A luta
da Humanidade contra o neocolonialismo (I)
"As lutas que hoje
se travam em todos os rincões do planeta mostram claramente uma indignação crescente em
relação ao caminho de devastação que a oligarquia financeira dos países centrais,
encabeçada pela dos EUA, vem impondo ao mundo", afirma o economista Nilson Araújo
de Souza, presidente do Instituto do Trabalho Dante Pellacani, neste artigo, que faz parte
de uma análise mais ampla sobre a crise global. Apontando o colapso da política
neocolonial, Nilson demonstra que através de "manifestações, movimentos grevistas,
disputas eleitorais e movimentos armados, os povos abrem um novo caminho, na busca de um
mundo melhor e humano"
Nilson Araújo de
Souza
As lutas que
hoje se travam em todos os rincões do planeta mostram claramente uma indignação
crescente em relação ao caminho de devastação que a oligarquia financeira dos países
centrais, encabeçada pela dos EUA, vem impondo ao mundo. Abrem, ao mesmo tempo, as
perspectivas de deflagrar um novo caminho, na busca da construção de um mundo melhor e
humano.
Manifestações,
movimentos grevistas, disputas eleitorais, movimentos armados são as várias formas de
lutas que, de acordo com as circunstâncias, têm sido travadas em todos os continentes
nestes últimos tempos.
Vêm ocorrendo
avanços importantes em todo o continente americano, do Canadá à Argentina. No Canadá,
depois de importantes mobilizações em protesto contra a degradação econômica e social
imposta pelo NAFTA, os conservadores no poder foram esmagados nas últimas eleições,
ficando em quarto lugar, vencendo os liberais de Jean Crhrétien, que se tornou
primeiro-ministro. Uma de suas primeiras iniciativas foi a melhoria das relações
econômicas e diplomáticas com Cuba, furando o bloqueio imposto pelos EUA.
Nos próprios EUA,
ocorreram progressos importantes. Apesar da maior campanha difamatória movida contra um
homem público de que se tem notícia, Bill Clinton foi eleito presidente em 1992 e
reeleito em 1996, por combater o desemprego e a política de quebra dos direitos
trabalhistas que, através do "Contrato pela América", a oligarquia
bélico-financeira estava pondo em prática por intermédio do republicano Bush. Nesse
mesmo clima, em outubro de 1995, muda a direção conservadora e pró-imperialista da
central sindical norte-americana, a ALF-CIO, e assumem novos dirigentes comprometidos em
resgatar um sindicalismo mais combativo, a começar pelo enfrentamento do NAFTA. Ocorre,
também, em Washington, a famosa "Marcha de Um Milhão de Homens", organizada
pelo movimento negro contra a discriminação e o corte dos programas sociais. Importantes
mobilizações também inviabilizaram a "proposta 187", que aumentava a
discriminação contra os imigrantes de origem latino-americana. Em meados de 1998, uma
greve contra demissões se alastrou por todas as fábricas da GM no país, paralisando
também outras empresas que lhe fornecem insumos, peças e equipamentos: 122.440
trabalhadores e 24 das 29 fábricas da GM na América do Norte chegaram a paralisar.
No México, um dos
países que mais teve sua economia devastada pelos programas neoliberais, importantes
lutas têm sido travadas no período recente. Em 1º de janeiro de 1994, dia em que se
iniciava a implantação do NAFTA, ocorreu a rebelião zapatista. Daí em diante,
sucedem-se grandes manifestações contra o desemprego e a política do FMI, como os 100
mil no 1º de Maio de 1996 e a manifestação "Somos todos Marcos", que
obrigaram o governo a negociar com os zapatistas e impediram um banho de sangue em
Chiapas. Em 1997, o oposicionista Cuauhtémoc Cardenas, do Partido da Revolução
Democrática, vence as eleições para a capital do país.
