empresas, da queda das
exportações resultante da recessão já deflagrada em outras partes do mundo e da queda
das rendas que decorre da pulverização das riquezas empenhadas nas bolsas. Uma provável
retirada dos capitais japoneses agravaria muito mais esse quadro já difícil.
Sintomaticamente, foi essa a avaliação que fez
o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, durante conferência internacional sobre a crise
na Ásia realizada em Bancoc, na Tailândia, em junho de 1998: "A recessão
econômica da Ásia está prestes a se estender por todo o mundo (...) Não se pode dizer
ainda qual será o impacto". Tem esse mesmo significado o discurso proferido no
Congresso dos EUA, em fins de julho de 1998, pelo presidente do Fed, Alan Greenspan. Eles
só ainda não perceberam foi que, independentemente do agravamento da crise asiática, a
recessão se generalizará a partir dos EUA, cuja economia é, na verdade, o epicentro da
crise.
É curioso como, ao mesmo tempo em que, no
começo de 1998, a economia norte-americana parecia ter chegado ao seu momento de
"auge", também começaram a aparecer os primeiros indícios de recessão. A
queda da taxa de lucro, o aumento dos estoques invendáveis e a queda das exportações
não são mais que a preparação para o tombo. Os sinais são bastante visíveis: a taxa
de desemprego voltou a aumentar, de 4,3% para 4,5% da força de trabalho, de abril para
maio deste ano; o Index of Leading Economy, do Conference Board, permaneceu inalterado em
105,2 de abril para maio; os investimentos do setor de construções, que vinham puxando o
crescimento da economia, caíram 1,5% em maio; o índice nacional de atividade da
produção, medido pela National Association Purchasing Management, caiu pela primeira vez
em dois anos, de 51,4 em maio para 49,6 em junho (um índice inferior a 50 é considerado
um sinal de contração da economia). Assim foi que, depois da "explosão" de
5,4% no primeiro trimestre de 1998, o PIB dos EUA só cresceu míseros 1,4% no segundo
trimestre. Mas a situação seguiu piorando: a produção industrial, depois de cair 1,1%
em junho, voltou a cair 0,6% em julho, levando a capacidade ociosa para cerca de 20% da
capacidade instalada, maior nível depois da recessão do começo da década.
Ainda não chegamos aos momentos mais dramáticos
da crise, mas as dificuldades da economia mundial já são tão grandes que conseguiram
imobilizar o principal instrumento que, tradicionalmente, o império norte-americano tem
utilizado para impor seu receituário para o resto do mundo, particularmente para os
países subdesenvolvidos: o famigerado FMI. Depois de aportar mais de US$ 100 bilhões no
"socorro" das nações da Ásia que naufragaram, ao mesmo tempo em que lhes
exigia condições impossíveis de cumprir, como ocorreu na Indonésia, o FMI não conta
hoje com mais de US$ 15 bilhões para emprestar. Não é por acaso que, apesar da grave
situação financeira da Rússia, ele resistiu até o limite a emprestar-lhe alguns
trocados, mesmo sabendo das inevitáveis consequências internacionais de uma explosão
financeira naquele país. Para fechar o pacote, além de raspar o próprio tacho, dependeu
do aporte dos bancos centrais de vários países.
A sobrevivência do FMI passou a depender da
implementação do mecanismo especial conhecido como Acordos Gerais de Empréstimo,
integrado por 22 países, dentre eles os Estados Unidos, que prevêem o aporte de recursos
da ordem de US$ 50 bilhões, em casos considerados extraordinários. A crise mundial é
tão grave que, ironicamente, esse organismo internacional, que costuma
"socorrer" os países em dificuldades (isto é, emprestar-lhes algum dinheiro em
troca de concessões ao capital financeiro internacional, particularmente o dos EUA),
agora está de pires na mão. E sem qualquer garantia de que será socorrido. É que há
uma enorme resistência, sobretudo do Congresso norte-americano, em aportar-lhe novos
recursos, devido ao rotundo fracasso de suas interpretações e conseqüentes terapias
para as nações asiáticas. Pouco antes da explosão de 1997, as análises do FMI
pintavam a região de cor-de-rosa e elegiam suas economias como modelo a ser copiado.