O panorama na
América Central também começa a mudar. Na Guatemala e em El Salvador, há décadas em
guerra civil, as oligarquias locais, apoiadas pelos EUA, foram forçadas a negociar com a
guerrilha um acordo que permite um processo de avanço democrático, em que as frentes
guerrilheiras passaram a operar como partidos políticos. No caso de El Salvador, a FMLN,
que liderava a resistência armada, ganhou as últimas eleições na capital. No Panamá,
depois que os marines norte-americanos seqüestraram o comandante de suas Forças Armadas
e principal líder político do país na época, o General Noriega, um candidato apoiado
por seu partido, o PRD do líder nacionalista Omar Torrijos, ganhou as eleições em abril
de 1994, derrotando o candidato apoiado pelo governo imposto pela ocupação
norte-americana. Na Nicarágua, o povo, liderado pela Frente Sandinista de Libertação
Nacional (FSLN), tem realizado uma tenaz resistência às tentativas de desmonte das
conquistas da revolução de 1979, e tem conseguido algumas vitórias importantes, como a
preservação do exército sandinista e das cooperativas, expressão maior da reforma
agrária realizada pela FSLN.
Cuba resiste, de
maneira firme e determinada como sempre, às pressões imperialistas. Agravando o bloqueio
econômico imposto pelos EUA, a derrubada do socialismo na URSS e demais países do leste
europeu foi um importante golpe para a economia cubana, na medida que sofreu uma violenta
queda nas suas exportações, particularmente de açúcar, além de ter prejudicado seu
suprimento de petróleo e de certos produtos industriais que ainda não produzia. Mas a
produção cubana, que foi seriamente afetada no começo dos anos noventa, começou, a
partir de 1993, a apresentar sinais de melhora e a retomar um ritmo de crescimento mais
firme. Para isso, tem conseguido romper, em algumas áreas, o bloqueio norte-americano. É
o caso do Canadá e da Europa. Os governos europeus rebelaram-se contra a decisão
norte-americana de intensificar esse infame bloqueio contra Cuba e terminaram por impor
aos EUA a não aplicação aos países da Europa das cláusulas mais draconianas da
"lei" Helms-Burton. A visita do papa ao país, ao condenar o bloqueio, serviu
para aumentar o isolamento dessa política. Esse isolamento aumentou mais ainda com o
rechaço, pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, em 21 de abril de 1998, do projeto de
resolução patrocinado pelos EUA que visava condenar Cuba por supostas violações dos
direitos humanos.
Em vários países
da América do Sul, cresce o combate contra as políticas de devastação nacional. No
Equador, os neoliberais perderam as eleições para Bucaram, que fez campanha contra essa
política. Como, em seguida, traiu os eleitores, convocando o ex-ministro argentino
Domingo Cavallo para pilotar nova investida neoliberal, manifestações populares levaram
ao seu impeachment. Na Venezuela, está ocorrendo fenômeno semelhante. Achaque neoliberal
conduzido por Carlos Andrés Pérez, que já havia detonado o "Caracazo"-
revolta popular contra o aumento de preços -, provocou dois levantes cívico-militares em
1992, levando ao impeachment do presidente. Para sucedê-lo, ganhou as eleições, numa
frente ampla contra essa política entreguista, o veterano Rafael Caldera. Como este
terminou por adotar esse mesmo caminho, cresce a indignação popular no país, levando a
que o favorito para as próximas eleições, em dezembro de 1998, seja o líder dos
levantes, o coronel Hugo Chaves, apoiado pelos nacionalistas e comunistas.
Na Bolívia, o
candidato do entreguista Lozada, responsável, primeiro como ministro da Fazenda e depois
como Presidente, pela política de devastação do país, foi derrotado nas urnas pelo
general Hugo Banzer. Não foi por mero acaso que um ex-ditador, que serviu anteriormente
aos interesses norte-americanos, agora serve de instrumento do povo para protestar contra
a política imperialista para o país. É sintoma da gravidade da situação em que a
política neocolonial meteu o país. Greve geral realizada no primeiro semestre de 1998
contra a continuidade da política entreguista sacudiu o país inteiro.
Nas eleições
paraguaias de maio de 1998, criou-se uma situação ímpar: não houve na disputa um só
candidato para defender as posições do presidente neoliberal Juan Carlos Wasmosy. O
principal candidato oposicionista era o general nacionalista Lino Oviedo, pertencente ao
mesmo partido do presidente, o Partido Colorado, enquanto o outro candidato, Domingos
Laíno, também encabeçava uma frente de oposição ao governo. O próprio partido de
Wasmosy retirou apoio ao seu programa entreguista. Ensaios nesse sentido vêm sendo feitos
pelo PRI do México e o Partido Peronista da Argentina.
Acuado, o presidente
montou um tribunal de exceção que, além de mandar prender Oviedo, cassou sua
candidatura. Mas o tiro saiu pela culatra. O vice de Oviedo na chapa, Raúl Cubas, assumiu
seu lugar e fez da campanha um plebiscito com o slogan "Raúl Cubas no governo é
Lino Oviedo no poder". A espetacular vitória de Cubas (sua chapa ganhou em todos os
níveis), além da ausência de um candidato governista nas eleições, revelou o grau de
desgaste a que levou o desastre econômico e social provocado pela política subserviente
adotada no país. A primeira medida de Cubas, ao assumir o poder, foi revogar a odiosa
condenação de Oviedo e libertá-lo.
No Uruguai,
plebiscito realizado há dois anos decidiu contra o prosseguimento das privatizações. A
Frente Ampla, que une a esquerda e os nacionalistas, já governa a capital (onde vive
metade da população do país) e desponta com grandes chances para as próximas
eleições presidenciais.
No Chile, uma frente
integrada pela Democracia Cristã e o Partido Socialista governa o país desde a queda da
ditadura de Pinochet. Esse país havia sido o pioneiro na adoção de políticas
neoliberais no continente, que agiram como um verdadeiro tufão que devastou sua economia.
Em 1989, o consumo per capita ainda era menor do que o de 20 anos antes. A indústria foi
dizimada: fecharam-se as portas das doze montadoras de carros e de todas as fábricas de
eletrodomésticos, além de setores inteiros da economia. O desemprego chegou a atingir
30% da força de trabalho e os que estavam abaixo do limite de pobreza chegaram a
representar a metade da população. A economia chilena retornara ao modelo
primário-exportador, concentrando-se na produção e exportação de cobre, pescado
(salmão), frutas e madeiras.
Ao chegar ao
governo, a frente de "centro-esquerda" ensaiou uma mudança dessa política
econômica, retomando os investimentos públicos, com base na exportação da indústria
do cobre, que permanecera em mãos estatais. E foi isso que permitiu um certo crescimento
da economia. Mas a manutenção do essencial da política neoliberal está levando ao
esgotamento desse crescimento e a um crescente desgaste do governo. A queda do preço do
cobre, forçada pelos EUA, se juntou à queda das exportações para a Ásia (que vinha
sendo um dos principais mercados do país) para deteriorar as contas externas chilenas: o
déficit comercial ressurgiu em 1997 e está se agravando em 1998, havendo pulado de US$ 1
bilhão para uma previsão de US$ 3 bilhões. O déficit em conta-corrente, que foi de 5%
do PIB em 1997, ameaça chegar aos fatídicos 7% em 1998. E assim começa a malograr o
tão decantado "milagre chileno". O episódio da aprovação de Pinochet como
senador vitalício serviu de estopim e está levando o povo a grandes manifestações de
rua. Desponta como principal candidato presidencial para as próximas eleições um nome
do Partido Socialista, o que representa uma virada mais à esquerda em relação à frente
que governa o país.
A imposição do
modelo neoliberal no Peru exigiu a implantação de uma ditadura por parte de Fujimori,
repetindo o que já ocorrera no Chile com Pinochet. Mas, depois da tomada da embaixada
pelo MRTA, tem havido um crescente isolamento de Fujimori. Manifestações populares têm
ocorrido com freqüência; em 1997, houve greve na construção civil, com fortes
enfrentamentos em Lima; o ditador vem enfrentando grandes dificuldades para garantir sua
terceira "eleição". Importantes manifestações populares têm se realizado
contra esse seu intento.