Depois da emergência da crise, impôs à Indonésia um receituário que quase levou o
país à guerra civil. Situação semelhante ocorreu em relação à Rússia. E, assim,
foi para o espaço a credibilidade que o Fundo desfrutava junto aos especuladores
internacionais, que, em grande medida, se baseavam em suas análises e terapias para
eleger seus campos de aplicação.
É sintomática a declaração do presidente do
Comitê Econômico Conjunto do Congresso dos EUA, deputado Jim Saxton: "O programa do
FMI fracassou completamente para estabilizar os mercados financeiros russos e sua
situação política". No que é secundado por David Hale, economista-chefe de uma
dessas arapucas de agiotagem, o grupo norte-americano Zurich Insurance: "Há
crescentes sinais de que está se rompendo o apoio para políticas ortodoxas orientadas
pelo mercado nas perturbadas economias da Ásia". É essa também a opinião do
jornal "Financial Times", ao dizer que "o presente sistema, baseado no FMI
e no G-7, falhou na prevenção de crises e também está fazendo um trabalho muito pobre
para resolvê-las".
O que esses porta-vozes dos especuladores não
perceberam foi que a tão decantada quanto ilusória competência dos técnicos do FMI
naufragou diante de uma devastadora crise que não se enquadra, nem de longe, em seus
surrados manuais. Não que as crises menos dramáticas possam se enquadrar nesse
receituário, mas, nesses casos, os credores internacionais pelo menos têm alguma
garantia de que receberão de volta alguma coisa do que aplicaram.
Sem fundos e com um receituário desgastado, não
é de estranhar que, em reunião no começo de setembro com ministros da Fazenda da
América Latina e dos EUA, os dirigentes do FMI tenham se limitado a elogiar o trabalho
desses ministros e a recomendar que prossigam nesse mesmo caminho. Não nos esqueçamos
que, pouco antes de explodir a situação na Ásia, o FMI havia se desmanchado em elogios
aos chamados "tigres asiáticos", com destaque para a Indonésia.
A essa altura dos acontecimentos, quando já se
foi longe demais no caminho da especulação global, é praticamente impossível evitar
uma catástrofe global. A oligarquia financeira dos países centrais, preocupada apenas
com o ganho rápido, elevado, fácil e aparentemente seguro, e totalmente despreocupada
com as novas gerações, isto é, com o futuro da Humanidade, já comprometeu
demasiadamente nosso futuro. Até um dos principais porta-vozes do mundo financeiro, a
revista britânica The Economist, já admite que caminhamos para uma depressão global:
"Pela primeira vez desde o início dos anos 80, uma depressão global é um desenlace
imaginável, até mesmo plausível".
Talvez tenha sido por isso que o diretor-geral da
Unctad (órgão das Nações Unidas para comércio e desenvolvimento), o brasileiro Ruben
Ricúpero, em reunião internacional com sindicalistas, patrocinada pela OIT, por ocasião
da comemoração dos 50 anos do GATT, tenha começado sua intervenção pela leitura do
"Manifesto Comunista", que completava 150 anos, sendo que, ao final da leitura,
declarou: "o Manifesto é uma descrição muito atual do mundo contemporâneo".
Elementar, meu caro Watson. Ricúpero foi secundado pelo principal jornal do mundo
financeiro, o ultraconservador "Financial Times". Em um artigo chamado O Capital
revisitado, afirma: "Claramente lições devem ser aprendidas". Com O Capital,
claro.
Os povos do mundo não permitirão que a
devastação a ser provocada pela depressão global se converta em barbárie, e abrirão
um novo caminho de construção de seu futuro. Os movimentos que já estão ocorrendo em
todos os quadrantes do planeta revelam, não apenas uma profunda e crescente indignação
em relação aos rumos - ou melhor, à falta de rumos - que vêm sendo impostos ao mundo,
mas também uma tentativa de trilhar um novo caminho.