O país da América
do Sul em que o governo mais se agachou diante da pressão imperialista dos EUA foi a
Argentina. Encabeçado por um verdadeiro mentecapto, Carlos Menem, que traiu suas origens
peronistas, tem-se adotado no país um programa que só não acabou com a indústria local
porque esta encontrou uma válvula de escape no mercado brasileiro, favorecida que foi
pelos acordos do Mercosul. A greve geral de 1995, o "apagón" de 1996, as duas
greves gerais de 1997 e as explosões de revolta nas províncias contra o desemprego e o
atraso de salários precederam a importante derrota eleitoral que, nas eleições
legislativas de 1997, a frente unida das oposições impôs ao governo servil de Menem.
Sob essa pressão, o próprio Menem começou a realizar algumas mudanças em sua
política, particularmente na questão dos direitos trabalhistas. Isolado na opinião
pública, teve que renunciar às pretensões descabidas de um terceiro mandato.
No Brasil, as
políticas neoliberais foram inauguradas em 1990 pelo famigerado presidente Collor, que
deflagrou a redução das barreiras protecionistas, a entrega das empresas estatais e o
arrocho salarial. Não foi, certamente, a compra de um carro ou a construção de um
jardim em sua mansão brasiliense que levou a seu impeachment. O povo foi às ruas,
encabeçado pelos estudantes "carapintadas", porque se sentiu traído por um
presidente que prometera ajudar os "descamisados" e "pés-descalços",
mas os estava massacrando com o desemprego e o arrocho salarial. O clima criado pelas
mobilizações populares terminou levando ao engajamento de setores das chamadas elites
políticas e empresariais, incluindo setores da mídia, insatisfeitos com a forma aloprada
com que o governo Collor se relacionava com eles.
O programa
entreguista de Collor não apenas prossegue, mas se aprofunda na administração de
Fernando Henrique Cardoso. Senador medíocre, que havia decidido não se recandidatar por
absoluta impossibilidade eleitoral, consegue ser nomeado ministro da Fazenda de Itamar
Franco, que, como vice, havia assumido a presidência com a derrubada de Collor. Como
ministro, acelera a implementação do "Consenso de Washington", subordinando
nossa moeda ao dólar, além de supervalorizá-la artificialmente, e acelerando a
derrubada das barreiras protecionistas, tornando os produtos estrangeiros mais baratos no
país. Foi a queda da inflação, assim obtida, que garantiu sua eleição à presidência
da República. A radicalização dessa política, no entanto, tem levado ao fechamento da
indústria nacional, à maior desnacionalização da nossa história, ao desemprego em
massa, ao aumento da vulnerabilidade externa da nossa economia, ao sucateamento dos
serviços públicos, à fome e à miséria.
A resistência a
essa política tem crescido. Nas eleições municipais de 1996, o partido do presidente, o
PSDB, não elegeu prefeito em qualquer capital importante. Os trabalhadores rurais sem
terra têm ocupado terras em todas as partes do país e realizado importantes
mobilizações de massa, forçando o avanço da Reforma Agrária. O processo de votação
pelo congresso das medidas neoliberais impostas pelo governo tem enfrentado grande
resistência. E algumas vitórias têm sido conquistadas pelo povo, particularmente na
votação da emenda constitucional que pretende privatizar a Previdência e inviabilizar a
aposentadoria de milhões de trabalhadores. Os professores universitários, há quatro
anos sem reajuste salarial, realizaram uma combativa greve geral nacional no primeiro
semestre de 1998, que durou mais de três meses.