Mesmo entre os que haviam aderido a esses tempos
obscuros que elegeram um mercado inexistente, isto é, uma quimera, como o deus do
momento, já cresce a convicção de que, sem o Estado, não se vai a lugar algum. Na
reunião do G-7 de 1997, destacaram-se dois temas: a necessidade de políticas de combate
ao desemprego e de controle da especulação financeira mundial, certamente a serem
implementadas pelo Estado. O FMI, por sua vez, estuda a criação de um imposto para
regular o movimento internacional do capital especulativo. Em sua reunião com o Banco
Mundial, de abril de 1998, esse tema ocupou o centro do debate. Igualmente, o banco
central dos bancos centrais, o Banco de Compensações Internacionais (BIS), com sede na
Suíça, exigiu em seu relatório anual divulgado em junho de 1998 uma maior regulação
dos mercados financeiros. Até o megaespeculador George Soros, talvez apavorado diante da
perspectiva de perder tudo, tem advertido contra os prejuízos da ausência de controle
para o movimento especulativo internacional.
Não é um mero acaso que, depois de haverem
decretado a morte de Keynes, esses adoradores do mercado agora ressuscitam a antiga tese
keynesiana de que se deveria impor freios, "em primeiro lugar, à movimentação
livre dos capitais financeiros na órbita internacional" (cit. in Belluzzo, L.G. O
novo papel do estado frente à globalização, Recife, Sudene, 1997, p.87). A crise cobra
seu preço e faz a realidade se impor sobre os arremedos de ideologia construídos sem
qualquer fundamento no mundo real.
Na realidade, até esses adoradores do mercado
nunca abdicaram do papel do Estado. O problema é que o têm usado, não para alavancar a
economia real, mas para aumentar e proteger a riqueza financeira dos especuladores, como
foi o caso do PROER adotado pelo governo de FHC no Brasil.
O programa adotado no Japão - investimento
público, redução de juros, redução de impostos de empresas produtivas, aquisição de
ações dos bancos, desvalorização da moeda - indica uma direção mais próxima de um
caminho capaz de abrir um novo horizonte de desenvolvimento. O problema é que, ao não
criar um dique contra a especulação financeira global em que se meteram os bancos e as
grandes empresas do país, essas medidas terminam desaguando em mais dinheiro nas burras
dos especuladores. Para controlar essa sanha especulativa, não basta, portanto, reduzir
os juros, injetar dinheiro na economia ou adquirir ações dos bancos privados, pois eles
usam esses recursos para aplicar no mercado financeiro internacional. Parece que o governo
japonês começa a dar-se conta dessa verdade, ao decidir criar um banco público, com
capital de US$ 125 bilhões, para garantir o financiamento das indústrias tidas como
saudáveis e assumir o controle de parte dos bancos em dificuldades. Além disso, segundo
o jornal inglês "Financial Times", cresce no partido governista japonês (PLD)
a convicção de que se deve controlar a saída de capitais do país. O deputado Yuji
Tsushima declarou ao jornal: "a maioria dos parlamentares do PLD sente que há
necessidade de controles sobre a saída de capital para evitar um círculo vicioso de
desvalorização da moeda".
Isso prova que só os Estados nacionais que
conseguirem controlar, efetivamente, seu sistema financeiro (em lugar de serem controlados
pela oligarquia financeira, como atualmente) poderão construir um dique contra a
especulação. O saneamento financeiro que daí se derivaria teria, ademais, a faculdade
de liberar o Estado da imensa carga financeira a que vem sendo submetido, além de liberar
os recursos para o investimento produtivo. E ainda com a vantagem do desaparecimento da
oligarquia financeira, coisa que, aliás, certamente ninguém lamentaria, pois se trata de
um setor de classe que já não tem qualquer função social, vivendo do parasitismo sobre
o conjunto da sociedade.
A saída, portanto, é mais, e não menos,
Estado. O Estado não realizará a salvação definitiva do capitalismo - até porque isso
é impossível -, mas permitirá que ele possa seguir funcionando pelo tempo que lhe
resta, ao mesmo tempo em que ajudará a preparar dias melhores. O keynesianismo - isto é,
a ação do Estado sobre a economia -, como necessidade intrínseca do capitalismo, antes
e agora, não morreu, como apregoaram os arautos do caduco neoliberalismo. A realidade, ao
contrário, exige mais keynesianismo, uma espécie de ultrakeynesianismo, já que os
Estados nacionais, hoje altamente endividados, só poderão voltar a cumprir seu papel se
controlarem seus respectivos sistemas financeiros.