O desgaste do
governo FHC é crescente. No primeiro semestre de 1998, chegou a níveis críticos. Por
isso, usou de todos os meios para impedir que se lançasse uma candidatura que unisse a
oposição, sob a liderança do PMDB. Conseguiu impedir uma candidatura própria do PMDB,
mas não logrou o apoio do partido a sua candidatura. O agravamento da crise mundial a
partir de agosto expôs, na superfície, o grau de vulnerabilidade a que a política de
FHC conduziu o país. Com as finanças do país literalmente quebradas, os especuladores
começaram a debandar: entre agosto e a primeira semana de setembro, se evaporaram cerca
de US$ 19 bilhões das nossas reservas cambiais. E o governo mais uma vez responde com
elevação dos juros e corte nos gastos públicos, agravando a já forte tendência
recessiva e de aumento do desemprego. Nesse quadro, um candidato que expresse os
interesses nacionais terá todas as chances de ganhar da coalizão conservadora e
entreguista encabeçada por FHC nas eleições presidenciais de outubro e novembro deste
ano.
A Europa também tem
experimentado importantes mudanças políticas. Na França, grandes mobilizações
populares contra o arrocho de Maastricht - condição para integração na União
Européia - levaram à renúncia do primeiro-ministro Juppé em maio de 1997. Destacam-se
a mobilização, em janeiro de 1994, de 1 milhão de estudantes contra o decreto que
visava, na prática, revogar o salário mínimo para os jovens; a greve dos transportes em
abril de 1995, e também em defesa do setor público e contra as demissões; em novembro
de 1995, a França foi conflagrada por uma semana de mobilização contra a tentativa de
desmonte da Previdência; e em junho de 1997 Paris sediou a manifestação de 100 mil
trabalhadores europeus por "uma Europa com empregos".
A direita francesa,
liderada por Chirac, havia ganho as eleições do Partido Socialista de Miterrand porque
se colocara contra a política de subordinação ao domínio germânico. Mas, ao manter e
intensificar esse caminho, foi repudiada nas ruas pelo povo e, depois, também apeada do
governo. Depois de derrubar Juppé, o povo deu vitória a uma coalizão entre socialistas
e comunistas, encabeçada por Lionel Jospin, que colocou no centro da sua plataforma
eleitoral a luta pela criação de empregos.
Na Itália, o
arrocho imposto pelo regime de Silvio Berlusconi, apoiado pelos neofascistas, para
enquadrar sua economia nos acordos de Maastricht, levou 1,5 milhão de pessoas às ruas,
em outubro de 1996, em defesa do emprego e da seguridade social. Logo depois, Berlusconi
seria defenestrado nas eleições, que dariam vitória à aliança formada pelo Partido
Democrático de Esquerda (ex-comunista) e a Refundação Comunista, além de setores que
se desprenderam da antiga Democracia Cristã, formando um governo liderado por Romano
Prodi. A mobilização popular mantém a pressão para que esse governo rompa com a
política direitista anterior: em junho de 1998, cerca de 300 mil pessoas realizaram em
Roma uma marcha contra o desemprego.
O reinado inaugurado
por Margareth Thatcher na Inglaterra em 1979, e que se colocou como tarefa primordial
"derrotar os trabalhadores", também foi banido pelas urnas. Os conservadores
já haviam sido surrados em maio de 1996 nas eleições municipais e, logo depois, com a
oposição obtendo 71% dos votos, os trabalhistas liderados por Tony Blair apearam do
poder o sucessor da "Dama de Ferro", John Major. Essa nova situação favoreceu
a luta nacional dos irlandeses, levando a um acordo, no começo de 1998, que, ainda que
não tenha resolvido a questão nacional irlandesa, deflagra um processo que pode levar à
reunificação do povo da Irlanda num prazo relativamente curto.
A situação na
Alemanha também começou a esquentar. O desemprego recorde e a tentativa do
primeiro-ministro Kohl de fazer os trabalhadores pagarem pelo "ajuste do euro"
(leia-se: quebra dos direitos sociais) têm levado a grandes mobilizações, como os 350
mil trabalhadores que se manifestaram nas ruas em julho de 1996, além dos 120 mil que se
mobilizaram contra o corte de 20% do auxílio-doença. As derrotas sofridas nas eleições
provinciais de começo de 1998 antevêem a queda do direitista Kohl nas próximas
eleições no segundo semestre deste ano.