Além disso, dados os riscos inerentes às
pesquisas nas áreas de tecnologias de ponta, que afugentam as empresas privadas, só o
Estado poderá bancar os investimentos necessários às novas descobertas e, portanto, aos
avanços tecnológicos indispensáveis à retomada do crescimento. E só a ação estatal
consciente e planejada poderá, também, fazer com que os avanços tecnológicos e os
recursos existentes e a serem criados - hoje esterilizados na especulação financeira e
na corrida armamentista - possam ser canalizados para o desenvolvimento da produção e
para o desenvolvimento do ser humano, isto é, para o bem-estar da Humanidade. Em suma,
fazer a economia voltar-se a favor do ser humano, e não contra ele, como ocorre nestes
tempos de domínio dos monopólios e da oligarquia bélico-financeira.
Em suma, o mercado está desaparecendo e seu
lugar está sendo ocupado pelos monopólios, que, em sua sanha de enriquecimento a
qualquer custo, estão comprometendo o futuro da Humanidade. Chegou o momento de o Estado,
como instrumento da consciência coletiva, ocupar o lugar dos monopólios e iniciar a
construção de um novo mundo.
Só a ação estatal, por não estar limitada
pela ganância do lucro, será capaz de canalizar para a produção a imensa massa de
recursos excedentes que existem hoje no mundo e ao mesmo tempo fazer desabrochar o imenso
potencial tecnológico já acumulado, permitindo um amplo processo de desenvolvimento
econômico e garantindo, a partir daí, uma melhora substancial do bem-estar da
Humanidade. A tecnologia será utilizada, não para desempregar o trabalhador e trazer
mais tormentos para suas famílias, mas para garantir a melhoria de seu padrão de vida.
Sendo um Estado da maioria e não de um punhado de magnatas das finanças, como sucede
hoje, ensejará um amplo processo de democratização da sociedade. E, assim, seriam
liberadas as amarras, expressas na ganância de uns poucos parasitas, que estão
bloqueando um amplo processo de desenvolvimento econômico, social, político e cultural
da Humanidade.
Vimos, por outro lado, que, em sua busca
ensandecida de monopolizar os mercados, as fontes de matérias primas e a força de
trabalho do mundo, a oligarquia financeira dos países centrais está promovendo a
devastação das nações menos desenvolvidas, ao mesmo tempo em que fortalece seu
próprio Estado nacional, que pretende transformar em Estado de toda a região que quer
monopolizar. Esse processo, se num primeiro momento vem a favorecer os monopólios dos
países centrais, termina por prejudicar o conjunto da economia mundial, na medida em que,
ao destruir as economias menos desenvolvidas, estrangula ainda mais o já limitado mercado
mundial.
Um desenvolvimento duradouro, que beneficie os
povos do mundo, exige, portanto, o fortalecimento das nações do Terceiro Mundo, e não o
seu desaparecimento, como querem os apóstolos do neoliberalismo. Isso significa
reconstruir as bases econômicas nacionais - indústria, estatais, empresas nacionais,
institutos tecnológicos, etc. - que estão sendo destruídas por essa sanha dos cartéis
imperialistas. Não se trata, evidentemente, de isolar cada nação do resto do mundo. O
que leva ao isolamento é precisamente a política de destruição das nações mais
débeis, pois, certamente, é impossível a confraternização do lobo com o cordeiro. O
justo anseio de aproximação dos povos passa pelo fortalecimento - e não pelo
debilitamento - de suas nações. Só nações fortes podem realizar um justo intercâmbio
entre si, o que será uma importante mola propulsora do desenvolvimento.
O fortalecimento das nações mais débeis e de
seus respectivos Estados, isto é, o fortalecimento dos Estados nacionais, é um
instrumento decisivo para a construção da nova etapa do desenvolvimento. Isso só não
interessa aos parasitas que dominam o capital financeiro especulativo dos países
centrais, que querem dominar o mundo a partir de seus próprios Estados nacionais. O
isolamento crescente dessa oligarquia e a crescente consciência e unidade dos povos, que
já vêm ocorrendo nesse período de putrefação da ordem imperial de pós-guerra, é a
base fundamental para a construção de um novo mundo. A contradição do mundo de hoje é
esta: de um lado, a Humanidade e, de outro, a moribunda oligarquia bélico-financeira
especulativa que parasita o mundo; em suma, entre a vida e a morte.
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