E tem sido assim por
toda a Europa. Em Portugal, o neoliberal Cavaco Silva perdeu em janeiro de 1996 para o
socialista Antônio Guterres, que assumiu a direção do governo. Na Bélgica, o arrocho
de Maastricht levou à greve geral e à maior manifestação dos últimos anos, com 120
mil trabalhadores, contra as demissões na Renault. Na Espanha, por ter conduzido uma
política neoliberal que elevou o desemprego para o patamar dos 20% da força de trabalho,
o "socialista" Felipe González foi apeado do governo, depois de dez anos no
poder. Por falta de uma alternativa popular imediata, foi a direita que ganhou,
ironicamente com uma agremiação de nome Partido Popular. Mesmo assim, o significado do
voto foi o protesto contra essa política de desmonte nacional. Esse fato levou a uma
mudança da liderança do PSOE, que deve concorrer às eleições de 1998 com uma
posição mais pela esquerda. Contra toda a direção do partido, afinada com Gonzalez,
Borrel ganhou as mais democráticas eleições internas realizadas no PSOE e deve ser seu
candidato ao governo nas próximas eleições.
A Albânia, que
vinha sendo massacrada pelo truculento neoliberal Berisha, foi varrida por um levante
popular armado, que garantiu as eleições e deu vitória nas urnas à frente que liderou
o levante. Na Grécia, realizou-se em novembro de 1996 greve geral de 48 horas contra o
"ajuste do euro".
Nem a pacata Suíça
conseguiu suportar o descalabro neoliberal. A gélida temperatura do país não foi capaz
de evitar que os jovens se esquentassem e, em maio de 1998, mais de 10 mil deles fizessem
um verdadeiro levante, no maior protesto já visto no país, contra a política neoliberal
que vem devastando sua economia. Foi a forma como Genebra recebeu os chefes de estado dos
principais países do mundo que ali estiveram para as comemorações do 50º aniversário
de criação do GATT (Acordo Geral de Comércio e Tarifas) e a II Conferência da
Organização Mundial do Comércio. Nos muros, a inscrição: "Quando uma democracia
mascara uma ditadura neoliberal, rebelião". Coincidentemente, os discursos mais
aplaudidos, ou melhor ovacionados, durante a reunião da OMC foram os de Fidel Castro e
Nelson Mandela, que realizaram veemente denúncia da postura arrogante dos EUA no sentido
de fechar seu próprio mercado aos produtos estrangeiros, enquanto tentam abrir os demais
mercados do mundo para seus produtos.
A consequência
desse processo foi que, depois da "onda direitista" que ocupou a Europa até há
pouco tempo, o mapa político da região experimentou uma sensível mudança: de 15
países da União Européia, apenas dois continuam nas mãos da direita, sendo que um
deles, a Alemanha, poderá mudar de lado ainda neste ano.
Na Rússia,
assiste-se ao desmoronamento do governo decrépito de Boris Yeltsin. No 1º de Maio de
1995, um milhão de trabalhadores se mobilizaram contra o atraso no pagamento de salários
e o saque do país e do patrimônio público. A greve geral de novembro de 1996, com 15
milhões de participantes, mostrou a que nível chegara o grau de descontentamento
popular. Nas últimas eleições presidenciais, em 1996, apesar de toda a pressão
imperialista, da campanha difamatória da mídia e de não contar com qualquer espaço nos
meios de comunicação, os comunistas obtiveram 40% dos votos, além de conquistarem o
governo de 45 das 89 regiões administrativas do país.
Boris Yeltsin
ganhou, mas não tem conseguido governar: no primeiro semestre de 1998, em meio ao
desastre da economia, o bufão teve que mudar seu governo e encontrou grandes dificuldades
para aprovar no parlamento o novo governo, liderado pelo Yeltsin´s boy Serguei Kirienko.
Também foi encurralado por grandes manifestações contra o atraso de salários que
voltaram a ocorrer no primeiro semestre de 1998, chegando a mobilizar mais de 15 milhões
de trabalhadores. Os mineiros, em greve por todo o país, chegaram a dividi-lo em dois, ao
bloquear a via Transiberiana. Foram paralisadas 80% das ferrovias do país. O parlamento
abriu processo de impeachment contra Yeltsin por traição à Pátria, além de haver
aprovado moção pela sua renúncia. A implementação do pacote-arrocho imposto pelo FMI,
em meados de 1998, além de colocar mais lenha na fogueira, não conseguiu evitar a
moratória das dívidas do governo, a suspensão da livre-conversibilidade e a
desvalorização do já debilitado rublo, decretadas em agosto de 1998.
O agravamento da
crise levou à queda do gabinete de Serguei Kirienko poucos meses depois de sua ascensão.
Para substituí-lo, Yeltsin ainda tentou emplacar o ex-premier Viktor Tchernomirdin, que,
junto com ele, havia levado a Rússia ao desastre. No entanto, o Congresso, comandado
pelos comunistas do Partido Comunista da Federação Russa e outras forças patrióticas,
rejeitou a indicação. Sem alternativa, o tzar decadente teve que indicar alguém que
contava com a simpatia por parte dessas forças que comandam o Congresso, Ievguêni
Primakov, que, à frente do Ministério das Relações Exteriores, havia tentado superar a
postura servil que vinha caracterizando o governo desde a queda da URSS. A primeira medida
de Primakov, ao assumir o cargo de primeiro-ministro, foi nomear para 1º vice-premier
(responsável pela área econômica) e para presidente do Banco Central dois
representantes do Partido Comunista da Federação Russa, respectivamente Iuri Masliukov e
Viktor Geraschenko. É certo que ainda permanecem no ministério vários representantes
das forças do entreguismo yeltsinista, mas, claramente, abriu-se um período de dualidade
de poderes: os comunistas e demais forças patrióticas, além de hegemonizarem o
parlamento, passaram a ter um peso decisivo dentro do próprio governo, particularmente em
sua área econômica, enquanto os entreguistas permaneceram no núcleo central do poder, a
presidência, mas um núcleo em processo de esvaziamento.
Cada vez com menos
poder, dificilmente Yeltsin resistirá muito tempo. O destino de Suharto o espera.
Na segunda maior
república que integrava a URSS, a Ucrânia, os comunistas derrotaram o governo direitista
e tiveram sozinhos a metade dos votos nas últimas eleições parlamentares, realizadas no
primeiro semestre de 1998. Sua campanha se concentrou na denúncia do arrocho imposto pelo
FMI, do desmonte da estrutura produtiva e da seguridade social e do atraso de vários
meses no pagamento dos salários. A Bielo-Rússia elegeu novamente um governo
nacionalista, que forma com os comunistas a maioria no parlamento. Faz parte da sua
plataforma o retorno de uma política de restabelecimento dos laços entre os povos
soviéticos.
No leste europeu,
tem havido avanços e recuos. A desestruturação de suas economias e o desmonte de suas
estruturas sociais, por parte de governos conservadores, têm levado, em muitos casos, a
vitórias eleitorais de partidos que o povo identifica como portadores da mudança, que,
normalmente, são os antigos comunistas convertidos em social-democratas. O retorno de
governos conservadores, depois de uma experiência com um governo de "esquerda",
como ocorreu na Polônia e na Hungria, não significa, necessariamente, a admissão de que
os conservadores têm enfrentado melhor os problemas que vivem esses países. Só
significa que o povo, ao ter virado antes para o que identificava como esquerda,
expressava um sentimento de mudança que a chamada esquerda não conseguiu dar conta, por
ainda se encontrar esmagada pelo processo de desmonte do socialismo e pela pressão
imperialista.
Na República Checa,
o governo do primeiro-ministro Vaclav Klaus, que comandou o desmonte da Tchecoslováquia,
caiu no outono de 1997, sob a pressão popular. O povo cobrava a apuração dos
escândalos financeiros que envolveram as "privatizações", isto é, o selvagem
processo de doação do patrimônio público nacional. A situação financeira do país
piora cada vez mais. Teve que torrar as divisas para tentar manter o engessamento do
câmbio. Sua situação é tão vulnerável que pode, a qualquer momento, sofrer uma
ataque dos especuladores internacionais. Nas últimas eleições, em junho de 1998, a
oposição de esquerda, liderada pelo Partido Social Democrático, derrotou o governista
Partido Cívico Democrático.
É bastante
conhecida a tenaz resistência do povo da Iugoslávia para impedir a política de
desmembramento praticada no país pela Alemanha. O que o imperialismo alemão pretende é
a "balcanização" e conseqüente germanização da região para facilitar seu
acesso às fontes de matérias-primas da Rússia. Depois de anos de guerra na Bósnia, em
que os nacionalistas sérvios resistiam a essa política, um acordo tripartite (sérvios,
croatas, muçulmanos) suspendeu as ações bélicas, mas a situação da região ainda
não está inteiramente equacionada. Até porque persiste, por parte da Alemanha, o
objetivo de esquartejamento da Iugoslávia.
Os avanços na Ásia
também têm sido substanciais. No Japão, que detém a principal economia da região, o
agravamento da crise econômica já provocou uma forte crise política. O descontentamento
popular é tamanho que o Partido Liberal-Democrata (PLD), que governa o país desde a
segunda guerra, vem apresentando crescentes dificuldades de manter-se no poder. Desde
1989, quando estourou a crise na Bolsa de Tóquio, o país já teve nove
primeiros-ministros. Em 1993, o PLD foi derrotado nas urnas pela primeira vez no
pós-guerra e chegou-se a formar um governo sem a sua presença. De lá para cá, esse
partido só conseguiu permanecer no poder porque incorporou uma série de outros partidos
ao pacto governamental, abrindo espaço, inclusive, para organizações que tinham uma
tradição de esquerda. E, nas últimas eleições para a Câmara Alta (Senado),
realizadas em julho de 1998, o partido governista foi fragorosamente derrotado (das 126
cadeiras em disputa, só conquistou 44), levando o premier Ryutaro Hashimoto a renunciar.
Pesquisas de opinião junto aos eleitores indicaram que 85% deles usaram as eleições
para protestar contra a situação econômica do país. E 74% da população rejeitavam o
PLD. Mais grave ainda: menos de uma semana depois da escolha do novo primeiro-ministro,
Keizo Obuchi, também do PLD, pesquisa de opinião dava conta de que ele era rejeitado por
75% da população. É essa a democracia vigente no Japão: um partido repudiado por
praticamente toda a população permanece governando. Mas, mesmo numa democracia de
fachada como essa, fica cada vez mais difícil manter essa farsa.
Na Índia, a adesão
ao neoliberalismo, em 1991, por parte do Partido do Congresso, que governava o país desde
a independência, fez esse partido perder todas as eleições que ocorreram desde então.
Primeiro, assumiu o governo uma frente de esquerda, sob o nome de Esquerda Unida, liderada
pelos comunistas, que, no entanto, não conseguiu manter-se por muito tempo, devido,
fundamentalmente, às dificuldades de composição com os nacionalistas. Nas eleições
seguintes, em 1997, ganharam os nacionalistas hindus, do Partido Janata, que governam
atualmente o país. A decisão de prosseguir suas pesquisas nucleares, manifestada
através de algumas explosões experimentais realizadas em maio de 1998, está levando a
um aumento da tensão com o imperialismo e ao fortalecimento da consciência nacional do
povo indiano. Ao tentarem impor um bloqueio econômico ao país, os EUA ficaram falando
sozinhos, porque não conseguiram a adesão dos demais membros do G-7. A superação dos
problemas do país depende, em grande medida, da união dos comunistas e nacionalistas.
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